Fernando Paulo Baptista sobre o Acordo Ortográfico: a etimologia é o futuro

Uma das censuras recorrentes  dirigida aos que criticam o Acordo Ortográfico é a de estarem prisioneiros da etimologia, ciência que, para os que a desprezam, cheira a bafio e a corredores cheios de humidade e que deveria estar exposta num museu, ao lado das caixas de rapé e das retortas de alquimista.

Fernando Paulo Baptista é, entre outras coisas, licenciado em Filologia Clássica. Sobre o Acordo Ortográfico, teve palavras judiciosas que podem ser lidas aqui.

Muitos vêem no Acordo Ortográfico a garantia da sobrevivência da língua portuguesa. Fernando Paulo Baptista, no entanto, especialmente no que se refere à perda das consoantes mudas e ao consequente afastamento da etimologia, chama a atenção para o facto de que isso vai provocar a diminuição da “qualidade competitiva e sobretudo dialogal, dialógica, com as outras línguas que mantêm a raiz [latina]”, criticando aquilo a que chama, com propriedade, “ditadura fonética”.

Imagine-se, a título de exemplo, a dificuldade que sentirão um inglês ou um francês em relacionar “actuality” ou “actualité” com “atualidade”, multiplique-se o exemplo e será possível descobrir que, afinal, o futuro está no passado, ou seja, na etimologia, naquilo que nos une, portanto.

Comments

  1. palavrossavrvs says:

    Não poderia estar mais de acordo.


  2. Defendo que, a haver algum tipo de uniformidade ortográfica do português (cuja utilidade questiono), ela terá de se fazer pela etimologia e nunca pela fonética. A fonética muda continuamente, só a etimologia atravessa o tempo.


  3. O argumento do Fernando Paulo Baptista peca por omissão (e submissão): perde-se o contacto com as línguas que, como o francês e o inglês, conservam letras que em português são “mudas” (mas que não o são nessas línguas), mas ganha-se contacto com línguas que as suprimiram, como o espanhol, o italiano, o catalão, o galego… enfim, com todas as línguas neo-latinas, das quais o francês é a única e solitária excepção. Sim, porque nem no português a função das letras ditas “mudas” é etimológica: elas conservaram-se por terem uma função na pronúncia, a de abrir a vogal que as precede, e é por *este* motivo que se deve ser contra a sua eliminação. E, diga-se de passagem, essa história de “contacto” com as duas línguas de ortografia mais notoriamente abstrusa até para os seus próprios falantes cheira a sabujice: qual seria a grande vantagem delas sobre todas as demais?

  4. António Cândido de Oliveira says:

    Vejam também o que diz Alda Maia (uma luso-italiana) em “Pensamentos Vagabundos” (blog)


  5. O sr. Fernando Paulo Baptista teve por bem fazer a gentileza de postar no Facebook, como comentário a um comentário sobre a USP, o seguinte texto:

    ============Início da citação
    A propósito de um comentário (descontextualizado e sem fundamentação epistemoilógica…), formulado pelo Senhor Tomás Rosa Bueno em: http://j.mp/aventar:

    Como o Senhor Tomás Rosa Bueno fala em «letras mudas» que, no português, segundo ele, «não têm uma função etimológica, mas apenas uma função na pronúncia», função essa que é «a de abrir a vogal que as precede», ressalta claramente o seu monumental desconhecimento em Ciências da Linguagem. Nesse sentido, sem recorrer ao vocabulário do tipo «submissão», «abstruso», «sabujice» por este senhor utilizado, devo lembrar-lhe apenas que: 1º) uma língua, como a portuguesa, tem dois inconfundíveis e distintíssimos modos de se realizar comunicacionalmente: o modo oral e o modo escrito; 2º) uma letra, ou grafema, não se capta por via acústica na interacção comunicativa «falar / ouvir»: capta-se, sim, por via óptico-oftamológica, na interacção comunicativa «escrever / ler». Mas, como aqui não disponho do espaço necessário para expor a fundamentação e a consequente argumentação de que me ocupo no meu livro «Por Amor à Língua Portuguesa» acabado de editar (Edições Piaget) e em cuja elaboração investi milhares de horas, peço-lhe a generosidade de contestar o que aí defendo com vastíssimo, especializado e actualizado suporte bibliográfico.

