Vigília pela Educação: um copo meio cheio ou meio vazio?

Não sou um entusiasta de ajuntamentos, assumam eles a forma que assumirem. É por isso que não sou militante de partidos ou sócio de clubes e confesso que sou sindicalizado mais por inércia do que por convicção. Não encaro esta minha característica como uma virtude ou como um defeito e, portanto, não é por isso que me julgo superior ou inferior a ninguém, o que não aconteceria se estivéssemos a falar de matraquilhos, área em que me considero um especialista de nível internacional. Foi consciente disso que participei, com muito gosto, na vigília pela Educação, ontem, no Porto.

O estado da Educação no Portugal democrático nunca atingiu um patamar de qualidade minimamente aceitável, mas a degradação acentuou-se nos últimos sete anos, graças à inconsciência do país, em geral, e ao mau funcionamento da classe docente, em especial.

Ao usar uma expressão como “mau funcionamento da classe docente”, quero referir-me ao poder reivindicativo e não ao desempenho profissional, que o primeiro é muito mais fácil de avaliar do que segundo. A Educação é da responsabilidade de todos os cidadãos, mas cabe aos professores iniciarem um caminho que vá para além das questões meramente corporativas e pessoais – ambas importantíssimas – e que sirva para levar a população portuguesa a tomar consciência daquilo que é, na realidade, um bombardeamento das escolas, com prejuízos que atingem todos.

Os professores deviam estar mais conscientes desse papel? Os professores estarão a acordar demasiado tarde, despertados pelo seu horário-zero ou pelo seu provável desemprego? As manifestações têm um aspecto demasiado arménio? As vigílias fazem lembrar demasiado algum folclore bloquista? A Vigília pela Educação devia ter tido mais adesão? Responderia que sim a todas as perguntas, mas nesta resposta não será possível descobrir, também, algum dado positivo? Não será possível, ainda, partir daí para a partilha de mais e melhores ideias? Não deverá estar aqui o (re)início de qualquer coisa, somando mais iniciativas e/ou prescindindo de outras?

Se nos ficarmos pelas críticas entre sindicalistas, bloguistas, efectivos, contratados e outros, Nuno Crato terá razões para manter o sorriso doce, enquanto chefia a empresa de demolições a que, por engano, chamam Ministério da Educação e da Ciência.

Fotografia de Arlindo Fragoso

Comments

  1. Arlindo Fragoso says:

    As questões levantadas neste artigo foram, também, discutidas entre mim e alguns amigos durante a vigília. De facto, a divisão não nos honra…


  2. Chateia-me muito a passividade dos portugueses. Comem tudo. Se não calam por completo, limitam-se ao murmúrio condescendente… É também graças a essa nossa qualidade de “mansos” que estamos onde chegámos… Ainda não descobri onde pára a parcela de sangue quente ibérico que nos deveria correr nas veias…
    Hoje a internet e as redes sociais tornam possível e aparentemente fácil a mobilização. É uma espada de dois gumes. Pior do que não “protestar” é organizar demonstrações de fraqueza…

  3. maria celeste ramos says:

    Quem governa e decide devia ser os melhores e ter conhecimento e cultura – e como os futebolistas não se podem eximir a passear pelo campo xatiados a boicorar jogos e resultados e a cair pelo chão, coitados, parecem os nossos governantes que falam muito e não dizem nada e mesnos fazem – tem o lugar garantido, e como os futebolistas até são “comprados como gado” para ir para melhor clube, como os governantes vão para empregados de Bruxelas – não precisam de saber ler nem escrever nem de falar com presidentes – você tá ??

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