Vasco Graça Moura, o Acordo Ortográfico e um país de lunáticos


Vasco Graça Moura, novo presidente do Centro Cultural de Belém, mandou retirar todos os conversores ortográficos dos computadores do CCB e determinou que fosse utilizada a antiga ortografia. Se Graça Moura, o poeta e escritor, pode ter uma posição pessoal sobre o assunto, é duvidoso que Graça Moura, o funcionário, possa impor essa visão aos trabalhadores subordinados apostados em cumprir a lei.

Este aspecto, assim comentado, ignora no entanto a fundamentação exposta por VGM:

“o Acordo Ortográfico não está nem pode estar em vigor”, já que, diz, na ordem jurídica portuguesa, “a vigência de uma convenção internacional depende, antes de mais, da sua entrada em vigor na ordem jurídica internacional”. Refere-se ao facto de Angola e Moçambique ainda não terem ratificado o AO, de que são subscritores, recusando os efeitos do “segundo protocolo modificativo”, assinado em 2004, que prevê que o AO entre em vigor desde que três países o ratifiquem. O ex-eurodeputado do PSD lembra ainda que o próprio AO exige que, antes da sua entrada em vigor, os Estados signatários assegurem a elaboração de “um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa”, algo que, alega, nunca foi feito. E defende que o acordo “viola os artigos da Constituição que protegem a língua portuguesa, não apenas como factor de identidade nacional mas também enquanto valor cultural em si mesmo”.

Não sei se, à luz do direito, assim é, mas, segundo o mesmo artigo do jornal Público, esta discussão surge “num momento em que crescem, dentro do próprio PSD, as vozes que se opõem ao acordo”.

Ora, aqui é que a porca torce o rabo: num momento em que se escreve a duas velocidades, em que há escolas onde já se ensina segundo o AO, em que crianças aprendem a escrever sob as novas normas, em que jornais, revistas e editoras alteraram a ortografia, é que estes senhores se lembram de levantar as vozes contra algo que o seu partido deixou entrar em vigor no início do ano?

Um país de lunáticos irresponsáveis, é o que é.

Comments

  1. Albano Coelho says:

    Eu acrescentaria fanáticos…

    Totalmente de acordo: VGM pode ter a sua posição pessoal mas não pode como funcionário andar ao arrepio da lei que o seu próprio partido deixou passar como muito bem comentou.

    É claro também que o atual comportamento do partido do governo é tudo menos inocente ou mesmo baseados em princípios – por mais falaciosos que sejam – e nem muito menos tem a ver com a “defesa da Língua” ou da “identidade nacional” ou de “valores culturais”. Tem isso sim tudo a ver com usar o AO para fins políticos, para distrair o rebanho da descarada destruição da economia do país que tanto dizem defender. É triste que as ovelhas continuem cegas…

  2. Lina S says:

    Pelo menos há alguns para quem ainda assim “mais vale tarde do que nunca”…
    Mas neste país de lunáticos é raro ver alguém a assumir publicamente os seus ideiais, valores, lutando por eles. E, aprecie-se, ou não, o percurso político de VGM, é difícil negar o seu estatuto de intelectual, poeta e tradutor premiado, e o seu empenho na discussão dos erros grosseiros de AO, cuja implementação foi por fim, hèlas, e contra as vozes dissidentes de muitos ilustres homens e mulheres de cultura, aprovada pelo anterior governo socialista. Reinava então a bandeira do mau inglês-economês: ALLgarve.

  3. ISTO, é grave!

    Primeiro não se justifica a mudança de Presidência do CCB. Deveria ter ficado como estava, goste-se ou não do anterior. E seja ou não, o actual um bom Português.

    Nota-se que, não se cumpre o que se prometeu, não dever, ter sempre que haver:

    BOYS FOR THE JOBS; JOBS FOR THE BOYS……..

    Por outro lado, goste-se ou não do Acordo, o Acordo é para vigorar, logo para quê criar polemicas com coisas que não se pode mudar, em vez de a sério pensar-me em mudar o que é util ser mudado…..

    Assim, não vamos lá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Mas , manda quem pode………

    É muito mau……

  4. António Fernando Nabais says:

    A desobediência, por vezes, é a única saída. É verdade que, como funcionário do Estado, VGM está obrigado a usar o AO, embora não deixe de revelar alguma coragem. Penso, no entanto, que o país tem demasiados “lunáticos irresponsáveis” e a aprovação do AO é uma das provas disso. O facto de as escolas e os jornais terem adoptado o acordo não é uma prova das suas virtudes. Imaginem que se conclui que o acordo é prejudicial? Deve, ainda assim, manter-se?

  5. A. Pedro says:

    Fernando
    O AO teve um longo tempo de discussão pública (se não se discutiu o essencial, se não foi suficientemente explicado, se os contornos linguísticos, políticos e estratégicos -sim, porque o acordo não é apenas “linguístico” ou “ortográfico”- não foram debatidos mais profundamente, é porque se trata de um país de lunáticos, incapazes de perceber o problema antes de o implementarem).

    Agora, com ele em vigor e escolas a ensiná-lo, parece-me esquizofrénica esta situação que se vive “no próprio PSD”.

    O bom senso mandaria discutir (profundamente) primeiro e aprovar depois. Se se conclui que “o acordo é prejudicial” deve-se mudar, mas estamos perante uma situação em que se aprova primeiro e se discute (pela rama) depois. Um país de lunáticos, portanto.

  6. Albano Coelho says:

    Caro AFN, não é primeira vez que o digo e não será a última… Estamos a discutir alterações com a dimensão e a importância de um pentelho (2 – http://estraviz.org/Pentelho) que a serem prejudiciais – não vi ainda prova disso, muito pelo contrário – serão ainda menos que um pentelho (1) e que vejo serem discutidas apenas por pentelhos (4 e 6). Tu serás eventualmente a exceção à regra, aquela que apenas a confirma.

  7. Maria de Fátima Bizarro says:

    Estamos sempre a tempo de reparar erros, por mais graves que sejam. Viva Vasco Graça Moura! Abaixo o Acordo (tort)Ortográfico!

  8. Tiro ao Alvo says:

    A atitude do Vasco Moura pode ser criticável, mas o que ninguém o pode acusar é de não ter alertado, repetidamente e desde há muito tempo, para o erro que seria a entrada em vigor do chamado Acordo Ortográfico, verdadeiro desacordo para alguns países onde se fala português.
    Por outro lado, fico admirado com o aparecimento, agora, de tanta gente a defender a lei, esta lei, esquecendo-se do tempo em que apoiavam os que diziam, e dizem, que todos temos direito à indignação e que ninguém está obrigado a cumprir “leis” que considere inconstitucionais, como será esta, no entender de gente que sabe do ramo.

  9. António Fernando Nabais says:

    Pedro
    Durante o longo tempo de discussão pública, a maioria dos pareces pedidos a especialistas e a instituições pronunciou-se contra a aplicação do AO. Ainda assim, ele foi imposto. Concedo que é possível um especialista ter razão e outros vinte estarem errados, mas tive ocasião de ler muitos deles e não pude deixar de concordar com a maioria.
    Concordo quase totalmente contigo, quando afirmas: “O bom senso mandaria discutir (profundamente) primeiro e aprovar depois. Se se conclui que “o acordo é prejudicial” deve-se mudar, mas estamos perante uma situação em que se aprova primeiro e se discute (pela rama) depois. Um país de lunáticos, portanto.” É verdade que ele é discutido “pela rama” se estivermos a falar da maioria daqueles que participa na discussão. Há várias críticas muito bem feitas, embora pouco conhecidas, porque, efectivamente, é uma questão que interessa a poucos.
    Na minha opinião, trata-se de mais uma das muitas decisões tomadas levianamente pelo poder político-universitário. Espero, brevemente, dar o meu contributo para o debate, aqui na nossa casa plural.

    Caro Albano
    Não me interessa o tamanho, mas a qualidade: o facto de as alterações serem mínimas é, para mim, irrelevante. O importante é saber se são boas ou más se, pondo a hipótese de serem más, incidirem sobre palavras mais ou menos utilizadas.
    De resto, não nutro pelo Graça Moura simpatia (sim, penso que pode ser considerado um pentelho), mas, mesmo descontando algum tom épico, concordo com as posições que assume, no caso do Acordo.
    Agradeço-lhe o facto de me considerar uma “exceção”, mas preferia que considerasse uma excepção :-).

