Desconstruções e confissões

Funchal, Quinta da Vigia, Agosto de 1995. Eu, o primeiro à esquerda, com os meus amigos Alberto João Jardim e Miguel Albuquerque

1. Sou filho de dois PSD’s que sempre votaram PSD e que, quando não querem votar PSD, nem saem de casa. Incorruptíveis e de uma seriedade ímpar. Durante parte da adolescência, altura em que era um jovenzinho sem consciência política, fui presença assídua na sede do PSD do Pinheiro Manso, incluindo numa festa de Passagem de Ano, e assisti a vários comícios na Praça da Liberdade e do Molhe, onde os GNR costumavam abrilhantar a festa. Passeei-me com a bandeirinha laranja vezes sem conta.

1980. Quadro da primeira comunhão.

2. Sou filho de dois católicos praticantes. Durante toda a minha infância, frequentei semanalmente a missa na Igreja do Cristo-Rei. Fui à catequese e culminei a minha passagem pelo catolicismo com a chamada 1.ª Comunhão. Continuei a ir à missa e a frequentar as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, no Garcia de Orta, com o Frei Eugénio e o Frei Jerónimo, que muito apreciava. Rezava todos os dias.

3. Entretanto, cresci. Ganhei consciência política e guinei à Esquerda. Da primeira vez que pude votar, já estava numa área próxima do PCP. Alguns anos antes, passara a ver a Igreja Católica sob um olhar muito crítico. Logo que pude, deixei de ter aulas de EMRC e deixei de ir à Missa, mesmo que a minha mãe me chamasse herege de cada vez que não ia. «Ai que eu criei este filho com tanto amor…» Tornei-me ateu…

4. Isto de escrever nos blogues é muito redutor. Colam-nos um rótulo a partir daquilo que lêem e pronto, o adesivo fica. É verdade que nos pomos a jeito, mas é verdade também que, para quem não nos conhece, passamos a ser apenas aquilo que escrevemos. A mim, por exemplo, já me chamaram apreciador de regimes totalitários e ordinário malcriado.

5. No mais recente convívio do Aventar, tive a oportunidade de conhecer duas pessoas adoráveis e admiráveis com quem já tive fricções internas, o Carlos Osório e o Nuno Resende. Porque são admiráveis todos aqueles que acreditam em algo e que lutam por isso. Um deles é fervoroso adepto de Passos Coelho, que tanto tem sido criticado por mim; o outro um membro activo de uma Igreja Católica que tantas vezes já ataquei.

6. Lembrei-me então de que já fui um deles. Embora sem qualquer consciência política e sem saber o que estava a defender, fui um jovenzinho do PSD. Embora sem pensar muito no assunto, já fui um jovenzinho católico. Por vezes acusa-se de incoerência quem segue determinadas ideias, quando, afinal, a incoerência está em nossa casa.

7. É bom fazer as pazes com o passado e olhar o presente com tranquilidade. Sem ataques desnecessários, sem radicalismos que cansam, sem incorrer nos erros do costume. Estou feliz com o meu novo «eu».

8. Desconstruída a personagem criada e feitas algumas confissões, devo ir. É urgente bater naquele anormal que disse que o Domingos andava em negociações com o F C do Porto. Ah, e o caceteiro do Sá Pinto também vai levar!

Comments


  1. eheheheheheheheehheeheh…..és um perigoso “faxista” pá!!!!


  2. Xi… cuidado! Temos aqui um perigoso direitista em potência!
    JP


  3. Círculo do Pinheiro Manso, seu betinho?! Não sei se tomou as opções correctas. 😉 Veja que os cola-cartazes da época, são agora deputados da nação.

  4. mortalha says:

    parabéns Ricardo. fez mais do que o comum português, que vê a política e a religião tal e qual como vê a bola. o “desgosto” que causou na sua mãe é representativo dessa mentalidade que insiste em se manter geração após geração.


  5. O que é realmente importante, Ricardo, não são os rótulos que nos põem, mas a vontade de os contrariar. Pode parecer cliché, mas é dessa força que nascem as coisas e que o tal mundo pula e avança. Pode avançar mal, mas sempre preferi um erro a um silêncio.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Nuno, preocupam-me pouco os rótulos que me põem pessoas que não conheço. Aliás, é exactamente o contrário. Se tenho a fama, por que não o proveito?
      Preocupa-me mais se esse rótulo for posto por alguém que conheço. Por alguém que me diz alguma coisa. E quem me conhece não me põe rótulos.

  6. Observador says:

    Ricardo, para relaxar ouça: “dinheiro” de Luís Cilia e FMI do Zé Mário.

    Cumpt.

  7. Tito Lívio Santos Mota says:

    PSD no Pinheiro Manso? era ser de extrema-esquerda, lol…
    é que já morei lá, por isso…

    E ano e meio no MRPP também se perdoa?
    Não tenho é fotografia com o Durão Barroso na Herdade do Gavião.
    Mas tenho pena 🙂

    Enfim, se compreendo bem, o nosso amigo é um Vítor Hugo português em matéria de evolução política.
    Fez bem, é sempre bom seguir este exemplos !

    Tito Livio Santos Mota

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Não se pode dizer isso. Quando não se tem qualquer consciência política, não chega a haver evolução. Parte-se do zero.


  8. Parabéns grande Ricardo.. todo esse trajecto faz parte do nosso ciclo de vida..muitos não se querem é consciencializar

    Nascemos nus.. depois temos fralda… depois os pais são os maiores.. depois são as miudas..a seguir as causas como a do Tua… depois os pais voltam a ser os maiores… `voltamos às fraldas e morremos nus

    grande abraço

    mario carvalho

  9. artur almeida says:

    DEVE TER SIDO MUITO TRAUMATIZANTE. SERÁ QUE O “CONSCIENTE” FICOU INTOCÁVEL?

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Claro que sim. Não foi traumatizante, era apenas um miúdo que de política sabia zero. Por isso é que não se deve poder votar antes dos 18 anos.

  10. MAGRIÇO says:

    Ricardo, parabéns por ter amadurecido. Olhe que nem todos o conseguem…


  11. Um clássico!

Trackbacks


  1. […] com o apoio da Esquerda mesmo Esquerda. Eu é mais PCP ou Bloco. Mas desde que deixei de ser um aspirante a betinho do Pinheiro Manso sem qualquer consciência política, nunca mudei. No blogue, também não. Bati sem descanso em […]

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