O direito ao esclavagismo e à ignorância

Lembrou-se o Daniel Oliveira desta banalidade:

Ir de férias não é um luxo. Sair de casa e da cidade onde se vive, estar com a família e recarregar baterias é, na sociedade que julgávamos estar a construir, um direito.

A extrema-direita não gostou. Vamos por partes: se as férias pagas são uma conquista lançada pela Frente Popular em 1936, e portanto um direito conquistado, qualquer não mentecapto com conhecimentos mínimos de gestão empresarial sabe que hoje são mais um dever: os trabalhadores descansando aumentam a sua produtividade, coisa a que recarregar baterias dá muito jeito.

Claro que vivemos em Portugal,  onde até os homens do FMI afirmam isto:

“Acha que Portugal pode ser muito produtivo em várias áreas, nomeadamente na agricultura, mas precisa de empresários a sério. (…) Marcos dizia que o problema não é somente da competitividade dos trabalhadores (tão bons quantos os melhores, mas lá fora…), já Albert completava: tendo em vista os salários, o problema é a capacidade dos empresários em usar as capacidades dos trabalhadores.  “Num país que está na União Europeia desde 1986 e em que o salário à hora de um trabalhador qualificado no sector industrial é de €10, se um empresário não consegue ser competitivo com este preço é porque existem questões que precisam ser abordadas“*

Ou seja, vivemos num país onde a burguesia nem ganhar dinheiro sabe, e vai vivendo das borlas atlânticas de um estado generoso. Uma burguesia de treta, mais preocupada com a fuga aos impostos do que com o funcionamento do seu capitalismo, uma burguesia de patos-bravos chulando o estado dos negócios, uma burguesia herdeira de uma nobreza que soube desbaratar como poucas as melhores oportunidades e anda nisto desde o séc. XVI (hoje com os seus apelidozinhos paternos, edipianamente negando as mães, à falta de um título e dado o ridículo de alguém se armar em conde do raio que o parta).

Gente que ainda acredita que esta crise “começou precisamente por, tanto os privados como o Estado, gastarem o que não tinham“. A Lemon Brothers e a Goldman Sachs nunca existiram, repetir a mentira só lhes fica bem. Podiam era ir explicando a que horas pretendem iniciar o recolher obrigatório, ou então concorrerem a eleições com o vosso verdadeiro programa e sem as mentiras eleitoreiras dos Passos e Portas, onde uma assessoriazinha é sempre bem vinda. Eram capazes de ter mais uns votos que a Carmelinda Pereira.

* reportagem no  Expresso 14/7/2012: “Os Homens do FMI” – depoimentos dos dois representantes do FMI em Portugal

Comments


  1. talvez tirar o cigarro da boca e começar a trabalhar!
    é uma ideia para este periodo de pagamento apertado da divida e da crise que daí resulta…
    a fase seguinte será deixar fumar!
    e, teremos um homem mais ou menos aceitavel.


    • Vou-lhe explicar uma coisa: o que eu faço ou deixo de fazer na minha vida pessoal não é da sua conta. Já da minha conta é apagar comentários como o seu, que não tendo argumentação ataca não a mensagem mas o mensageiro.


    • Aqui está um tipo digno de ser escravizado até que seu organismo deixe de funcionar… É que é mesmo deste tipo de escravos que o SISTEMA MONETÁRIO adora! Estes tipos estão sempre prontos a “mandar os outros trabalhar”, uma coisa que considero deliciosa…
      Enquanto isto os donos destes escravos ignorantes, pois não sabem que o são, rebentam com os abdominais de tanto rir das figurinhas idiotas que eles fazem…

      Nada como ser ignorante… é uma felicidade só!

      E enquanto isto… tudo está bem para os mesmos do costume…


  2. Subscrevo! – Os “liberais” até nisso são fracos. São mais “regateiros” patetas do que coerentes com uma qualquer forma de organização social ou estrutura ideológica… São sobretudo uma “moda” de tontos, uma nova forma de vaidade “patega”… Medíocre… É por isso que no universo “bloguista” raras são as vezes que argumentam com ideias. Sejam estas quais forem… Normalmente gostam de mandar os outros trabalhar, como se fossem eles os donos da virtude… São uns trabalhadores estes rapazes!…

  3. Amadeu says:

    A tinta que esse cigarrito tem feito correr. 🙂
    E o bigodito ?! Também devia marchar …
    Caras limpas e mãos sujas é o que está a dar.