  10. Meio Vazio says:

    Admita-se, estupidamente, que as consoantes “mudas” são desnecessárias – o pressuposto mais idiota e perverso do AO – já que a fonia deve determinar a grafia. Mas então, leve-se este argumento até ao fim e imponha-se aos brasileiros que suprimam, por exemplo, o “r” final do modo infinitivo dos verbos, o “l” final de “Brasil”, “legal”, etc. (não consta que os pronunciem). E, já agora, diga-se ao “professor Marcelo” que deixe de escrever “dizer” porque o mesmo pronuncia sempre, impunemente, “d’zêr”. De caminho, usando de simpatia paternalista, alertem-se os atrasados dos ingleses (e franceses) para o facto de continuarem a usar consoantes dobradas – facilmente substituíveis por consoantes simples – e ditongos arcaicos, v. g. “phoenix” em vez de “fenix”.
    Na verdade, a supressão das consoantes (erradamente ditas) mudas é totalmente irrelevante na fala brasileira (!): os mesmos respeitarão sempre as vogais. Em Portugal, porém, propensos que somos a omitir as vogais e a acentuar as consoantes, a prazo, diremos “drtor” em vez de “director”, ” ‘spt’dor” em vez de “espectador, etc. Registem para “memória futura”!
    Quando mais afastamos a nossa língua da mãe (o latim), mesmo em termos ortográficos, mais a empobrecemos, mais lhe retiramos coerência e beleza, mais a enchemos de equívocos.

  11. Esta polémica, e a relutância de muitos em relação ao AO, apenas vem demonstrar como é difícil em Portugal gerar consensos em relação a coisas óbvias. A “língua” (escrita) tornou-se para muitos uma espécie de objeto sagrado que para sempre deverá manter-se inalterado: um fóssil manipulado e gerido com rigor, destreza e sobrolho grave, por “sacerdotes académicos”…
    Temo no entanto que aquilo que dói mais aos contestatários do AO seja a aparente “cedência” ao Brasil. Daí, não pararem de animar uma pequena querela – mais ou menos subtil – de xenofobia cultural alicerçada nos “nossos” valores, na nossa dignidade de “povo ilustre” (e pouco ilustrado…). Acho que os brasileiros se estão completamente nas tintas para estes nossos “problemas” de dimensão “nano-pentélhica”!…
    Relativamente ao Vasco Graça Moura (que aprecio e respeito), não estando de acordo com o acordo, e tendo de gerir uma instituição direcionada à cultura, faria muito melhor em se demitir!… Optou por algo que começa a tornar-se moda do novo poder: a prepotência. Agora vale tudo…
    A “Língua Portuguesa” (Aleluia!), com AO ou sem ele, dispensa polémicas e sacerdotes. A língua, se tem algum proprietário, esse é o povo! Ele é quem mais ordena… Não é?
    As regras ortográficas são apenas e só a “norma” partilhada, ensinada e aprendida num dado momento, tendo de progredir (e se adaptar) ao que o povo diz…

  12. Nuno Lopes says:

    País de merda

  13. António Fernando Nabais says:

    #11

    É claro que sou suspeito porque me oponho ao Acordo, mas juro que gostava ler uma defesa do AO que me deixasse a pensar na hipótese de estar errado. Ainda não foi desta.
    Se bem percebi, o Acordo é bom porque serve para demonstrar que a língua não é um fóssil e o Acordo é bom porque é uma maneira de provar que não somos xenófobos. Se me provar que o Acordo é bom porque se trata de um texto consistente e coerente e se me provar que é bom porque se conseguiu, finalmente, uniformizar a ortografia em todo o mundo lusófono, já não seria mau, e, mesmo assim, seria pouco.
    No final do seu comentário, diz que o proprietário da língua é o povo, o que não me merece discordância. Não consigo entender qual é a relação entre isso e a aplicação do Acordo. Quando afirma que a língua escrita tem de se adaptar “ao que o povo diz” quer dizer que a escrita deve passar a ser fonética? Quer dizer que devemos passar a escrever “medecina” ou “patu” ou “mássimo”? Os portuenses deverão poder passar a escrever “binho”? Os alentejanos e os algarvios deverão começar a escrever “lête” em vez de “leite”? A ortografia brasileira deverá passar a incluir “hospitau” em vez de “hospital”?
    Nenhum debate científico dispensa polémicas e sacerdotes. O que o debate científico dispensa é tentativas de adivinhar intenções escondidas atrás das críticas ou das defesas. Como opositor ao Acordo, não me interessa saber se os seus autores têm interesses escondidos; interessa-me que me apresentem argumentos válidos, do ponto de vista linguístico e pedagógico, no mínimo. Continuo à espera.

  14. Isto está lindo! says:

    Espero que VGM não esteja mesmo a cair num incumprimento das regras e das leis do país, tendo em conta as responsabilidades que assumiu. Se está, deverá ser imediatamente demitido. Se não está, o país deverá ser devidamente esclarecido. Tenho pena que militantes do contra não tenham lutado para evitar muitas das asneiras que ficaram no AO90… porque o acordo é exatamente de… 1990. Tenho ainda mais pena que os militantes do contra vão permitindo adulterações da língua, como são os casos da célebre e repugnante “presidenta”, do significado de “casal” ou de “restauração”, do “bué” e muitos outros. Tenho também imensa pena que os militantes do contra tenham permitido que um país que tinha orgulhosamente uma única língua no país e na nação, tenha ficado com outra espécie de língua oficial, aprovada na AR por unanimidade, sem que os portugueses tivessem dado por nada. Tenho também pena que os militantes do contra não digam se querem que a escrita seja a anterior ao AO90, se a escrita dos nossos pais, se a escrita dos nossos avôs ou se o latim. E, já agora, tenho também pena que os que são contra, mais os linguistas da nossa praça, não sejam capazes de criar em português palavras de uso tão comum como seja a palavra “stress”.
    Não sendo um militante a favor, reconheço que passou o tempo dessas discussões. O AO90 está legalmente lançado nas escolas, nos documentos oficiais e nalguns dos mais importantes órgãos de comunicação social. As palavras com alterações não são assim tantas e custarão agora tanto a escrever como custou a escrever a palavra pai que se escrevia “pae”, ou a palavra mãe, que se escrevia “mãi”. Já para não falar em “pharmácia”. O acordo optou pela aproximação escrita à fonética afastando-se um pouco da etimologia. Mas é mesmo um pouco, uma vez que a maioria das palavras provém do latim e, meu Deus, à distância que já encontra do latim! E muitos dos grandes escritores clássicos portugueses tiveram posições de defesa da opção fonética. Numa altura destas, dizer a todos os jovens, que já escrevem as palavras pelo AO90, para voltarem atrás parece-me de uma irresponsabilidade total e absoluta.
    Por mim, tudo bem. Sei ler das duas maneiras e, se houvesse regresso, eu também regressaria. Mas, neste momento, tal como estão as coisas, e após mais de duas décadas de silêncio, e das asneiras ou omissões atrás enumeradas, gostaria de saber como é que se explicava tal situação às centenas de milhar (talvez milhões) de jovens e adultos que já escrevem em sintonia com o AO90.

  15. Agradeço-lhe a atenção que deu ao meu comentário… E as críticas que fez fazem todo o sentido. No entanto, para mim, como dei a entender, esta matéria não é muito importante e, sobretudo, não merece paixões empolgadas. É mais isso que eu critico… Não obstante, penso que está na altura de “refrescar” a ortografia (como se fez antes…). Ainda assim, vejo mais gente apostada em criticar “o acordo” do que em propor outro, diferente.
    E depois, sabe, sempre detestei escrever “óptimo” com “p”. Acho uma palermice… Como este existem outros exemplos que conhecerá… Tenho um amigo espanhol que diz que o português é “un gallego mal hablado”. Dentro de alguns séculos os nossos tetranetos dirão o mesmo do “brasileiro”… Não é que isso me incomode, mas chateia-me esta polémica porque acredito numa coisa, talvez “herética”. a convergência linguística. Se é que isso existe ou é possível… Acho que “os clássicos” ganham mais gente feliz com eles ao serem traduzidos do que em permanecerem espartilhados na língua de origem.
    Talvez eu esteja a ver mal o assunto. Penso mais em termos de “língua” do que em ortografia. Desvalorizo-a porventura porque vejo nela apenas o que é: um instrumento de regulação da palavra escrita. O que conta mesmo é a “palavra” e as sensações e ideias que dela resultam…

  16. FALTOU ACRESCENTAR relativamente a:
    “Acho que “os clássicos” ganham mais gente feliz com eles ao serem traduzidos do que em permanecerem espartilhados na língua de origem.” – O que quer dizer que pessoalmente não me incomoda nada se os meus descendentes vierem a ler o Camões na ortografia futura… Não fazemos o mesmo relativamente à original?
    Língua e ortografia acompanham-se. Andam de mão dada. A língua vai à frente, a ortografia ouve-a e adapta-a ao “papel”… Na “polémica” atual, o “zumzum” das discussões dá a entender aos leigos (como eu) que há gente que não admite mudanças. E essa é a centelha ardente que me faz “saltar a tampa”…

  17. António Fernando Nabais says:

    #15
    Parece-me que não esteve com a devida atenção aos que têm dito, desde 1990, os “militantes do contra”: por um lado, afirma que não lutaram, o que não é verdade; por outro, levanta dúvidas acerca das incertezas dos ditos militantes relativamente à ortografia que defenderiam, que, pelos vistos, poderia ir até ao Latim.
    Se o Acordo for prejudicial, o tempo para o suspender não passou. Se a única virtude do Acordo é já estar em prática, é pouco. Suspender o Acordo é, evidentemente, uma solução cheia de complicações, mas também ninguém explicou aos milhares ou milhões por que razão são obrigados a escrever com base neste Acordo. É evidente que a suspensão do Acordo, a ser feita, deve ser explicada.
    Isto é o país dos factos consumados, mesmo apesar dos avisos. É o país de Bolonha nas universidades, o país dos disparates na Educação, o país da terminologia gramatical idiota, o país que decide qualquer coisa porque um iluminado se lembrou que era preciso decidir qualquer coisa. Se continuarmos a aceitar o mal só porque já está feito, nunca corrigiremos nada.

