Uma morte estúpida

Beatriz, vamos chamar-lhe assim, açoreana do Faial – essa ilha «personagem» de Vitorino Nemésio em Mau Tempo no Canal – era uma boa mulher, simpática, generosa, disponível. Nos seus 71 anos, ainda tinha ganas de trabalhar de manhã à noite.

Mas o pôr-do-sol era sagradinho: não deixava escapar nenhum (ou quase nenhum). Largava tudo. Contemplava-o sempre da mesma maneira: olhando para o seu Pico que deixou em rapariga quando se casou.

Um dos vizinhos pedia-lhe, não raras vezes, que alimentasse os seus cães quando se ausentava. Ela fazia-o com todo o gosto. Não sabia dizer «não».

Mas um dia, um dia de Julho, foi surpreendida por esses mesmos cães que alimentava com carinho.

Os vizinhos foram encontrá-la já cadáver:  «Não merecia»; «Que morte tão estúpida, meu Deus»; «Aquela mulher não parava»; «Foi sempre a mesma Beatriz que eu conheço desde a juventude…» – comentaram estupefactos e assombrados.

O cão de maior porte, aparentemente perigoso, está agora no canil.

Do dono dos cães, não sei nada. O jornal «esqueceu-se» de referir o seu paradeiro e a sua responsabilidade…

P.S. –Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Não vou falar de cães agora – mas do “canal” – a 1ª vez que fui aos açores já não sei quando foi mas fiquei em casa de colega e amigo – adorei S.Miguel que visitei e as lagoas das 7 cidades com aquele 1º Hotel de sempre que nunca tinha ninguém e foi definando nem sei porquê e sobretudo a Lagoa do Fogo em que me parecia “ouvir o vulcão” que nem estava extinto e essa sensação de sentir e ouvir as forças telúricas debaixo dos pés pelo menos – é indizível de beleza e de provocação de emoções essa lagoa metade vede metade azul e o declive que por todo o lado havia e quese fazia mêdo andar por aquelas estradas sentindo-se com que facilidade se podia sair delas e cair ilha abaixo até à água – mas o meu amigo achou que se era a 1ª vez que estava nos açores seria pena não visitar mais ilhas desse continente da Atlântida perdida – e fui ao Faial e ao famoso café o Peter’s e achei que afinal as ilhas seriam muito conhecidas e ricas em turismo já que no porto estavam atracados dezenas pelo menos, de yates que nunca tinha visto por Lisboa – no hotel onde fiquei fui de repente acordada por um berreiro em língua que não entendia mas poderia ser holandês – parecia que se matavam de tanta ameaça e berreiro e tive mesmo de pedir na recepção que me deixassem dormir – mas nada – depois percebi que eram barcos altamente sofisticados de traficantes de droga mas para não perder o meu tempo metí-me num barco para o Pico que me fascinava visto da cidade do Faial – não não se resiste ao Pico e à sua beleza e chapéus de nevoeiro que vão variando nem se resiste ao pôr-do-sol e lembrei-me então de Vitorino Nemésio e do Mau Tempo no Canal – esse terrível mar apertado emtre ilhas e a “chata” dos turistas subia até à cirta da onde e ficava no vazio e de repente caía no mar – que mêdo me fez – Vitorino Nemésio nos seus “se bem me lembro” não falou em “mêdos” , que me lembre – A visita ao Pico compensou-me de tudo, ilha mítica e fascinante de gente fascinante e herõica que de pedras apenas as arrumou em muretes e em cada um dos rectângulos plantou uma ou duas videiras de “verdelho” que é delicioso, ilha que nem sei se já é UNESCO e se não é deveria ser – visitei 4 das 10 ilhas e só sobrevoá-las é já quase visitá-las a pé mas nada como as olhar lá do alto de avião e perceber como os homens amam a terra e do inferno fazem beleza e fertilidade e vida e riqueza – mesmo com trabalho muito duro que mais parece trabalho de escravo e sem a compensação equivalente – e a gastronomia é única no mundo – e o casario fazía-me pensar no alentejo, e ainda mais limpo, como se os portugueses fossem como o caracol e para onde fossem levassem a casa às costas – a cor e a forma espalhando a cultura de essências pelo mundo – ah e aqulas fumarolas e geisers não precisamos de ir a Yellowstone nem a mais lado nenhum porque as terras portugusas têm todos os climas e paisagen e belezas do mundo que saem das mãos de quem sabe o que é habitar e humanizar as terras onde nascem – pois mas ninguém se interessa também por aqui nem da beleza dos homens nem de quem guarda “os cães dos outros” nem se há ou não trabalho “escravo” mesmo feito com amor para dar alimento a outros homens e dignificar os espaços e dar-lhes sentido – fui depois tantas vezes aos Açores, e à Madeira como juri do PER – e nunca mais o PER tem fim e nunca mais têm todos direito ao pão e habitação – que como os cães que foram tão acarinhados não mordeu na sua dona, mas matou-a mesmo
    Hoje a notícia de apreensão de droga em barco em S.Miguel –


  2. Como sempre, muito humana, Ceú.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.