Ligeira espreguiça ortográfica

Enquanto me vou divertindo com a raiva seven-up que se despeja sobre a minudência conhecida por acordo ortográfico, feita na maior parte dos casos por quem não tem a mínima ideia do tempo em que vive e se pensa ainda aristocrático dono da escrita, e me mantenho preguiçosamente com um único artiguito aqui deixado sobre a reforma ortográfica que há-de vir, recolhi este carta de um leitor que o Público publicou por estes dias, maltratada no título, e guardada no canto onde por ali se despeja o bom senso:

Acordo Ortográfico devia ter simplificado mais

Intriga-me a sanha anti-Acordo Ortográfico (AO) que o Público não se cansa de difundir. Também sou contra, mas não pelas razões apresentadas que se fundam essencialmente na tradição, no saudosismo, na etimologia.

Tentam ridicularizar a eliminação das consoantes mudas que ajudam a abrir a vogal anterior. Ora há numerosas palavras em que tal não se verifica (actriz, actual, actividade, etc.). Acabo de ler a carta de um leitor alarmado com e eliminação da consoante muda em “ótica” por poder ocasionar confusões que levem a operar aos ouvidos quem sofre de cataratas…

Erros médicos surgem por falta de diligência, não pelas palavras, até porque faladas (óptica/ótica) se pronunciam de igual modo.

Acho intelectualmente indigente invocar eventuais confusões na pronúncia e no sentido de palavras, como se a nossa língua não estivesse, mesmo sem AO, prenhe de termos homónimos e homógrafos. Não é a grafia que faz a oralidade. Com ou sem AO, as pessoas continuam a falar como aprenderam no seu meio desde o nascimento. A grafia deve corresponder, tanto quanto possível, ao falar. Na atual civilização eletrónica, a grafia deve ser simplificada não só nas consoantes mudas mas também na multiplicidade e confusão de carateres para representarem o mesmo som. Por coerência, quem acha a etimologia um valor dominante deve escrever como os copistas medievais — sem acentos e com todas as consoantes mudas que o latim de onde derivamos nos impõe. A defesa da nossa língua não está no modo de escrever (a propósito, eu pronuncio e escrevo espectador, expectativa). Surpreende-me haver tanta gente a protestar contra um Acordo Ortográfico que não mexe na oralidade mas procura, sem ir tão longe quanto devia, simplificar a escrita. Não vejo a mesma tenacidade no combate às afrontas à nossa língua, como são, por exemplo:

– haver uma faculdade pública onde todas as aulas são dadas em inglês; o uso de pesos e de medidas anglo-saxónicos bem como do ponto no lugar da vírgula; a expressão à inglesa de palavras latinas (mídia, Flórida) ou de letras do alfabeto (éme-ai-ti ) ou ainda de palavras derivadas do aportuguesamento do equivalente inglês (râguebi, de rugby , pronunciado “rèiguebi”);

– o recurso a expressões inglesas como  shopping ,  call center, marketing,  show,  sponsor , etc., etc.

(…)

M. Gaspar Martins, Porto

Comments

  1. António Duarte says:

    Para além dos aspectos estéticos – a grafia de algumas palavras, com o AO, fica mesmo feia! – e das incoerências e trapalhadas, sobretudo na questão dos hífenes, a minha objecção ao acordo não resulta de saudosismos ou apego a convencionalismos, mas sim ao exercício de autoritarismo prepotente que ele representa.

    Avesso por natureza à autoridade, aceito que ela se manifeste quando está em causa o bem e interesse comum. Já não aceito que supostos donos da língua, políticos oportunistas aliados a linguistas de 2ª ou 3ª categoria, se arvorem o direito determinar como os outros devem escrever. Pura e simplesmente não faz parte das suas competências, na minha maneira de ver.

    De resto, toda esta discussão assenta num pressuposto errado, que é o de que “a grafia deve corresponder, tanto quanto possível, ao falar”. Se é assim, como é que os ingleses conseguiram dar à sua língua a projecção mundial que hoje tem, mantendo uma ortografia que no essencial remonta ao séc. XVII?

    Estarão o francês e o inglês condenados a algum destino tenebroso por não terem actualizado a grafia e continuarem a usar o ph que tanto incomoda os portugueses adeptos da ortografia-em-movimento?

    Porque é que mais nenhum país europeu faz acordos linguísticos com as ex-colónias, e nós temos que fazer, uns atrás dos outros? Já ocorreu a algum dos defensores do AO porque é que já vamos no terceiro? Pois, porque os brasileiros não cumpriram nenhum dos anteriores e continuaram a escrever como lhes apeteceu. Adivinhem o que vai então acontecer a este…

  2. mamacopa says:

    E ouso acrescentar, na minha modesta forma que aprendi a escrever, que a lingua portuguesa por si só não é uma língua. É um derivado de uma língua (o latim) e que, qualquer mudança que se faça deveria ser em comum acordo com os nossos irmãos europeus. Dessa forma, evitaria-se pulhices com certas formas novas de escrever, como por exemplo a palavra Egito, ou Egipto (que vem do latim Aegiptus).


  3. Estruturalmente latina, sim, mas também bárbara, árabe, e mais uns pozinhos de outros lados (a começar no castelhano). Se quer falar latim recomendo-lhe um seminário. Ou um cemitério de línguas mortas.
    A minha língua está viva e recomenda-se, tanto na oralidade como sobretudo na escrita, em que nunca teve tantos praticantes.
    O tempo em que pertencia às elites, acabou. As elites esperneiam? paciência, habituem-se; o português é de todos os seus falantes (e escreventes, também).

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.