  18. Meio Vazio says:

    #15
    E ter-nos-iam caído os parentes na lama se o “pae” e a “mãi” continuassem a ir à “pharmacia”?
    Em 1910, uma dúzia de republicanos, com a imposição (!) do “regime racional”, resgatariam a pátria das trevas; em 1911, meia dúzia de “esclarecidos” anti-monárquicos, com a supressão das consoantes dobradas, resolveriam duma penada o crónico analfabetismo luso. Melhor estariam quietos porque os constantes (des)acordos ortográficos, mais que solução, têm sido ocasião de agravamento do problema: iniciavam-se as arbitrariedades, os equívocos, os desacertos.
    É certo que a língua é viva – na fonia, na sintaxe (socialmente tolerada e sempre desprezada em todos os acordos), na semântica (sobretudo). E poderá sê-lo na grafia, que terá, necessariamente, sempre algo de convencional. Ainda assim, aqui, com especial cuidado: se alguma dimensão poderá estabelecer-se como guardiã da natureza duma língua, é apenas esta.

  19. António Fernando Nabais says:

    #17
    Entre os críticos do AO, há, com certeza, xenófobos e conservadores e outras monstruosidades. Nenhum especialista digno desse nome lhe dirá que a ortografia é intocável, mas sempre lhe digo que a ortografia deve ser conservadora e deve levar tempo a acolher mudanças e também lhe digo que é um erro pensar que deve haver uma aproximação entre escrita e fonética, mesmo aceitando que o critério etimológico não deve ser exclusivo.
    Entretanto, não cabe aos especialistas agirem como funcionários alfandegários tentando evitar que entrem palavras novas no uso quotidiano, embora devam aconselhar. Já as decisões sobre ortografia devem ser tomadas por especialistas, com base em critérios muito rigorosos e muito conservadores. A decisão de fazer desaparecer as consoantes mudas é algo de consequências imprevisíveis, porque, por exemplo, através de mecanismos inconscientes como a analogia, pode vir a acentuar-se o fechamento das vogais, uma praga na fonética portuguesa (há pouco tempo, vi e ouvi, numa aula minha, um aluno hesitar na pronúncia de “atores”, quando estava a ler um texto em voz alta – isto, por si só, não tem valor científico, mas é um sinal).
    Já agora, fique a saber que o professor João Andrade Peres, um dos críticos do AO, defende a manutenção da maior parte das consoantes mudas, à excepção de uma ou outra, como é o caso de “óptimo”. Por acaso, discordo, porque me parece mais lógico que se mantenham em bloco.
    De resto, não acredite nisso da sarça ardente.

  20. Isto está lindo! says:

    #18
    Estive com atenção suficiente. Um dos maiores e mais acintosos críticos, também uma espécie de fóssil, costuma dizer, por exemplo, “acêsso” em vez de “acésso”. Ou seja, 19 milhões de portugueses sabem que se pronuncia da segunda forma e não daquele comentador. O que defende? Que seja colocado um “p” a seguir ao “e” para ele aprender? A partir daqui, generalize a todos os vocábulos com vogais que nunca necessitaram de ser abertas por uma consoante. Mas também não concordo que os contra tenham tido qualquer atitude significativa durante duas décadas, exceto piadinhas e crónicas com o antigo acordo. Penso, aliás, que muitos deles apenas querem protagonismo. Não os vi ativos em nenhuma das graves situações que referi. Nem naquela que considero a pior decisão jamais tomada pela AR: a criação de uma segunda língua neste país.
    Tem razão, não haveria nenhum problema em escrever algumas palavras como se escreviam antigamente. Mas, a verdade é que não se escrevem. E todos nós achávamos que os nossos pais e avós, não foram capazes de se renovar. Tal como irá acontecer em relação às gerações futuras se o OA90 se generalizar. Costumo dizer que sei ler e escrever (com os defeitos naturais, obviamente) das duas maneiras. E quando não sei tento aprender. Mas não me apetece fossilizar vivo, apesar de já não ser propriamente uma criança.

  21. Isto está lindo! says:

    “… 10 milhões…”, obviamente! Nada de exageros!

  22. António Fernando Nabais says:

    #21
    A criação de uma segunda língua? Está a referir-se ao mirandês? Não vejo qual é o problema. É mesmo outra língua, mesmo que minoritária.
    Adoptar um acordo para não fossilizar é fraca razão para adoptar um acordo.

  23. Isto está lindo! says:

    Acha mesmo que aquilo é outra língua? OK. Qualquer dia será, certamente. Até eu, se pegasse na forma de falar da minha avó e a trabalhasse bem, faria uma língua.
    Quanto ao acordo, que ficou com vários tumores (não sou nenhum especialista, devo dizer), é muito melhor do que a forma generalizada como escrevem os portugueses de todos os níveis. Essa é a maior aberração. Mas tem razão numa coisa, se a língua estava fossilizada nalguns aspetos, como em relação ao anterior acordo e em relação a novos termos que é um problema para entrarem no léxico, já quanto àqueles que são influenciados por minorias (que respeito, obviamente), é um ver se te avias. O presidenta e o bué são dois representativos exemplos.

  24. Estou para esta questão do acordo, como o Aventar está para a sua filosofia de blogue plural.

    Ou seja, tem dias.

    Ando baralhada com este novo acordo. Para não maltratar ainda mais a coisa, continuo a não usar o acordo. A queda dos hífens, as minúsculas para meses do ano, entre outras mudanças, causam-me desconforto.

    Por outro lado, sou sensível ao factor realidade (agora não me ocorre outro termo, e real politik seria um desastre total). Explico. Na nossa situação actual, encarquilhada e esclerosada, a mudança até que poderá ajudar a aproveitar os novos mundos que abrimos há uns séculos a esta parte. Depois, não será esta a primeira vez que há alterações a este nível.

    Mas agora digo-vos uma coisa: conhecem a TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário)?

    Se conhecem, óptimo. Sabem do que falo.

    Se não conhecem, não deixem de conhecer. Aproveitem o (fim-de-semana) fim de semana frio e assolapem-se no sofá a tentar perceber aquela coisa. Uma alternativa à televisão, aos jornais e ao PM a dizer que temos de empobrecer mais, custe o que custar.

    O que estranho é que tão pouquinhas elites tenham reclamado contra esta verdadeira anedota.

    Vou escrever uma ata, o que é ótimo neste mês frio de fevereiro.

  25. @ António Fernando Nabais
    Não haja dúvida que você se bate bem pelo “desacordo”. Tem a argumentação de um especialista. Parece todavia escapar-lhe o principal: ainda que a ortografia deva estar sujeita a “normas” para que não se torne uma balbúrdia, deve igualmente ser gerida com bom senso, sentido de evolução e atenção às mudanças sociais e culturais de cada tempo. Enfim, sensatez… A ortodoxia “técnica” não pode sobrepor-se às adaptações que as sociedades realizam. Por alguma razão já não falamos galego e deixámos de ir à “pharmacia”.
    Volto a dizer entretanto que toda esta “polémica” é menor. Não merece a importância que lhe é dada. As línguas vivas e logo atrás delas a sua normalização ortográfica, evoluem por si mesmas. Se uma geração não é capaz de se entender acerca do assunto, a seguinte tratará dele. A única coisa que me choca é a forma “empedernida” como sobretudo os do “não ao AO” se batem, agitando a sua “ciência”, livros sagrados, e anunciando desastres como se tal fizesse algum sentido. É como Darwin alertando para o perigo futuro da mudança de escamas nos crocodilos do Nilo…

  26. Gostaria de acrescentar este pormenor sobre o que argumentou Vasco G. Moura – uma das razões para ter decidido como decidiu em relação ao CCB e ao acordo baseia-se no facto de ter sido votado na anterior legislatura, pelo que não terá de obedecer porque agora já temos outro governo.