    Em conclusão: tudo isto suscita na minha memória o pertinentíssimo conselho formulado por Ludwig Wittgenstein, conselho que me marcou, desde bem cedo, na minha carreira académica e na minha vida intelectual: «Acerca daquilo de que não temos potencialidades (competência) para falar, devemos ficar calados».
    Fim da citação============

    Respondo-lhe aqui, em espaço mais apropriado:
    Caro Fernando Paulo Baptista: é facto conhecido de todos que um dos primeiros actos “culturais” da jovem República proclamada em 5 de outubro de 1910 foi nomear, a 15 de fevereiro do ano seguinte, a competentíssima Comissão para o Estudo da Reforma Ortográfica, com a missão expressa de remover da ortografia portuguesa toda a ganga etimológica com que a sabujice galicista dos poucos séculos anteriores a tinha atravancado, e devolvê-la à simplicidade e à beleza da língua escrita por Camões. A Comissão, integrada pela grande Carolina de Michaelis entre outros luminares, eliminou sabiamente todas as letras dobradas sem função, os dígrafos de origem grega como th, ph, rh e ch com som de k que não serviam a qualquer propósito discernível além de o de deixar a grafia portuguesa mais parecida com a do francês, o y que só causava confusão e **as “consoantes mudas” sem função na pronúncia**, razão pela qual não se escreve mais producto, fructo, instincto, escripto ou dictado, todas palavras cujas “consoantes mudas” tinham função tão etimológica como as de adopção ou recepção ou directo.

    Se fosse preciso fundamentar o que é do conhecimento de todos, não faria falta nenhum “vastíssimo, especializado e actualizado suporte bibliográfico”. Bastaria o texto das Bases da Refoma Ortográfica publicadas no Diário do Governo de 12 de setembro de 1911 (e que se podem ler aqui: http://j.mp/diariodogoverno), no qual abundam expressões como “a ortografia francesa, que mais ou menos coerentemente se tem há certo tempo imitado em Portugal”, ou “as ortografias espanhola e italiana, muito mais racionais, lógicas e fáceis de aprender, muito mais conformes com a evolução natural e mesmo literária desses idiomas, em muitos pontos análoga à do português” e “se implantaram artificialmente entre nós ortografias SERVIL E INCONSEQUENTEMENTE ETIMOLÓGICAS, quase todas por influência da escrita francesa”.

    Não me parece que seja preciso mais. O Acordo de 1945 seguiu aproximadamente as mesmas bases, radicalizando-as e suprimindo, por exemplo, o s inicial de palavras como sciência e scelerado, provavelmente por já ter falecido o último alentejano que as pronunciava.

    Repito o que disse no comentário que deu ensejo a esta troca de opiniões: de todas as razões para rejeitar o incompetentíssimo Acordo Ortográfico de 1990, a etimologia é a pior. Tão pior que esgrimi-la é dar munição aos acordistas.

    Lamento a falta de um “vastíssimo, especializado e actualizado suporte bibliográfico”; de facto, o meu conhecimento das “Ciências da Linguagem” é monumentalmente nulo. Tenho mais afinidade e familiaridade com a língua portuguesa de todos os dias, domínio em que sou a minha própria autoridade. Mas já se vê que, para o que é, basta.

    PS.: Detalhe: eu *não* tinha lido as Bases do Acordo de 1911 antes de hoje. Fico muito honrado por ter chegado sozinho à mesma conclusão que os doutos membros da Comissão que as redigiu, prova de que o que é óbvio não precisa de bibliografia.

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  1. […] No âmbito da importância da etimologia para o futuro da língua, já tinha tido oportunidade de fazer referência a um texto de Fernando Paulo Baptista. […]

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