Liberdade sem cultura e sem educação?

(Foto:blog A Devida Comédia)

Malraux dizia que “a Cultura é a soma de todas as formas de arte, amor e pensamento que, ao longo dos séculos, permitiram ao homem ser menos escravizado”.

Fico a pensar no meu país, evidentemente, que já nem Ministério da Cultura tem… -conforme a promessa eleitoral do PSD.

Dei-me ao trabalho de ler o Programa deste que é o XIX Governo Constitucional. A Cultura aparece como o último item, ocupando seis das 129 páginas. Segundo o governo, ela “constitui, hoje, um universo gerador de riqueza, de emprego e de qualidade de vida”. Balelas eleitorais.

Dois exemplos apenas desta política pró-cultura/educação: há cada vez mais professores no desemprego e há disciplinas deitadas ao lixo (antes serviam, agora não).

Por outro lado, vivemos num país em que é a arte que vai ter com as pessoas, vai à rua ou a sua casa, como já aconteceu em Guimarães, Capital Europeia da Cultura. Disse um dos organizadores: “ Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé”… Na cerimónia de abertura, não se ouviu o secretário de Estado da Cultura (estranho)…Estava lá? 

Como escreveu Augusto M. Seabra em Setembro do ano passado («SOS Cultura», Ípsilon, PÚBLICO), há um “desinvestimento” na cultura que é uma “área estratégica na sociedade contemporânea. A Cultura é o único setor [único, sublinhou] que não está representado no Conselho de Ministros. (…) Francisco J. Viegas é o executante de uma liquidação”.

Não temos ministério nem ministro e a cultura é um apêndice no programa do governo. Em contrapartida, fizemos tudo para sermos Capital Europeia da Cultura 2012…Ridículo.  

Quer-se acabar com a disciplina de Formação Cívica (uma boa forma de prevenir a corrupção – disse há dias o presidente do Conselho da Corrupção); quer-se acabar com a disciplina de E.V.T.; o apoio às escolas de música deixa muito a desejar; etc. 

Para terminar, penso à mistura deste cozinhado atribulado, nas palavras do pensador espanhol Fernando Savater: “Um dos ingredientes mais perversos da miséria, é a ignorância. Onde há ignorância (…) aí reina a miséria e não há liberdade. (…) a educação não é um aspecto simplesmente optativo, mas uma obrigação pública”(O Valor de Educar, 2007).

Seremos, então, verdadeiramente livres, não obstante o 25 de Abril? Que democracia vivemos?

Comments


  1. Que democracia vivemos? – “de mierda”.


  2. Sempre excelente e bem fundamentada no que escreve.
    Não é indispensável um Ministério para a Cultura se for para ter muitos secretários e direcções, basta uma estrutura simples e funcional.
    Como a Defesa deveria ser uma pequena, pequena Secretaria de Estado. Só para assuntos relacionados com a Nato. O resto passaria para as seguranças públicas. Olhe a poupança, e a nossa segurança na rua e das obras de Arte!
    Quanto a Guimarães 2012, excelente! Quanto a espectáculos de muita inauguração, com pompa e circunstancia e muitos importantes , deveria dispensar-se!!! Evitar-se!
    Quanto a Formação Cívica, é tão necessária, tão inexistência. Como Filosofia, não se pensa em abstracto!!! Musica, evidentemente tão necessária.
    Não gera dinheiro imediato!!!!
    Se estivéssemos em ditadura estaríamos muito pior, isso não é para duvidar. Só quem não viveu antes do 25 de Abril pode achar que era bom. Não era.
    Mas esta democracia destes 30 e bastantes anos, caiu no descalabro das importâncias, dos importantes, das mordomias, do “dar nas vistas”!!!!! e gastou-se o que se tinha e não tinha e hoje estamos mal….
    Talvez criar novos valores ao tempo e espaço de hoje, novas regras, – em democracia, sempre – para se saber bem melhor estar e comportar…………..e com muito mais Cultura e menos Guerra, e menos Importantes.

    Muito bom o que sempre escreve.