    E fico a pensar. Boa idéia!

    Cortaram-me 5% no meu vencimento nessa altura.

    Ah! Estivesse eu no CCB e teria tomado a mesma atitude de VGM. A partir de agora eliminem dos computadores este cálculo do corte dos 5%. Não concordo. Além disso foi aprovado no governo do José Sócrates. Não tenho nada a ver com isso.

    Certo?

    Certo!

  27. Isto está lindo! says:

    Pois. Não desgosto do que diz e acho que ficaram muitas asneiras. Mas onde estavam aqueles que, à custa de um emprego bem pago, podem agora provocar um escandalozinho mediático? Não faltou tempo. O acordo é de 1990.

  28. Não sabia que o acordo datava de 1990.

    Assim sendo, agora é que não entendo nada disto!

  29. Nesta altura do campeonato, em que já há trabalho feito nas escolas, não faz qualquer sentido estes arautos todos se levantarem contra o AO, secundando o “camarada Vasco”.
    Vai ser uma guerra perdida.

  30. Escrevo da Galiza, donde sou, e onde a questão ortográfica (das diferentes maneiras possíveis de escrevermos a nossa variedade do português ou galego-português) está, ainda depois de muitos anos de debates, quente e polémica. Se vivessem aqui, compreenderiam que as diferenças entre as formas anteriores e as novas do AO — que subscrevo — são tão pequenas relativamente a outras situações linguísticas do âmbito da língua portuguesa que não merecem tanta discussão. Na realidade, a distância entre os falares diários e a língua escrita que diz representá-las é tão abismal — em qualquer língua — que deveria pôr em perspetiva a questão. E é abismal porque fala e escrita são expressões linguísticas de naturezas diferentes e incomparáveis. A etimologia não pode ser um totem intocável, nem o pretenso (e impossível) foneticismo uma escusa populista, sobretudo quando a crítica veemente à mudança que o AO representa vem de gente e setores que nunca, jamais, terão qualquer problema em se adaptarem a qualquer mudança, precisamente polo seu controlo da língua, das línguas e da cultura. Hoje mais que nunca, com a chamada mundialização da informação, a maior unificação possível da língua nesse registo fundamentalmente simbólico e grandemente arbitrário que é a escrita é não só um importante valor acrescentado à manutenção dum idioma, mas também um importante instrumento de reconhecimento (ré-conhecimento) entre as gentes que o falam. Certos problemas aduzidos contra o AO, como a possível hesitação no timbre vocálico por simplificação dos chamados “grupos cultos” nalgumas palavras, são muito menores em comparação com as vantagens do ré-conhecimento, e, além, costumam partir de visões erradas acerca da relação entre a fala e a escrita: dão primazia a esta contra aquela. A fala é previa; se a palavra está no repertório da pessoa falante (na sua cabeça, onde está a língua), ela saberá se tem vogal semi-aberta ou semi-fechada, da mesma maneira que não vai deixar de pronunciar [far’masja], aproximadamente, embora a veja escrita “pharmacia” (ou alguém lembra que anteriormente se pronunciasse [par’masja]? 😉 ). Inclusive no caso hipotético dum espalhamento dessas hesitações do timbre, afetariam em pequeno grau à estrutura fonológica da língua (variável por natureza, mesmo, em ocasiões por efeito da escrita), e seriam mínimas em comparação com o já amplo leque de variações (queda de vogais, vocalizações de /l/ final, ensurdecimentos, fechamentos, metáteses, etc. etc., fenómenos todos eles variáveis). Na Galiza conhecemos isto muito bem, mas não deixamos de experimentar dia a dia que o “arrôz” dalguns falantes sabe igual que o “arróz” de outros 😉 .

    Em resumo: não é cauto, realista nem útil ter um alvo de língua unificada na fala. Sim que é útil e até realista, polo contrário, aspirar a um código convencional comum o mais unificado possível na escrita, isso sim, sem fazer dele (o AO) um outro totem intocável. O AO não é perfeito (na linguagem, só é perfeito e comum o silêncio), mas, como dizemos nós, “é-che o que há”. Existem outros verdadeiros traumas sociais e problemas muito piores, como diz acima o amigo Albano Coelho. Essencializar qualquer aspeto da escrita é a cortina de fumo dos poderosos para mascararem a evidência de que, num sistema social e económico alicerçado inerentemente na manutenção e na criação da desigualdade, a língua escrita (qualquer) será sempre um outro instrumento de dominação.

  31. Glória says:

    Pasmo-me com a facilidade com que dizem que não houve detractores deste “Acordo”,
    Houve-os e tentaram fazer alguma coisa, nomeadamente, como Vasco Graça Moura (que de todo me é insuportável na sua “aficcion” política) nem o acho um extraordinário escritor, mas é um intelectual de envergadura. É verdade que todo o sector “Laranja” esteve caladinho, e poucos objectores do “Acordo” se fizeram ouvir, aliás, o povinho, sempre dado à desmemorização e muito afecto a não ligar nenhuma aos que os “marotos” dos políticos fazem, e ainda se vangloriam de “não quererem nada com a política”…depois, depois, é que começam os pruridos, tarde piaste…ou neste caso, talvez não ?
    Mas houve, detractores e iniciativas, a que muitos , demasiados, não ligaram, e agora, eu aplaudo esta decisão de VGM, que é oportuna e ao mesmo tempo oportunista, no sentido em que é por BIRRA contra o PS que tantas vozes laranjinhas se levantam, quando antes ficaram calados como ratos…e embora eu não goste destes métodos, o meu desprezo e nojo pelo tal de “Acordo” é tamanho, que louvo a medida e, se assim se conseguir despertar consciências e fazer que as pessoas analisem o que se propõe este “Acordo” tão pouco científico e até ilógico, dada a destituição da Norma Etimologia pela Norma Oralidade, gerando assim, obviamente, outras novas e inúteis duplas grafias…é que no outro lado do Atlântico, a Oralidade, a fonética diverge há séculos e continuará a divergir cada vez mais…não os entendemos? É falso,não entendemos, sobretudo o rico e diferente léxico, quanto à desnorteada sintaxe, todos nos divertimos e deploramos (seja os de cá e os que, de Além-mar, são letrados). Quando não nos entendemos, o Português é rico em sinónimos e depressa nos entendemos, sorrimos e no fim ficamos mais enriquecidos…
    Se esta “birra” levar à suspensão de tal barbaridade, eu louvo-o.

    Atente-se nas afirmações deste “acordita, o Dr. Evanildo Bechara:

    “Só num ponto concordamos, em parte, com os termos do Manifesto-Petição quando declara que o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambigüidades.”. Bechara é o principal responsável, do lado Brasileiro, do “Acordo”.

    Bom, parece que os doutos professores de aquém e além-mar, confessam, que este “acordo”, falha no seu primeiro e maior objectivo. A NORMA, a tão citada e amada normalização, que afinal não é, nem nunca será alcançada…

    Eu chamo a esta nova grafia, a grafia política. Foi-nos imposta, ainda que bastos pareceres de cientistas/linguistas, e durante duas décadas, se lhe opusesse e lhe apontasse enormes debilidades.
    Não é assim, em verdadeira Democracia, que se trata um património maior de um Povo.

    Falamos muito das consoantes mudas, das estúpidas e escusadas novas duplas grafias (já foram contabilizadas milhares (!…) e menos da queda da hifenização. Passo a dar exemplos horríveis, que irão dificultar a escrita e leitura das palavras:
    «Corréu» em vez de co-réu, «semirreta» / semi-recta ;«coerdeiros» / co-herdeiros, «contrarregra»/ contra-regra; isto para não falar dos delirantes – e ignorantes, porque ilegais segundo as convenções a que Portugal está obrigado – quilojulios (sic!!!) / (kilo joules).

    Mas nunca é demais enunciar algumas das aberrantes duplas grafias que antes NÃO EXISTIAM, e que agora passam a surgir por força da queda de algumas consoantes, para espanto nosso, essas consoantes ser-nos-ão retiradas a nós Portugueses e na variante do Português do Brasil, elas manter-se-ão…
    Alguns exemplos:
    ConcePção; ContracePção; RecePção; ExcePção, no Brasil…
    “Conceção”; “Contraceção”; “Receção, Exceção, em Portugal…
    Norma??? Palavras para quê?

    Há muito que o Português de aquém e além-mar divergem, e assim continuará, seja na grafia, seja no léxico.