  4. maria celeste ramos says:

    há portugueses que se esquecem de que são portugueses e não são xineses e se calhar por isso é que estão contentes em vender à xina o que foi criado pelos que já andam há muito e não são colunáveis nem “boqueiros” para pagar os desmandos dos que estão no poleiro e foram com a mão ao pote – mas como tudo degrada – como o solo assolado, como nunca, pelo fogo e tanto me faz que sejam incendiários a soldo ou sem soldo – o que xateia é que os mentecaptos se desmultiplicam e se calhar até são universitários das U privadas que eu pago com o meu IRS – a degradação dos que mandam não obriga a que os “governados” lhe sigam a peúgada

  5. Nuno Castelo-Branco says:

    Parece-me que o Sr. Bismarck chegou com direitos e assistências – e até Hitler continuou o processo logo em 1934! – umas décadas antes da gaulesa Frente Popular de 36. No entanto, o que importará sublinhar serão os resultados, desde logo colocando limites a abusos seculares que se alguns pudessem, restaurariam de uma penada. Quanto ao Estado, não sei se é “pessoa” de bem, pois aquilo que tem mostrado indicia precisamente o oposto, especialmente por dentro dele próprio engendrar esses empresários que depois se transformam em clientes-fornecedores. Aí parece estar uma parte do problema. Claro que governar é difícil, especialmente se existir uma sociedade minimamente aberta e com liberdade de expressão. Seria muito mais fácil recorrer à mordaça sem greves dos tempos da URSS ou dos “esquemas dinâmicos” de Pinochet, mas o século já não parece contemporizar com essas coisas.
    Era só o que mais faltava acabarem com o direito às férias! Devem continuar a existir como um direito, mesmo que para muitos, isso contemple o recurso ao crédito que propicia 15 dias em qualquer lado, compensados por cinco anos de escravidão no pagamento do empréstimo bancário a juros indecentes. Mas isso já pertence à esfera e livre arbítrio de cada um, não é? Não saio do país há 11 anos, porque me recuso a gastar aquilo que não tenho. Simples e tranquilizante.


    • Deixa lá o Bismark: falo do direito a férias pagas: ” les congés payés sont une innovation sociale majeure dont certaines prémices étaient apparues dans des conventions collectives en Allemagne dès le début du xxe siècle.” Acordos colectivos de trabalho são conquistas sindicais, não são benesses imperiais.
      Se as pessoas se endividam para passar férias fora, problema delas, desde que recebam de salário o suficiente para não terem de o fazer.

      • Nuno Castelo-Branco says:

        😉 Pelos vistos, as tais benesses imperiais tiveram o topete de chegar uns sessenta anos antes daquilo que os franceses obtiveram. Não percebo qual será o crime do Estado estabelecer legislação e prever ou consagrar direitos. Tem mesmo de sair tudo por força da pancadaria ou discursos mais ou menos inflamados de ameaças? Quando chega o momento, deverão surgir concessões por direito e nada de criminoso existe nisso. Ainda quanto à França, olha, alguns dos mais conhecidos nomes da Frente Popular, acabaram por aderir a Vichy: Laval, Marcel Deat, Jacques Doriot, etc.


        • Nuno: contratação colectiva obtém regalias não estabelece direitos. E agora descobre-me um direito, unzinho que seja dos fundamentais ou dos acessórios, conquistado pela humanidade sem pancadaria.
          E não aldrabes a História: esses 3 pulhas nada tiveram que ver com o FP, foram oposição,tive o trabalho de confirmar.
          Antes de mandares uma dessas pérolas mentirosas da direita, faz-me um favor, passa pela wikipédia, ficas tu com o trabalho mas sem o ónus da mentira.

