O valor da amizade com confiança

corrente de amizade

…para a pessoa que soube confiar em mim e eu falhei… 

Há um sentimento que não tem preço: o da amizade com confiança. Há quem confiou em mim a correr e eu não fui capaz de corresponder. Estamos a viver uma vida amargurada por causa de ser a maior parte da população que é roubada pelos proprietários dos meios de produção. Bem sei que a frase a tenho retirado do texto de Kart Marx de 1867: O Capital. Texto que soube descobrir a fórmula da acumulação de dinheiro convertido em moeda e em lucro com mais-valia.

Se refiro estas palavras, não é por causa do livro de Marx que não fala de sentimentos, mas sim do que interfere ou pode interferir na relação duradoura de amizade com confiança. Mal entra o dinheiro em qualquer relação de confiança ou de amizade, a amizade não acabe, mas a confiança pode terminar. Pelo menos nas minhas ideias e emoções.

Tenho contado com no aprecio e confiança de uma senhora que, no meu momento de alarme, de imediato disponibilizou-se para me socorrer sem pensar mais. Senhora de escassos recursos, não pensou em ela, mas sim no amigo em apertos e salvou-me em meia hora. Tinha-me comprometido a devolver a importância, alta para ela, no dia devido. Foi-me impossível e fiquei envergonhado.

A vergonha e o choramingar não ajudam. Ficamos sem meios para agradecer a prontidão da promessa, em momentos de doença, em que a moeda é necessária como meio de pagamento para curar uma doença que lhe acontece. Bem sei que entende estas palavras, como outras minhas que me tem ajudado a fixar, por causa do meu pobre português, não pagam a dívida, mas faz que eu me sinta mais calmo e menos empobrecido. Espero ser também o seu caso.

Nunca esqueço essa tarde na Feira do Livro, nos anos 90 do Século passado, não apenas foi-me acompanhar e sugerir palavras para os compradores desses tempos, esses bons tempos en Portugal, en que havia dinheiro para usar. Não apenas foi ela, levou consigo a toda a turma que eu tinha ensinado ao longo de quatro anos. Confiou em mim, como nestes dias, em que eu não soube corresponder. A seguir, tinha organizado um jantar para comemorar o meu novo livro, importou-se com a minha saúde e fomos todos a um sítio discreto, sem barulho que eu não conseguia suportar. A fórmula de Marx, ao longo da cronologia da História do nosso país, tem-nos feito uma rasteira e somos um povo de infelices, excepto para os que, como diz ela, sabem que viver não custa, o que custa é saber aprender a viver. Por esses trilhos ando eu.

Falava com esta amiga faz poucos dias antes e proferiu uma aula de economia para as minhas maneiras de gerir os bens, impossível para de mim de ensinar, apesar de ter sido a minha estudante de economia. Senhora fiel que, apesar da falta de meios, cursou comigo um mestrado de Antropologia da Educação, com sucesso. Eram os dias felizes da vida. As minhas aulas eram no meu gabinete de Presidente do Departamento, gabinete em que apareciam comidas e bebidas para arrebitar a vida e ouvir o meu discurso da ciência da educação, após um dia de trabalho que começava as oito da manhã. Refeição que não apenas arrebitava o corpo, bem como levantava a alma.

Estou em dívida, não apenas em dinheiro, mas em dívida espiritual. Velho como sou, ainda não aprendi a lição ensinada por ela que o que custa é saber aprender a viver.

Quantos livros e ensaios que fizéramos juntos! Aprendi português da sua mão e saber, após mais de trinta anos neste país.

Não vou referir o nome. Ela sabe quem é….e na sua humildade, nunca quis que o seu nome aparecesse nos meus textos. Grande valentia! Apenas posso agradecer e entregar esta surpresa em palavras comovidas.

Agradeço o entendimento e valorizo essa amizade que confia…

Raúl Iturra

Fevereiro, 19 de Fevereiro de 201112

Comments


  1. Apreciei muito o texto acima. Obrigado. Há bastantes anos, escrevi um texto relacionado com este tema, em que referia que “earned trust” é a melhor forma de capital – e nem paga impostos. A isso chamei capital de confiança provada, porque confiança não constitui nenhuma forma de capital; mas confiança provada constitui e é dos sentimentos bonitos na vida. Abraço.

  2. kalidas says:

    Tirada de um livro de Poemas, de Teixeira de Pascoais, aqui vai um belo verso, sobre a Saudade;
    ” De qualquer forma que existas,
    És a mesma Divindade.
    Ventura, quando te vejo,
    Se não te vejo, Saudade”.

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