    A Língua é uma coisa viva, por isso ela cria-se e recria-se, deve ser inclusiva e não redutora, um século nos separa da comum norma, que era regida pela Etimologia, ao separar-se o Brasil da norma científica, a Língua tomou a norma da Oralidade e fugiu, pela facilidade e também porque é lícito que a Língua tome outros caminhos, dando um espaço à sua re-criação, atente-se na nova língua que Mia Couto se atreve a recriar, mas tanto quanto sei e para meu contentamento, ele é contra o “Acordo”.

    Viva a diversidade, como será a evolução da Língua nos demais países Lusófonos? Provavelmente, e dadas as novas tecnologias, a grafia não divergirá, mas o seu léxico, a fonética, certamente fugirão ao Português de Portugal. Por tudo isto, eu digo, viva a diversidade!!!
    Nunca deixei de entender os Brasileiros e vice-versa. Quando não nos “entendemos” é apenas uma questão de léxico, tiram-se dúvidas e fica-se esclarecido e mais rico.

    Já nem refiro a terrível crise que atravessamos e os inimagináveis custos que se irão produzir…nem da verdadeira necessidade da formação dos professores…Um despudor…

    A revista “Volta ao Mundo” anunciou com pompa e verdadeiro entusiasmo que iria começar a editar em “acordês” e que poderia ser agora lida por mais de 200 milhões e muitas pessoas…
    Fica a pergunta: e será escrita em “acordês” do Brasil ou “acordês” de Portugal?
    Entenderão os Brasileiros aas palvras “receção” e “conceção” e exceção? Nem eu…
    E que dizer da palavra “contracePção” sem o irritante “pê”? Diria que há perigo verdadeiro de em Portugal aumentar exponencialmente o número de gravidezes indesejadas…
    Tudo isto é trágico/cómico
    Enquanto no Brasil, e eu refiro isto e insisto nisto, porque me foi contado por amigos Brasileiros, há quem defenda e há já livros oficiais que defendem o Português popular e suas curiosíssimas discordâncias sintácticas, ex: “nós vai”; “nós pega o peixe” e outos mimos, nas escolas, e que tem gerado enorme controvérsia…ISTO ESTÁ A ACONTECER HOJE..
    Enquanto nós por cá….

  32. Glória says:

    E, acrescendo a isto tudo, o facto de após duas décadas de pareceres negativos dos linguistas (é que não houve pareceres positivos, a não ser dos “paizinhos” do dito “Acordo”) e de se ter instituído a regra de que este “Acordo” só seria ratificado por unânimidade (nove são os países lusófonos…) e, por falta de consenso, mudaram as regras a meio do jogo, e com a assinatura de três (muito menos de metade…) o “Acordo”, dizem, foi ratificado, capazes eram eles, de, caso isso fosse apenas o possível, as assinaturas do lado Português e do lado Brasileiro, bastariam, ignorando os outros milhões que têm como língua oficial a Língua Portuguesa…
    Faz lembrar a repetição dos referendos, em alguns países, sobre essa “fantástica” coisa que foi o “Tratado de Lisboa”, até que as pessoas, por força da injecção do “Pensamento Único”, e da técnica do medo, lá votaram. Assim, já é bom gastar dinheiro nos ditos referendos, até que o povinho vote no que “eles” querem e não no que o povo quer…
    Se assim é, também quero um referendo…e talvez “eles” não gostassem do resultado…

  33. Glória says:

    Curioso, como a memória é tão madrasta para os Portugueses, pois eu lembro-me muito bem de nos finais da década de 80, início da de 90, ser bastamente discutido , e parodiado com imenso estilo e graça, este “Acordo” por Miguel Esteves Cardoso, e outros tantos, criando-se textos fabulosos. E foi tamanha a celeuma, que o A90 nunca foi implementado…
    Que se terá passado , desde então? Talvez a imbecilização de um Povo e pelos vistos da suas “elites”, fazendo jus e sendo directamente proporcional em “rasquês, à tão famigerada “Geração`rasca”? A maldita da GLOBALIZAÇÃO COMEÇA A SER UM PROBLEMA, UM CRIME, porque cria artificialmente, uma monstruosa normalização/formatação, sem respeitar a diversidade. Qualquer dia, julgo que não estarei muito longe da dura verdade, imporão uma novilíngua…mundial… uma governança mundial ..and so on?…
    Horrendo mundo novo!
    O mundo mudou, é certo, mas muito artificialmente, direi mesmo, induzido a mudar de forma muito, muito artificial. Sendo que o Homem, começa a perder o seu lugar do centro de todas as relações, e é substituído e subjugado por outros interesse $$$$.Se a Cultura for impecilho, e a Língua, um património maior de um Povo, ela será esmagada, distorcida e o que mais lhes passar pela cabeça, e ainda nos apelidam de “Velhos do Restelo”, abusivamente, porque não sabem que o Velho do Restelo representa a voz da razão num momento de euforia e deslumbramento, pois a prosperidade das Descobertas cedo se revelou fugaz, seguindo-se a decadência económica e territorial.
    Deplorável, esta menorização e sujeição da Língua, a estranhos e sinistros interesses, porque da normalização é que não é…

  34. Guido Brunetti says:

    AO = Português técnico?

  35. jorge canadelo says:

    Glória a Gúória que saúdo por toda a sua clarividência e ao Nabais pela sua lucidez e coerência. Fernando Pessoa fez da língua a sua Pátria e mostrou isso ao Mundo sem que tivesse sido incompreendido, mesmo pelo povo brasileiro. A língua inglesa, a mais falada do mundo, tem várias grafias, diversidades fonéticas apesar do RP e também interpretações diferentes consoante a cultura e a geografia mas não deixa nunca de ser Inglês… Note-se que a nossa língua portuguesa consegue ser mais completa e complexa que a matriz simplista anglo-saxõnica a todos os niveis e não vimos os ingleses obcecados por uma grafia una (sendo que o Novo Acordo Orógráfico nem de longe consegue aparentar ser , se era esse o objectivo Socretino de arranjar novos mercados financeiros e vantagens polìticas…)´Vasco Graça Moura pode ser arrogante, prepotente, manipulador e politicamente deprimente, pode estar a ser neste momento de ataque ao povo português e aoseu futuro umm defensor demanobras de diversão e também um oportunista abusador do cargo alaranjado tipo boy para que foi convidado mas estou seguro que nesta sua opção reside coragem, coerência e a defesa da língua portuguesa. Deixem a língua em paz e mudem esta democracia de opereta bufa,,, O povo, passado presente e futuro, mesmo domesticado como revela ser, virá a mostrar-se agradecido. Portugal pode e deve ser um Paìs melhor!

  36. Meio Vazio says:

    #32
    Cara Glória

    No Brasil, de resto, e usando o critério da fonia, para os exemplos que dá, impor-se-ia “ConcepEção”, “RecepEção”, ExcepEção”. 🙂
    Os brasileiros, de facto, têm um sério problemas com a pronúncia de consoantes seguidas que não integrem a mesma sílaba (na fala, têm de intercalar uma vogal). Para eles, por exemplo, “óptimo” só poderia ler-se “ópitimo” e “facto” só poderia ler-se “fáquito”. Veja-se os casos de “Psicologia” (para eles sempre “pissicologia” ou “”piscologia”) e “psiquiatra” (para eles sempre “pisquiatra” ou “pissiquiatra”).
    A supressão das consoantes “mudas”, se irrelevante para o brasileiro (!) a prazo será catastrófica para a fala portuguesa. Adeus “director” – será substituído pelo “dir-tôr”.

    Cumprimentos

  37. José António says:

    Não vou estender muito o assunto, mas apenas dizer que o facto de no Brasil escrever-se de acordo com o acordo resume-se em não se permitir que haja tantos erros, no caso ortográficos, por razões de simples resolução, como foi retirar as consoantes que não se pronunciam. Ainda assim os erros mais impossíveis de serem evitados são de outro tipo, como o caso que aparece no comentário #11 de António Fernando Nabais em 03/02/2012 ás 23:14, onde diz:
    “É claro que sou suspeito porque me oponho ao Acordo, mas juro que “gostava” ler uma defesa do AO que me deixasse a pensar na hipótese de estar errado.”
    Sendo que o que ele quiz dizer é “gostaria” de ler uma…, porque “gostava” está incorreto.
    PS.: a supressão da preposição “de” em “…gostava __ ler uma…” evidentemente foi apenas erro de digitação, certo?