  3. São Vieira says:

    Devo acrescentar que não é uma àrea nao disciplinar (como Formação Cívica) que ajuda combater a corrupção, mas sim todos os professores de todas as áreas deverão estar empenhados nisso…mas devem estar sensibilizados…enfim, não observo que isso aconteça. Lamentável, porque não há um projeto de escola que vá nesse sentido. Tudo é permitido e o professor que é mais sensível para isso, ainda será ostracizado pelos seus pares e perseguido pelas famílias dos meninos…se hoje ainda há indisciplina na escola, ela verifica-se na sociedade em que tudo é permitido: existem muitas leis tal como existem muitas regras nas escolas, mas não são efetivamente aplicadas, daí não serem eficazes. A eficácia resulta sempre duma aplicação rigorosa do que se pretende.


  4. As regras só se compreendem se forem aplicadas, caso contrário são coprpos teóricos sem utilização prática, sem sentido e sem razão. No incumprimento nasce o caos e o salve-se quem puder, ou quem tiver as costas protegidas. Infelizmente, são estes os valores que imperam numa sociedade que caminha para a autodestruição, quando a minha vontade chocar violentemente com a vontade do outro…

  5. António Fernando Nabais says:

    Efectivamente, a escola está transformada num depósito em que só por carolice dos professores os alunos podem contactar com várias artes necessárias ao desenvolvimento psíquico. Assim, os pais que tiverem possibilidade poderão proporcionar aos filhos a exposição à música, ao teatro ou à pintura. Os outros vão à escola.
    Para além disso, os alunos passam pela escola e não há nenhum espaço em que aprendam alguma coisa sobre a justiça, direito ou política. A democracia é como as pessoas: se for muito pobre, nem sequer é democracia.


  6. “Depois de ler este texto de Céu Mota no “Aventar.eu” eu ia comentar. Mas afinal saiu um novo post:
    Na primeira aula que tive sobre totalitarismos no semestre passado – na cadeira de Culturas Contemporâneas lecionada pelo Historiador Rui Bebiano [aterceiranoite.org] – a primeira distinção que fizemos foi entre este modelo e um simples sistema ditatorial regido pela força. Essa consiste no facto de no primeiro haver uma clara pretensão em escravizar as almas, além dos corpos, e em levar a sua ideologia a toda a extensão do território, sendo que violência tem uma base de legitimação em prol da ideologia em implementação. A melhor forma de escravizar as almas, e ajudar à criação de um (homem) novo rumo é: controlando e limitando o acesso à cultura; dilacerando a educação e torna-la mais próxima dos ideais que vêm de cima por fim a moldar as futuras mentes; censurar e controlar os meios de comunicação e criar um meio propagandístico dos ideais impostos.”

    Quem quiser continuar a ler: joaopereirinha.blogs.sapo.pt

  7. marai celeste ramos says:

    Acho que cultura é algo complicado de definir embora pense que há cultura & cultura e que sejam ultimamente os urbanos a pensar que só eles sabem o que é e quie a “produzem”
    Por mim nunca veria nas ciade grupo de homens a tocar (à laia de castanholas) musica fanástica só aom pedars na mão – as castanholas já são mesmo sofisticadamnet urn«banas e lamento que a reportagem que vi, tenha desaperecido e se desde o início do ano, pelo menos repetem mese a mesma porcaria dos mesmos programas da mais baixa qualidade, e ausência de cultura (ou cultura de undergroud) o certo é que na aus~encia não apenas de ministério mas de homens cultos nos lugares cimeiros, a cultut«ra nem sequer desapareceu nem desaparece a não ser que o CAMPO esvazie, o interiir desertifique e reste, apenas a cultura paltificada, mesmo com grandes homens de grande cultura sendo genuinamente urbanos
    Ainda ontem vi lino documentário sobre Orlando Ribeiro que mesno nascido em tempo antes de 25 a, era não apenas homem de profunda cultura mas, inda e sobretudo, humanista
    E sendo que, também, a partir da despromoção governamental da Cultura, de repente toas as cidades e aldeias de Portugal irromperam país fora e restaurar e recuperar fontes e gestos culturais que andavam pelas “prateleiras”
    E também nunca em lisboa, pelo menos, a cultura saíu tanto à RUA para todos e sem o elistismos dos S.Carlos (onde adoro ir) mas que abriu as portas a quem nem sequer esperava poder estar presente – a matriz genética da cultura é omipresente no homem e pode ficar congelada, mas em todas as primaveras há o degêlo, como foi em 2011 inteiro e continua – não são os jornalistas governamentais e governamentalizados que a animam directamente, ou que a extingem – mas exactamente pelas razões contrárias renasceu porque todos os portuguses ficaram livres e libertados de programs e paternalismos e orçamentos governamentais e o pais renasceu – como naquela fotografia linda de um aventar de céu de tanta nuvem e tão megras – mas que permitiu, exactamente pela predominância do “negro” , ver e apreciar mais luz – habituados a que todas as iniciativas venham de cima esquecemos que são os homens c+a do “burgo” de baixo que são detentores da verdadeira cultura na sua mais inteira dimensão – cultura contra a incultura comandada – ´quse mal comparado como as sindicais por mais necessárias que sejam mas que estão cheios de slogans e formatação das mentes e começam e existir grevessem as mentes que – apenas que se pode cair no CAOS ?? ai pode ?? para renascer nova ORDEM – o homem mata o fisico e amente mas não o espírito e a essência – fas escravos mas, no oposto e complementar, faz liberdade para quem a tem e ousa e não tem mêdo – a sociedade tem de ser organizada e um sentido de evolução ?? tudo bem, mas quando se aperta o arame farpado, alguém tem o alicate para o cortar e há males que vêm por bem – e concordo com Graça Moura que pode ser posto na RUA mas ousou não cumprir uma lei de merda porque a minha lingua não é matéria de manipulação política e de moeda de “troca” se for posto na rua – vamos ver – ao menos bateu com a porta com uma lei de mentecaptos porque nem todas as leis são a favor do maelkhor mas, antes, castradoras e demolidoras – BRASILÊS jamé jamais – carneirinhos já houve – sacristÔES também – implodir não é sempre destruir – é começar de novo e diferente e mais correcto e ético e estético

  8. Tito Lívio Santos Mota says:

    “fazer muito com pouco” foi, creio eu, uma frase dum discurso do Cavaco ou do Passos Coelho, para definir a “nova” política.
    Ora, nada mais à mão para fazer muito pelo emprego, pela economia, pelo turismo e pelas exportações com pouquíssimo orçamento, que a cultura.
    A cultura é o quarto setor económico português e o terceiro exportador.
    Se juntarmos a sua influência direta na geração de turismo, a cultura é um dos motores da economia nacional.
    Qual era o orçamento da cultura quando havia ainda ministério?
    150 milhões de euros, ou seja, nem sequer 0,5% do orçamento total do Estado.
    Um setor que gera tanto emprego, tantas divisas, tanta criação de riqueza, com um orçamento tão reduzido, merecia ser posto de parte por razões económicas?
    Dobrar o orçamento da cultura seria atingir apenas 1% do orçamento geral, mas obter inimagináveis vantagens sociais, económicas e de equilíbrio da balança de pagamentos.

    Se o não querem fazer, talvez seja por estupidez política e ignorância económica (já deram vários exemplos disso), mas creio que a razão se prende (como alguns indicaram aqui) com a do nível geral de consciência e educação da população portuguesa.
    Sobre tudo os jovens.

    Um povo culto, é um povo que pensa.
    Um povo que vê “As tardes da Júlia”, o “Portugal no Coração”, a “Casa dos Segredos” ou telenovelas, é um povo que vota nesta gente sem pensar no que farão em seguida.
    é um povo que fica em casa vendo passar a manifestação sem perceber o interesse ou que vai manifestar apenas porque “está indignado”.
    Ora quem se “indigna” apenas está zangado.
    Quem se revolta, sabe o que quer.

    E são estes últimos que constituem o perigo que os fascistas que nos governam pretendem evitar.

    Tito Livio Santos Mota

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