na morte de um periquito

Se me perguntas como se constrói um carro, ou de que é feito o planeta Terra, ou como é que a borracha consegue apagar os riscos do lápis no papel, eu posso procurar na enciclopédia, ou na wiki, e explicar-te, mais coisa menos coisa. Podemos construir uma miniatura do sistema solar e contar os países que há em África. Podemos usar o super olho biónico para ver como é a pele de um braço ampliada, ou um fio de cabelo, ou umas pedras de sal. O mundo é um sítio explicável, sabes?

Mas quando ficamos a olhar o periquito morto, quer dizer, o corpo inerte do periquito, e tu me perguntas onde está agora o periquito e por que é que o periquito já não canta, nem voa, nem tenta bicar-nos os dedos, o mundo deixa de ser tão explicável. Por que é o corpo fica assim, esse miserável corpo hirto, de patas esticadas, esse corpo que já não reconhecemos como o do periquito? Por que é que a vida que pulsava ali deixou de estar? Onde está agora o periquito? Há algum lugar onde ele esteja?

Não, não há nada aqui que eu saiba explicar. Posso procurar palavras tranquilizadoras, mas caminho na corda bamba porque não quero mentir nem jurar o que não sei nem prometer o que não pode ser dado. Quando não sabemos explicar remetemo-nos aos rituais. Preparamos com solenidade a caixa de sapatos que há-de dar repouso ao corpo do que foi o periquito,  lembramos que o periquito não foi um periquito qualquer, teve um nome e até dois apelidos, chamou-se Luís Gonçalves Pereira, porque houve um menino que achou graça a esses nomes, teve um amigo próximo, da sua espécie, que partilhou casa e vida com ele, e teve gente cujos dedos bicou com afinco, gente que lhe chamou “sacana de periquito” porque gostava dele.

Não há nada que eu saiba explicar, nenhuma razão que me ocorra, nenhum sentido. Mas sei que nos lembraremos do periquito, e que aprender que nem tudo é explicável através de experiências científicas ou páginas de enciclopédia também é aprender.

Fechamos a tampa da caixa de sapatos. Não sei onde está agora o Luís Gonçalves Pereira, mas sei que nos lembraremos dele, sacana do periquito.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    O periquito já não canta – coitadinho já nem pia ??


  2. Reblogged this on Beto Bertagna a 24 quadros.


  3. É uma vida, né? E soube ocupar espaço na sua. E ambas ganharam com o feito!
    Grata.

  4. MAGRIÇO says:

    O eterno mistério da delicada fronteira entre vida e morte…

  5. Augusta Clara Matos says:

    Muito bonito, Carla.

Trackbacks


  1. […] meu filho, com o seu gosto particular por baptizar animais com nomes longos, quis logo chamar ao gato um nome com apelidos, mas pareceu-me que a este bichito fica bem um nome […]

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