  38. António Fernando Nabais says:

    #38
    Caro José António

    O problema dos erros ortográficos está relacionado com insuficiências educativas e culturais e não com a imposição de um acordo ortográfico.
    Já há muito que está estudado o fenómeno do “imperfeito de cortesia”, usado nos pedidos ou na manifestação de um desejo, pelo que não é incorrecto usar “gostava” no contexto em que o usei, embora o uso do condicional seja, efectivamente, mais elegante. A supressão da preposição foi involuntária, sim.
    No caso da sua frase “o facto de no Brasil escrever-se” deveria ter escrito “se escrever” e no verbo “querer” não existe uma única forma em que seja utilizada a letra “z”. Entre outros erros de construção, não posso deixar de considerar deliciosa a descoberta de haver coisas que são MAIS impossíveis do que outras, para além de se ter esquecido de uma vírgula após “Ainda assim…”.

  39. Carlos says:

    Aquilo que mais gosto de ver nos defensores do acordo é, por uma lado a sua incapacidade para perceberem que estão a dizer asneiras e por outro a sua habilidade por puxarem a “brasa para a sua sardinha”. Só que essa sardinha é carapau…

    Primeiramente deveriam perguntar-se: Precisamos dum acordo?
    Isto é,nós não temos já uma ortografia que vigora,quase intocada, há perto de 100 anos? E não sabemos escrever nela? Na NOSSA língua? Parece-me óbvio que no Português não é necessário mais do as alterações pontuais que têm sido propostas e aceiteis PELOS Portugueses e PARA os Portugueses.

    Depois temos que ver o seguinte:
    – Uma razão política NÃO é uma razão para alterar uma Língua! Uma língua é Património Cultural dos seus falantes. Todos eles,não apenas 6 ou 7 que querem impôr uma grafia qualquer. Logo, a fazer uma alteração profunda os seus falantes TÊM que ser consultados. Isto é senso comum. Se a maioria quer ficar com a grafia actual,assim o é.Ponto final.
    – O facto de muita gente não saber escrever bem também NÃO É, num país MODERNO e culto uma razão para simplificar/alterar a escrita com esse fim. O que deve ser feito para melhorar a escrita da população é MELHORAR o ENSINO da Língua. As razões que levaram a que a grafia fosse alterada nesse sentido NO BRASIL há largos anos foram : O grande (enorme,massivo) grau de analfabetismo do Brasil,o que acarretaria DE LONGE maiores custos para o país do que alterar a grafia E (igualemente importante) a sua sede de “distanciamento da grafia de Portugal”. Procurem na net, qualquer site decente DIRÁ ISSO.
    – Alterar a grafia para as pessoas “automaticamente” saberem escrever melhor,não só é um critério rebaixista, como é laxista e facilitista. Seria o equivalente, sem tirar nem pôr, a TIRAR NÚMEROS da Matemática para as pessoas saberem fazer melhor as contas. Agora já não parece tão inteligente,pois não?
    – Para quem vem com o argumento cómico “Ah, se o VG Moura não aceita a Lei eu também não vou aceitar o decréscimo de 5% no ordenado/pagar IRS/pagar portagens” só tenho a dizer: Mas vocês são assim tão ignorantes? O acordo NÃO É UMA LEI. Se acordos ortográficos fossem lei quase todas as pessoas neste fórum estavam presas (eu incluído) por escrever errado. NINGUÉM pode obrigar ninguém a escrever de que maneira fôr. Comparar a suposta obrigatoriedade de escrever com o acordo a pagar IRS é de uma falta de carácter épica. Mais, o próprio acordo NÃO tem força de LEI. NEM sequer revoga o Acordo Ortográfico em Vigor. Leram bem? NÃO é LEI e NÃO tem força legal para substituir o actual. Foi…mal…feito.
    – O acordo NÃO foi assinado por todos os países da CPLP, na verdade nem sequer foi assinado/aceite pela maioria dos países afectados. Foi criado um Mecânismo DE PROPÓSITO para forçar a sua aplicação em todos os países desde que 3 (sim apenas 3!) o aprovassem. Isto é democracia? Parece-se muito com fascismo, não?
    – O documento actual do acordo (que já data de 1990, vinte anos portanto) é IMPRECISO, FACCIONISTA, INCONSISTENTE, SEM SENTIDO E, a quase TODOS os níveis, DEFICIENTE.

    Alguns exemplos:
    – Expliquem o porquê de o Português Europeu perder consoantes mudas e o Português Brasileiro não perder. Expliquem! Porque perdemos “actual, óptimo, recepção, óptico” e o Português Brasileiro não perde “vir, comer, Portugal, etc,etc,etc”.
    Se NÃO há uma explicação para isto, não vejo como os defensores podem justificar o que quer que seja…NÃO é uma questão xenófoba, é uma questão LEGÍTIMA, que está na frente de toda a gente.Um facto. Se não há razão válida (ou uma razão sequer),porquê aplicar?
    – Duplas grafias? Triplas? Quadrúplas? “Recepção/Receção, Decepção/deceção, António/Antônio” só para nomear as mais comuns. Mas se é para UNIFORMIZAR a Língua porque acontece isto? Expliquem…
    – Sem critério para MUITA coisa: Porque se escrevem agora os meses e estações em minúsculas? Eu não quero saber se é mais bonito ou menos,se é mais moderno ou não. Apenas quero que me expliquem PORQUÊ? Mas uma razão a sério e não “porque sim”.
    – Porque é que “cor-de-rosa” e “cor de laranja”. Porquê? Critério de quê? Quero um válido e não “força do uso”. Eu também tenho “força do uso” no resto das palavras e isso não foi critério para permanecerem,..
    – O Português Europeu e o Brasileiro são muito mais diferentes entre si do que apenas na grafia. MUITO! A sintaxe, verbalização, morfologia, estrangeirismos… MUITA COISA.
    Com a suposta Unificação das grafias passa a haver APENAS UM Português. Mas nós sabemos que são diferentes…No entanto, qual é que vocês pensam que passará a ser escrito a nível internacional? Na internet? Já viram as Traduções do Google? As páginas da Wikipédia em Português de Portugal que foram APAGADAS e substituídas pela sua congénere Brasileira? Já viram a generalidade dos grandes sites internacionais? O que está lá escrito?
    Com o acordo o que irá acontecer é que o Português Europeu será APAGADO dos anais da História. Será escrito em Português sim, mas na norma Brasileira. Isto já acontece, não estou a inventar nada. Vejam. Ah,e por fim…
    – Para quem acha que isto estava destinado a acontecer quer quisessemos quer não a verdade é esta: NÃO estava não. O Português do Brasil NUNCA iria apagar o Português Europeu. Na verdade, a separação das grafias (e designação claro) É a melhor hipótese de o Português escrito e falado em Portugal se perpetuar pelos tempos, pois uma vez na Internet a sua divulgação e preservação (e ortografia) É GARANTIDA! Reparem por exemplo no Mirandês. Sem a internet o Mirandês seria um dialecto perdido em meia dúzia de regiões no Norte do país. Hoje e dia até na Wikipédia está. Resultado: qualquer , QUALQUER, pessoa que deseje aprender/ler/pesquisar sobre ele só tem que abrir o computador. A longo prazo, o Português de Portugal (não a grafia,mas antes a nossa maneira de expressar e dizer as coisas) será exclusiva APENAS do país. E depois, quando isso estiver finalmente isolado, seremos irremediavelmente influenciados pelo Português de norma Brasileira. Pois será a única coisa que os nossos “filhos” verão escrito por todo o lado, na Internet.

    Assim sendo, só tenho uma coisa a dizer aos defensores do acordo: antes de darem a vossa opinião pessoal sobre o quão moderno e fácil é o acordo (e de quão atrasados e Velhos do Restelo são os que se opõem) , façam como EU fiz antes de começar a participar activamente na luta contra o acordo – LEIAM antes coisas sobre ele. Mas artigos de pessoas que realmente sabem do que estão a falar (dica: linguistas). Depois disso, se ainda tiverem razões Válidas e Científicas para o defender será, isso sim, um verdadeiro MILAGRE.

  40. Carlos,

    Tenha calma. Isto comparado com tudo o resto é peanuts, amendoins….

    Porque é que usa tanta maíscula no seu texto?

  41. Só agora li este post, e a minha opinião é semelhante.
    Lembro que entre a assinatura do acordo e esta data, passaram-se 22 anos. Muito poderia ter sido feito, caso tivesse havido vontade! Agora parece-me demasiado estranho, para não dizer tardio!!

  42. António Fernando Nabais says:

    # Regina

    Houve e há vontade. Fez-se e disse-se muito. A esmagadora maioria dos pareceres pedidos a especialistas é contrária à aplicação do Acordo. O facto de algo estar a ser aplicado não é garantia de que seja virtuoso e não faz sentido, se se concordar que é negativo, voltar atrás. Espero, aliás, que aconteça o mesmo com a Terminologia Linguística imposta às escolas, com os programas de Português do Secundário ou com o roubo dos funcionários públicos.

