O não lucro da RTP em 2010 e o valor errado da indemnização compensatória

Foi plantada na comunicação social uma notícia a dizer que a RTP deu lucro em 2010. Acontece que o relatado por essa notícia é falso.

Segundo o JN, «a estação pública registou um resultado líquido de 15,1 milhões de euros em 2010». E ainda segundo o JN, em 2010:

  • os resultados operacionais foram de 22,6 milhões de euros,
  • os gastos operacionais foram de  289,6 milhões de euros,
  •  as receitas de publicidade do grupo foram 49,9 milhões,
  • e a indemnização compensatória que a RTP recebeu foi de 121,1 milhões de euros.

O primeiro erro na tese do lucro da RTP está no facto desta ter recebido uma indemnização compensatória pelo serviço público que prestou. Não se sabe ao certo o que é esse serviço público (se alguém quiser elucidar-me, use por favor a caixa de comentários) mas o valor dado à RTP correspondeu a 29%  do total das indemnizações compensatórias atribuídas às empresas que prestam serviço público. Para comparação, o sector público dos transportes rodoviários, ferroviários e marítimos e fluviais receberam, respectivamente, 14,89%, 23,88% e  2,37% do total dessas indemnizações compensatórias. A acreditar que maior valor dessas indemnizações corresponde a mais serviço público, então a RTP prestou mais serviço público do que a CP. Mas é caso para perguntar onde é que ele está.

O segundo erro está em não se listar o valor recebido à conta da taxa da RTP. É uma receita, não é?

Por fim, o terceiro erro está em o valor da indemnização compensatória estar ele mesmo errado. O valor correcto é de 145 866 455 euros, como se pode constatar no Diário da República. Ou seja, a RTP recebeu mais 24.7 milhões de euros do que os 121.1 milhões que foram badalados para a comunicação social. Coincidência ou não, estes 24.7 milhões são mais do que o lucro declarado. Ó senhores da RTP, importam-se de refazer as contas, sff?

A seguir: cópia do Diário da República aqui citado

Pode ver os números apresentados neste DR tratados aqui: 33% das indemnizações compensatórias 2010 vão para RTP e LUSA

Comments


  1. Excelente!

    Também me tenho interrogado sobre o que será esse tal serviço público. Ocorre-me o seguinte:

    Cobertura de desportos sem ser futebol;
    Programas sobre arte e cultura;
    Programas educativos;
    Informação (se bem que a RTP seja tão má como o resto);
    Tempos de antena dos partidos políticos;
    Canais internacionais.

    É evidente que o serviço prestado pela RTP é muito pobre, parece que a RTP1 não presta serviço público, de todo. Não creio que haja justificação para o dinheiro gasto com esta empresa.

    Por outro lado não acredito que concessionar a empresa vá resolver alguma coisa, antes pelo contrário, se as outras concessões do estado são exemplos, vamos acabar por gastar ainda mais dinheiro…

    • jorge fliscorno says:

      «Por outro lado não acredito que concessionar a empresa vá resolver alguma coisa, antes pelo contrário, se as outras concessões do estado são exemplos, vamos acabar por gastar ainda mais dinheiro…»

      É o que eu acho também. Pagar de uma forma e pagar da outra também. A forma como o negócio se está a pintar leva a crer que se está a preparar uma fonte de receitas sem risco.

      Uma discussão semelhante teve lugar quando foi da privatização da comunicação social escrita. Alguém se lembra da privatização do DN? Foi só em 1991… Ia ser o fim do mundo. Hoje alguém colocaria a ideia do estado ter um jornal próprio (para além do Diário da República)?

      Igualmente, porque razão há-de o estado ter canais de televisão e de rádio? Para ter voz? Para promover conteúdos nacionais? Pois isso pode, por lei, obrigar os canais privados a fazer e com a vantagem de ficar preto no branco quais são as obrigações de serviço público.

      O que é que incomoda os que se opõem à privatização da RTP? Eu cá que não sou de intrigas, suspeito que o problema é tratar-se de uma privatização. É mesmo a questão ideológica. Preferem que fique a dar dar prejuízo no estado e e emitir tele-lixo do que se proceda à venda.

