Zona de Conforto Europeia

O ministro Relvas, acossado pela significativa desobediência civil à ordem carnavalesca do governo, apressa-se a proclamar que, em 2013, também não haverá tolerância de ponto no Carnaval – eu até não sou dado a festas carnavalescas, fora o Brasil, mas entendo que outros gostem do que eu recuso. Do actual governo, por exemplo.

Miguel Relvas, loquaz viciado, é o governante mais prolixo em declarações públicas. Debita proclamações umas atrás das outras, a propósito ou a despropósito, mesmo que a segunda nada tenha a ver com a primeira e assim sucessivamente.

Como a última palavra tem sempre de ser sua, também ao jeito de ‘Dupond e Dupont’, há tempos reforçou o conselho de que os jovens portugueses deixassem a sua ‘zona de conforto’ e emigrassem – conselho lançado para a opinião pública pelo obscuro secretário de estado Mestre.

Gente desta, como políticos da governação, é incapaz de ter a mínima percepção das tristes figuras que fazem perante os cidadãos que julgam governar. Na estreiteza de pensamento e capacidades que os atinge, revelam absoluta inépcia na compreensão do real fenómeno de emigração e da vida dos emigrantes. Dos mais 15 milhões de portugueses que estão no mundo, cerca de 1/3 residem e trabalham fora do País.

Dispersámos pelo mundo uma massa humana, heterogénea e que  usufrui de níveis socioprofissionais e económicos assimétricos. A ‘zona de conforto’ de uns diverge, e de que maneira!, das ‘zonas de conforto’ de outros, carregados de árduos trabalhos e de dificuldades financeiras.

Tenho vontade de perguntar a Relvas e Mestre a razão por que não partem eles próprios para esta ‘Zona de Conforto Europeia’, na Bélgica; onde, com macabra desumanidade, o emigrante António Nunes Coelho, de 49 anos, após ataque cardíaco e queda do andaime, foi despejado numa ruela deserta, a mando do patrão. Morreria abandonado, cerca de 15 minutos depois.

É também este tipo de Europa, continente das grandes civilizações em decadência, que um pobre emigrante pode ter como destino.

Comments

  1. marai celeste ramos says:

    fecharam o júlio matos ?? ou só os hospitais normais ??

  2. O fim do texto acaba por transformar um bom texto, em algo muito infeliz.

  3. Zuruspa says:

    Näo sejam candidatos a hipócritas. O que tragicamente aconteceu ao António acontece tambem aos emigrantes em Portugal, e toda a gente sabe disso. O problema é acontecer a quem trabalha, seja na Bélgica, em Portugal, ou na China, enquanto quem manda passa boa vida sem se preocupar com isso, seja na Bélgica, em Portugal, ou na China!

    Com a ressalva que na Bélgica os suspeitos foram logo presos, e que o António ganhara um processo em Tribunal de Trabalho. E em Portugal?

  4. Chocou-me a maneira como ele (Relvas) ameaçou o pessoal com um ano de antecedência. Sabe lá ele o que lhe (nos) acontecerá entretanto.

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