  43. Albano Coelho says:

    # Nabais

    Outra vez a conversa dos “especialistas” e dos seus pareceres? Onde estão? Será que não gostam do Aventar nem têm suficiente paixão pelo tema que os leve a deixar também os seus comentários aqui ou nas outras dezenas de entradas sobre o mesmo tema? É que com honrosas exceções (insisto na grafia e na inclusão do meu caro camarada) só se leem por aqui o que eu já disse antes: Pentelhices.

    O único parecer de um verdadeiro especialista mundialmente reconhecido – Celso Álvarez Cáccamo (http://celso.blogaliza.org/) -, favorável ao acordo, desmistificador das falsas polémicas e descaradas falácias e, sobretudo respondendo cabalmente às TUAS preocupações pedagógicas, foi ignorado como quem assobia para o lado. É triste pois eu convidei o Celso de propósito para te responder às TUAS preocupações. Não me considero suficiente habilitado para discutir o tema contigo por isso recorri à “artilharia pesada”.

    Recomendo voltar atrás e ler o que merece ser lido. A ignorar neste fio de discussão somente os habituais comentários por parte do que já anteriormente conceptualizei como “nacional-cretinismo”.

  44. A. Pedro says:

    Para aquele senhor que se fartou de gritar com maiúsculas,

    Claro que o acordo é político. Mais, o acordo é (deve ser) estratégico. Para quem não o percebe, pergunte-se como o galego foi ultrapassado, secundarizado e “localizado” por uma língua sua filha.

    Quem não perceber que o português vai ser, de agora em diante, comandado pelo Brasil, anda a dormir ou a sonhar com glórias passadas, vulgo nostalgia imperial. O português de Portugal ou o acompanha (formando, na medida do possível, um bloco), ou se secundariza e perde a sua importáncia mundial, passando, como o galego, a língua local/regional.

    Estes aspectos quase nunca são mencionados pelos opositores, como se tudo se resumisse a hífens e consoantes mudas. Tenho más notícias: não resume.

  45. linus says:

    Hipótese de trabalho, deveras improvável, mas útil só para testar um dos muitos argumentos falacciosos dos apoiantes do AO:
    Primeiro passo – País de língua anglófona x (o inglês é a língua mais familiar a todos aqui) resolveu seguir, alegando a simplificação da ortografia, o critério fonético EM ALGUNS CASOS: 1. algumas (arbitrariamente seleccionadas) consoantes duplas; 2. algumas consoantes mudas (na variante dos EUA não se aspira o “h” como no Reino Unido); 3. alguns grupos consonânticos arcaicos.
    Segundo passo – País x aboliu duplo “L” (e.g. passou a grafar “seler”, e não “seller”); aboliu o “H” (e.g. “air”, e não “hair”); aboliu o “ph” grego (e.g. “fonetic”, e não “phonetic”), entre outras alterações gráficas arcaicas e pouco pragmáticas (e desconhecidas da maior parte dos falantes)
    Terceiro passo – País x convenceu país y que seria conveniente seguir as novas regras, a bem das boas relações entre os dois países, ao que o país y, vai-se lá saber porquê (até aspiram o “H” em “hair”, but what the “hel” – na nova grafia!), sucumbiu às promessas do país x.
    Quarto passo – Paíeses x e y convenceram os governos de mais 10 países a seguirem o acordo e insitituiram que havendo 12 países a subscrevê-lo seria o q.b. para que o novo acordo se transformasse em lei (de fora ficaram 42 países)
    Quinto passo – A norma ortográfica do inglês do século XX foi instituída.
    Sexto passo – Este cenário é tão pouco provável (de tão estúpido) que jamais se teria materializado, pese embora a diversidade de variantes da língua inglesa (jamaicana, americana, australiana, etc, etc.)

  46. A. Pedro says:

    linus,
    comparar a situaçáo geopolítica e estratégica do inglês com a do português é realmente inútil e falacioso, para além de ocioso.

  47. linus says:

    Entendido: é acatar as ordens superiores e calar. Reflectir é coisa de ociosos, porque sim.

  48. A. Pedro says:

    Sou todo a favor da reflexão, mas não entendo onde (em termos reflexivos) pretende chegar com esta “Hipótese de trabalho, deveras improvável, mas útil só para testar um dos muitos argumentos falacciosos dos apoiantes do AO”.

    Primeiro, porque não testa nada.
    Segundo, porque não demonstra os tais argumentos falaciosos.
    Terceiro, porque perde o alvo e deriva.
    Quarto, porque o inglês, nos tempos que correm, é a verdadeira língua mundial, logo não sofre, para já, dos problemas debilitantes de que padece, na conjuntura presente, o português.

  49. Linus says:

    Desconhecia que a língua portuguesa, ou a sua variante europeia (ou européia), padecia de “problemas debilitantes” (não estará confundir ortografia com a economia?) e que o AO pudesse ser a panaceia (ou panacéia?) ideal (ou ideau, se quiseremos defender ad nauseam a lógica da norma fonética).

  50. António Fernando Nabais says:

    Albano

    Como deves ter percebido, o jogo à volta de “exceção” e de “excepção” não passou de uma brincadeira, mesmo sabendo que não me considero excepcional e que não sou um especialista, embora a licenciatura em línguas e literaturas e os anos de docência façam com que me sinta, no mínimo, autorizado a colocar dúvidas e, no máximo, a ter algumas certezas, pelo menos, até alguém me provar o contrário. Já tinha ouvido falar do teu amigo Celso e, concordando com ele ou não, será sempre um prazer ler opiniões de alguém que sabe, com certeza, mais do que eu. Estarei, com certeza, atento ao blogue, ainda para mais porque gosto muito da Galiza, por várias razões e porque uma das minhas paixões é a poesia trovadoresca, território que une Galiza e Portugal.
    Nesta página criada pelo professor António Emiliano (http://www2.fcsh.unl.pt/docentes/aemiliano/AOLP90/index.html) estão vários pareceres.

    Pedro

    A propósito da Galiza, não sei qual é o problema de se ser uma língua regional, nem percebo por que razão o Português europeu está debilitado (e não percebo como poderá ficar fortalecido com um mau acordo). A actividade editorial galega, por exemplo, é riquíssima e não precisa de se basear numa língua internacional para sobreviver. No âmbito da poesia trovadoresca – nem de propósito – os galegos ultrapassam os portugueses (um exemplo que conheço bem: a edição dos textos de Afonso Sanches, trovador português e filho bastardo de D. Dinis, foi feita por uma estudiosa galega, em galego). Se formos bons naquilo que fazemos, a nossa cultura será conhecida e prestigiante. Se não formos, não há Acordo que nos valha. Se esse Acordo nos obrigar a escrever como no Brasil, passaremos a ser um mero satélite do Brasil, como fomos ou somos, para muitos, uma província de Espanha. Não preciso que escrevamos todos da mesma maneira (e nem isso o Acordo consegue) para apreciar, como faço há anos, a cultura brasileira, como não sofri nenhum trauma por ter lido o Disney e o “Tintim” em português do Brasil.

    • Celso Alvarez Cáccamo says:

      Caro António Fernando Nabais, obrigado pola consideração à minha pessoa nas suas palavras, mas não “sei mais” do que ninguém em quase nada (talvez, numa boa receita de salmão com ameijoas, isso sim 😉 . Simplesmente, opino, da ótica de alguém que vê como se está a perder a língua do seu país, e como a plena ré-integração no seu âmbito próprio, incluindo uma forma escrita unificada, parece ser a única saída natural salvadora. Porque também, como se comentou por cá, o que hoje acontece na Galiza poderia acontecer em Portugal. A fragmentação do adversário (e, nestas cousas da língua, há: países e classes, com nomes certos) é a mais importante arma dos poderosos. De resto, permita-me não concordar com a sua visão da “riquíssima” literatura galega atual. A sua atividade é grande, sim, e o número de publicações em galego é notável. Mas há uma importante parte de miragem em tudo isto. Durante 30 anos, a literatura em galego na norma da RAG (isto é, com ortografia castelhanizante) manteve-se em grande medida polos subsídios oficiais e por uma ilusão de alimentação e retro-alimentação dentro, quase exclusivamente, do campo cultural e do ensino. As obras em literatura galega liam-se e leem-se nos centros de ensino; os professores são escritores, as escritoras são professoras. Fora, no mundo real, o material mais lido é o jornal desportivo Marca (normalidade cultural absoluta, calculo que como em Portugal 😉 ). No entanto, o corpo de estudantado galego foi negado, durante décadas, de aceder aos autores que deveriam ser naturalmente também os seus clássicos mas que nasceram e viveram em algo só por acaso já chamado “Portugal”, como Camões. Que na Galiza não se conheça Camões mas sim a mais recente obrinha menor de qualquer autor/a hiperdimensionado/a, é simplesmente patético. Porque, enquanto a língua não conhece fronteiras, a Língua como arma dos estados sim, e, na realidade, a “riqueza” da atividade cultural galega é um produto do projeto de fragmentação, polo Reino de España, duma língua “estrangeira” (a portuguesa, claro) que ainda fica como um doloroso resíduo dentro do seu território. Imagine-se, portanto, o melhor (porque cousas boas também há) dessa “rica atividade” cultural galega inserida plenamente no mundo lusógrafo, com as mesminhas letras e sem desculpas de duplas edições por causa dum trema, e veriam-se, ver-se-iam, as vantagens de renunciarmos a alguma cousa “própria” por alcançarmos um novo tipo de ré-conhecimento mútuo além e aquém de rios e oceanos. || Finalmente, apenas uma nota pessoal. Eu também era, dantes, mais “etimologista”, e rejeitava como alento do diabo essas vulgares reduções anti-natura dos “aspectos” em “aspetos”, dos “dialectos” em “dialetos”, e até das “prácticas” em “práticas” (por que não?) e das “estructuras” em “estruturas” (estamos a falar do mesmo fenómeno, não esqueçamos). Até que compreendi que não era anti-vulgaridade o que me movia a rejeitar essas simplificações. Era que, como bom galego ;-), tinha muito dentro da cabeça España e a Lengua Española Universal, com os seus ubíquos grupos “CT”… que também pouca gente pronuncia 😉 . E então (pergunto-me) não será, por acaso, que algo disto há também no rejeitamento do AO por mor duns grupelhos consonânticos? Não será que a Língua Portuguesa de Portugal é muito mais semelhante à Lengua Española de España, em conceção imperial e Missão (não em forma, claro) do que ela procura ser semelhante à bárbara língua portuguesa do Brasil? Cordiais saudações!

  51. O português de Portugal teve um período de expansão liderado por Portugal. Agora a afirmação do português no mundo (sublinho, no mundo) e a sua consequente utilização como instrumento de centenas de milhões de pessoas depende especialmente do Brasil. A diferença entre ser uma língua regional e mundial é, obviamente, abissal e não tem, apenas, a ver com cultura, essa existe onde quer que existam pessoas. A Língua é muito mais do que esses quintalinhos linguistícos, culturais, locais, etc. onde, aparentemente, a pretendem aprisionar. Portugal “inventou” uma língua mas não é dono dela. Se o português está em expansão e afirmação a partir de outros locais no mundo, está em fase de contracção (nem que seja por fenómenos de natalidade) ou de cristalização por cá ou, melhor dito, a partir de cá. A isso chamo eu problema debilitante.
    Mas aborrece-me, sinceramente, que isto não seja discutido e visto como fundamental e que a tónica se ponha em termos de seguidismo, andar a reboque do Brasil, etc., como se isso, em si mesmo, não fosse natural, dadas as realidades (quase me apetecia dizer realidades REAIS para ver se deixam de sonhar com grandezas passadas e percebem a diferença aritmética de utilizadores da língua – e não das línguas).

    Aborrece-me, portanto, que se ponha a tónica em hífens, consoantes, especialistas que só discutem etimologia, ortografia e afins sem discutirem também política e estratégia. Pentelhos como, e muito bem, diz o Albano Coelho.

  52. António Fernando Nabais says:

    Pedro

    Pessoalmente, não ponho a tónica no problema do seguidismo, ou seja, não discordo do Acordo por ser mais ou menos “brasileiro”. Um contributo científico é bom porque é bom e isso não depende da nacionalidade do seu autor.
    Continuo sem perceber em que é que um acordo ortográfico vai fazer com que Portugal passe a ter mais prestígio ou mais importância do que já tem (ou não). A ser verdade que só poderemos sobreviver ao aceitarmos sermos satélites do Brasil, vamos também prescindir de tudo o que seja especificamente português, porque, afinal, só nos atrapalha no caminho do sucesso? O cante alentejano deverá ser substituído pela bossa-nova e o cozido pela moqueca?
    Ainda por cima, o AO mantém a desunião ortográfica (este é um dado que chega a ser cómico) e não consegue – nem queria conseguir, é certo – a unificação sintáctica e semântica, pelo que um texto escrito por um brasileiro será sempre diferente de um escrito por um português. Como se isso não bastasse, abre as portas a mais homografias, grafias facultativas e ao aprofundamento da ideia de que é legítimo escrever como se fala, fonte de muitos erros ortográficos.
    Portugal e Brasil usam a mesma língua de maneiras diferentes, mas não tão diferentes que não se entendam uns aos outros e que não possam ser entendidos pelo mundo, se fizerem alguma coisa que valha a pena ser entendida. Por isso é que o Saramago foi tão lido ou o Tom Jobim tão ouvido.

  53. Fernando,
    A minha referência ao seguidismo não se dirigia a ti.

    Mas não digo ser satélite, digo (disse-o atrás) formar bloco – claro que o número de falantes não nos põe em pé de igualdade.
    Quanto ao cante alentejano, etc. estamos, uma vez mais, perante um falso problema. A língua não é a cultura, a língua comporta culturas, sob uma língua (co)existem culturas e quanto mais numerosas e diversas melhor, quanto mais Saramagos e Jobins melhor a língua é servida.
    Quanto à desunião ortográfica e às duplas e triplas grafias tens razão: de certa forma desune o que pretende unir e gera o que pretende evitar.

    Quando eu digo que o aspecto estratégico é importante, não falo de hoje ou dos próximos cinco anos. Falo de décadas, séculos, nada menos. Ou a língua evolui em bloco (fazendo-se acordos quando necessário) ou acaba em duas ou mais. Isso é que era trágico para a Língua Portuguesa especialmente para a variante de Portugal.

  54. Gostei do comentário do Celso Alvarez Cáccamo que por si só é um verdadeiro “post” completo acerca desta (pequena) “contenda”… 😀
    E apresentará também (eventualmente) alguns motivos de reflexão para o António Fernando Nabais quando afirma (no #14): “juro que gostava ler uma defesa do AO que me deixasse a pensar na hipótese de estar errado”…

  55. António Fernando Nabais says:

    Caro Celso

    O apelo que me fez ao estômago – que o tenho grande e amante das vitualhas galegas – não foi suficiente para me convencer a mudar de posição 🙂 Conto, brevemente, publicar nesta casa tão plural uma série de textos e terei muito gosto em ser alvo das suas críticas. Tudo o que escreve acerca da cultura galega coincide com o pouco que sei e, por aqui, temos, na realidade, o mesmo desconhecimento sobre Camões (ou sobre Martin Codax, por exemplo), face ao cultivo de uma imprensa desportiva idiota e também por aqui a actividade editorial está dominada por subprodutos, como é o caso do brasileiro Paulo Coelho, que não vende menos por escrever noutra ortografia. Do mesmo modo que desejo que os Pimentos Padrón não sejam substituídos por “americanices”, não consigo ver a necessidade de que as nossas línguas se comportem como rémoras agarradas a tubarões.

    Caro Luís

    É sempre um prazer ler argumentos escritos por especialistas, como é o caso do Celso Cáccamo, exactamente porque procura argumentar, sem estar preocupado em adivinhar se o oponente é xenófobo ou colonialista disfarçado (e não estou a dizer que é o seu caso). Vai perdoar-me, no entanto, que lhe diga que é muito pouco defender um acordo ortográfico porque é importante refrescar a escrita ou porque esta é uma questão que não pode ser resolvida por especialistas, partindo do princípio de que são nefelibatas sem redenção. O primeiro argumento pode ser levado ao ponto de se mudar a ortografia porque sim; o segundo argumento assenta na ilusão de que todos os aspectos relacionados com a língua devem ser entregues aos falantes, o que, em última análise, redundaria em ortografias regionais, concelhias ou pessoais, ou seja, em ausência de ortografia, ou seja, tornaria inútil qualquer acordo ortográfico.

  56. J. Roque Dias says:

    Albano Coelho pergunta: «Outra vez a conversa dos “especialistas” e dos seus pareceres? Onde estão?»
    Ora essa! Não os conhece? Nunca os leu? Eu dou-lhe uma ajuda:

    E uma opinião assassina de Evanildo Bechara (subscrita por Malaca Casteleiro): «(…) num ponto concordamos (…) com os termos do Manifesto-Petição quando declara que o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambigüidades.» Evanildo Bechara, 11/05/2008. Se quiser ler o texto completo: http://mdl-galiza.org/content/view/391/

  57. J. Roque Dias says:

    Ia-me esquecendo do parecer do Prof. António Emiliano:

    E deste documento apresentado por AE na AR:

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