      • armindo silveira says:

        Quem defende que mais vale vender a RTP do que continuar a dar prejuízo, possivelmente, já deverão estar formatados pelos conteúdos generalistas e abdicaram de usar o seu sentido critico, defendendo a banalização ao invés da difusão da cultura e do enriquecimento intelectual dos povos.
        Eu não defendo o prejuízo mas entendo que se deve encontrar um ponto de equilibrio onde o investimento se torna compativel com os proveitos que daí poderáo advir.
        Por isso, deixamo-nos de tretas e de uma vez por todas que se asculte todos as tendências sem uma se impôr às outras e que a assembleia da republica defina o que é serviço público e se reestruture a RTP em função desses critérios. Defendo que deve ser o estado a assegurar esse serviço porque enetendo que os privados, tendo o lucro como objectivo principal, não se coadunam com esse exercicio. Também é premente deixar de haver nomeações e a competência deverá ser o principal critério a adoptar. A RTP tem uma estrutura montada pelo que só precisa que sejam renegociados os contratos com profissionais e pretadores de serviçõsque são pagos a peso de ouro, sem que isso aumente a qualidade da estação. A RTP não tem que concorrer com os canais generalistas, pelo que não tem que produzir concursos, galas, shows e outros conteúdos de entretenimento, especialmente quando gastam quantias exorbitantes só para satisfazer e remunerar uma minoria bem identificada. Se se chegar à conclusão de que um canal é suficiente, não vejo problema algum em atribuir outra licença a privados, isto tendo em conta que o canal parlamento vai funcionar como 5º canal.
        De momento, é esta a minha opinião.


        • Ninguém disse que um serviço público de qualidade não é necessário. Eu penso que é extremamente necessário. Já agora, julgo que esse serviço seria feito da forma mais eficiente por uma empresa 100% pública, onde não houvessem nomeações políticas e onde o mérito fosse reconhecido (nada disto é a RTP).

          Por outro lado, a RTP com a sua estrutura pesadíssima, (ver por exemplo este outro post no Aventar), com o fraco serviço que actualmente presta, não é sustentável. Na minha opinião, a forma mais fácil de dar a volta a este assunto é o desmembramento da empresa e respectiva venda, retendo apenas o suficiente para criar uma RTP v2.0 sem nenhum dos vícios da primeira versão e com objectivos mais modestos.

        • jorge fliscorno says:

          E eu concordo consigo, Armindo, Num país ideal não haveria nomeações e a competência é o factor de escolha. A televisão pública não teria que produzir concursos de encher chouriços nem teriam salários milionários.

          O problema é que o país que temos não é esse. E neste país, a RTP que não difere grande coisa dos outros canais é um sorvedouro de dinheiro,


  2. Acho que o que chocou mais foram os contornos da solução apresentados pelo génio da finança António Borges e a falácia de alguns dos argumentos apresentados para a justificar, não tanto o facto de se privatizar ou não. A RTP2 tem uma vocação de estação televisiva para minorias que se enquadra no serviço público e é estranha a uma lógica comercial. Essa vocação reflecte-se nos programas que transmite em canal aberto e com o que isso significa de acesso universal, como as sessões de cinema (Cinco Noites, Cinco Filmes), os programas culturais e documentários (National Geographic, Câmara Clara, documentários sobre pintura, arquitectura e outras formas de expressão artística), o desporto para além do futebol e outros. Eu gostaria que esta vocação fosse alimentada e aprofundada, mas o que o génio António Borges se propôs fazer foi pura e simplesmente extinguí-la. sob o argumento que é muito cara e com uma audiência mínima (com que certezas?). Para além do escandalo de se entregar a concessão a um privado com um dote de 150 milhões de euros. Não haja ilusões: ninguém estará em condições de impor uma programação específica a um opreador privado, nem de definir ao detalhe o que é serviço público.
    Por último, não deixa de ser sintomático que é precismaente no momento que a RTP caminha para o equilíbrio financeiro e está em vias de dispensar as indeminizações compensatórias que se propõem entregá-la a privados. Parece então que essa, sim, é apenas uma opção ideológica, sem qualquer outra razão de fundo.