          • Nuno Castelo-Branco says:

            “Pérolas mentirosas da direita”? A simples leitura de uma wikipedia cheia de falhas, transcreve-nos exactamente o percurso das referidas personagens, entre muitas outras. Aliás, o reescrever da história é uma característica muito própria de um certo sector político. Em paris, em plena ocupação anterior a 22 de Junho de 1941, o PC apelava abertamente à confraternização “operária” com os nazis, fazendo justiça ao período de sabotagens ocorridas na drôle de guerre. Claro que isso teve repercussões em Portugal, onde o jornal Avante! de imediato desencadeou uma virulenta campanha anti Aliados França-Reino Unido, na linha do Pacto germano-soviético (nunca existiu, pois não?) de 23 de Agosto de 1939. A própria génese política dos principais partidos fascistas europeus – o italiano e o alemão -, estão carregadas de Internacional e até a própria organização e base eleitoral dos mesmos diz tudo o que é necessário sabermos. Conheces a famosa fotografia do bairro de Kreuzberg, quando em 1932 das janelas pendiam alternadamente as bandeiras vermelhas da foice e do martelo e a da suástica? Claro que os eleitores do Zentrum Partei e do SPD não votavam nazi ou KPD, pois não? Nunca, nunca o fizeram. E a Kraft durch Freude do NSDAP, com toda a sua praxis e retórica anti-burguesa – como se ser-se burguês e crente na representatividade obtida pelo voto fosse um crime?! -, uma organização de fazer inveja a toda a parafernália estalinista que se ficava pela conversa fiada, trabalho forçado, requisições em massa, etc? A URSS da época teve algum Wilhelm Gustloff que fizesse cruzeiros? Nunca, nem disso teve necessidade, pois o sacrifício em prol de algo de etéreo como o “futuro mundo comunista” chegava para tudo justificar. Questiona-te um pouco acerca da razão da pétrea fidelidade dos operários alemães a Hitler, em claro contraponto com o afastamento aristocrático – eles, sempre eles que até se atreveram ao 20 de Julho de 44 – e “burguês” que era até apontado pelo próprio Führer e por Goebbels. O que há a dizer quanto a isto? A reciclagem de tantos nazis naquilo que seria a RDA e o que se verificou após a morte da URSS em todo o leste europeu – o nazismo até na própria Rússia -, diz muito. Claro que o nazismo é um típico “fenómeno de esquerda”, gostem ou não gostem os neófitos desta verdade. A democracia burguesa não gosta de radicalismos, de massas ululantes e contínuas viragens de rumo na própria história. Claro que sabes disto tão bem quanto eu.
            Quanto aos direitos conquistados sem pancadaria, depende daquilo que consideres ser pancadaria. Se te referes a revoluções no sentido dado pelos bardos dos “amanhãs”, então teremos de considerar um certo e seguro concorrente: a evolução das sociedades normalizadas pelo diálogo e evolução que não conhece fins anunciados: por exemplo, o liberalismo deu-nos o fim da pena de morte, sem que em Portugal houvesse necessidade de disparar um tiro, pois a guerra civil havia terminado há trinta anos! E o que dizer acerca do Estado Social conquistado sem qualquer “revolução” em toda a Escandinávia, estendendo-se o próprio conceito à Alemanha, onde aquilo que quase toda a Europa acabou por obter nos anos 60 e 70 do século XX, já estava legislado pelo Reichstag dos Guilhermes? Que “revolução” – no conceito, talvez o único que consideres válido e que envolverá aquilo que se passou na Rússia de 1917? – existiu na Grã-Bretanha? Ou na Holanda, Luxemburgo e Bélgica? Onde esteve em 1975 a tal pancadaria que levou a Espanha ao estado e Estado que conhecemos?
            No que respeita à “contratação colectiva que estabelece regalias”, essas mesmo tornam-se… direitos!


          • Nuno Castelo Branco, és mesmo tu? é que se fores mesmo tu, com toda a consideração que tenho pelo teu pai e pelos avoengos da tua mãe, vou-me ver forçado a perder mais meia hora da minha existência com esta tolice?
            Quando entras nessa do “de um certo sector político”, a cobardia de não nomear é tudo.
            Um certo? certos são os factos, Nuno.
            Com factos podemos construir as interpretações da História que nos apeteça. Sabes isso tão bem, que mesmo chegado aqui com a ignomínia de andares a fazer epitáfios a um ministro do caseiro de santa comba, ainda tens a lata de insistires.
            Sinceramente, tens talento, habilitações, conhecimento adquirido, para não desceres ao nível dos putos insurgentes.

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