Sobre Miguel Relvas: Conhecimento vs. Conhecimentos

Miguel Costa, licenciado em 5 anos

Acima da ideologia de cada um está a essência de cada qual.

Passo a explicar. Não é por alguém ou alguma coisa se identificar com qualquer crença nossa que estamos isentos de a podermos escrutinar. Muito pelo contrário. Acresce-nos a responsabilidade de o fazer.

Posto isto, tenho umas palavras a dizer.

Se há uns tempos muita tinta correu sobre uma hipotética licenciatura domingueira tirada por um alegado engenheiro que por sinal nos veio a (des)governar, hoje podemos falar sem menos pejo de outra alegada licenciatura tirada em modo de “Novas Oportunidades” por outro (des)governante nosso.

A diferença é que as “Novas Oportunidades”, tão faladas pelo antigo governante, dariam a qualificação necessária para uma habilitação mínima, necessária para desempenhar (em alguns casos de forma legal) tarefas que essas mesmas pessoas já desempenhavam. Agora esta questão foi refinada. Levada à sublime perfeição de conseguir, com a experiência de vida e repetição da acção, qualificar com uma licenciatura um qualquer português que com o conhecimento empírico também tenha os conhecimentos certos. Daqueles conhecimentos que consigam, habilmente, contornar a lei.

Custa-me. Mas custa-me mesmo.

Costuma-se dizer que à mulher de César não basta sê-lo. E neste caso o que me parece é que além de não o ser também deixou de o parecer. Mais uma vez voltamos ao “chico-espertismo” exactamente quando a todos nós se pediram sacrifícios e honestidade nas nossas acções contributivas. Esta acção ministerial apenas conseguiu retirar legitimidade aos esforços pedidos (se é que eram necessárias mais justificações para essa perda de legitimidade).

O ministro, se calhar como qualquer outra pessoa, procurou a qualificação para desempenhar a função que desempenha. Não me parece que fosse necessário. Saber-se mexer nos bastidores, pressionar aqui e ali, estar informado sobre a intimidade de pessoas que podem influenciar a opinião pública não requer nenhuma licenciatura especial. Apenas requer conhecer as pessoas certas nos locais certos. Tê-las servido e ter-se servido.

Teria sido muito mais honesto reconhecer a incapacidade para o estudo científico e a habilidade para a influência e o puxar de cordelinhos. Se calhar a vaidade falou mais alto. O título de ministro será temporário já o título de doutor ou engenheiro permanece para toda a vida, seja com que legitimidade for. Se calhar por algum complexo de inferioridade o ministro, com medo que descobrissem que não tinha o grau académico suposto para exercer as funções que exerceu/exerce tenha levado sido a licenciar-se à pressa alegando um curriculum vitae capaz de suprir a necessidade de estudar para realizar as cadeiras necessárias para obter a licenciatura. Agora sim, pode ser tratado de igual para igual entre os pares governativos.

Em conclusão, e estas são as boas noticias para todos os portugueses, todo e qualquer um de nós pode e deve requerer a equivalência da sua experiência de vida às disciplinas dos cursos superiores nos quais pretende obter uma licenciatura. Finalmente vamos deixar de ser um país com falta de qualificações passando do dia para a noite para um país de doutores e engenheiros onde qualquer país pode investir de forma segura com retorno assegurado e lucro incalculável. Em última análise saímos da crise.

Já eu, pela parte que me toca, estou a recolher dados da minha vida que me permitam obter o doutoramento numa qualquer universidade privada portuguesa. Sugiro-vos que façam o mesmo.

(Este texto NÃO foi escrito segundo o acordo ortográfico.)

Comments

  1. Brilhante!

  2. Nitus says:

    Venham os outros. Estes dois já estão a nú.

  3. MAGRIÇO says:

    Não pude deixar de reparar num facto curioso: em entrevista concedida a um canal de televisão, ouvi um responsável pela Lusófona, para além de repetir que o processo era perfeitamente legítimo, referir-se a Relvas como tendo “grande capacidade”. Como li algures que o “brilhante” estudante era aluno de 10 valores, penso que muitos vão ter algum pudor em declarar as suas médias académicas com o receio fundado que ninguém acredite que seja melhor que o sr. Ministro.

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