    • jorge fliscorno says:

      Choca-me que se prepare uma solução que, mais do que dar lucro a privados, vai transferir a despesa na mesma para o contribuinte.

      A RTP caminha para o equilíbrio financeiro? E o passivo? Um ano de contas equilibradas, como se fala que venha a acontecer em 2013 (é melhor esperar para ver) não é propriamente equilíbrio.


      • O passivo tem vindo a ser reduzido desde 2003 e há 1 ano estava em 750 milhões de euros (números do Expresso). Não sei como está agora, mas para uma empresa que tem receitas anuais entre 180 e 200 milhões de euros, não se pode dizer não seja sustentável. Tomara eu com o meu crédito à habitação ter um passivo nessa percentagem do rendimento anual…
        E tenho a certeza que nenhum privado pegará na empresa se não estiver equilibrada no aspecto financeiro. Só se só privatizarem os activos e deixarem o passivo para o que restar nas mãos do Estado, que foi mais ou menos o que fizeram com o BPN. O que torna tudo ainda mais escandaloso.


        • A situação líquida é negativa…


          • Não é o que tem sido anunciado para 2013. Ontem caiu uma notícia sobre o não pagamento da indemnização compensatória este ano por parte do governo, o que a faria transitar para o próximo ano. Se o Estado não cumpre (tal como não cumpriu durante muito tempo até 2003) as obrigações a que se comprometeu para equilibrar a empresa, então, sim, voltará o descalabro.


          • E como é que se sai de uma situação liquida negativa? – em 2010 eram uns 550 milhões (PDF – ver pg 102)…


          • Provavelmente abatendo a dívida bancária ao longo dos anos que, pelo que ouvi algures, é o destino que se tem dado às receitas publicitárias. Mas, como deve saber, existe um plano de recuperação financeira que está a ser levado a cabo e que, de acordo com o que se lê e ouve na comunicação social, tem estado a dar frutos.

  3. Isabel Costa says:

    Não sabem o que é serviço público? Eu explico:
    Serviço público é transmissão de touradas em horário nobre (um espetáculo sanguinário e medieval); é a transmissão diária de um concurso com perguntas para deficientes mentais (sem ofensa); é a transmissão de um programa diário carregado de música pimba diretamente de Cú de Judas e ainda a passagem de séries de fição portuguesas de qualidade inenarrável. 🙂 Jinhos


  4. Isto ainda é pior do que parece, do Relatório e Contas de 2010 (PDF):

    Duzentos e trinta milhões de dinheiros do contribuinte…

    • jorge fliscorno says:

      Ou fazendo fé no que está no DR, são 230.6+24.7= 255.3 milhões.

      Ou o é o DR que está errado ou é o relatório de contas da RTP.


  5. O mais caro de tudo ainda é Portugal. Encerrem-se então as portas e passemos a protetorado, talvez da Sr. Merkel.

  6. Isabel Costa says:

    RTP, TAP, Fundações, PPPs, despesismo na Madeira e nas forças armadas etc tem acabar ou vamos parar á bancarrota e aí nem o maldito FMI nos salva.


  7. Se taxassem o que está em offshores, cobrassem a quem de direito o buraco do BPN e deixassem de dar lugares e negócios aos amigos à sombra do orçamento havia dinheiro para 100 RTP’s. e ainda sobrava.

    • JPires says:

      Mas não há…


      • Mas o Sr. António Borges sabe disso. Porque foi também executivo da Goldman Sachs, uma das maiores incentivadores do desvio de capitais para offshores em todo o mundo. E é essa hipocrisia que é intolerável. Quem tem poder que faça uso dele como se impõe.

Trackbacks


  1. […] da Indemnização compensatória  diferente daquele que foi publicado no Diário da República (24.7 milhões a menos do que o apresentado no DR) Filed Under: economia Tagged With: Contribuição Audiovisual, […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.