Postcards from Romania (23)

Elisabete Figueiredo

Entre Sighisoara e Cluj-Napoca

Digo que o dia não começa bem. Tomo um pequeno-almoço sem jeito e, não sei porquê, aliás sei, mas para o caso não interessa, há qualquer coisa, que me diz que este dia será esquisito.
Ao pequeno-almoço reencontro os romenos da noite anterior, os mesmos que me convidaram para um copo de vinho branco que não aceitei, mas com quem acabei por conversar durante um bocado, antes do jantar. São 9h30 da manhã e estão já a beber cerveja. Aliás, verifico que isso acontece em quase toda a parte, aqui. São simpáticos, especialmente um deles, que fala melhor inglês e tem opiniões sobre tudo. De qualquer maneira tenho de ir apanhar o comboio.

Este comboio é um inter-regional, bastante aceitável, se comparado com o regional que tomei entre Brasov e Sighisoara. Viajo agora entre esta última vila e Cluj-Napoca, a terceira maior cidade da Roménia. Avanço para norte, um pouco na diagonal, quase até à fronteira com a Hungria. E à medida que o comboio avança ‘entre a floresta’ (tradução literal de Transilvânia), apercebo-me que a paisagem se torna diversa. As aldeias não são tão arcaicas, não há tantas carroças de ciganos, as vacas substituem, nos campos, as ovelhas, e tudo tem um ar, como direi, mais asseado. [Read more…]

O não lucro da RTP em 2010 e o valor errado da indemnização compensatória

Foi plantada na comunicação social uma notícia a dizer que a RTP deu lucro em 2010. Acontece que o relatado por essa notícia é falso.

Segundo o JN, «a estação pública registou um resultado líquido de 15,1 milhões de euros em 2010». E ainda segundo o JN, em 2010:

  • os resultados operacionais foram de 22,6 milhões de euros,
  • os gastos operacionais foram de  289,6 milhões de euros,
  •  as receitas de publicidade do grupo foram 49,9 milhões,
  • e a indemnização compensatória que a RTP recebeu foi de 121,1 milhões de euros.

O primeiro erro na tese do lucro da RTP está no facto desta ter recebido uma indemnização compensatória pelo serviço público que prestou. Não se sabe ao certo o que é esse serviço público (se alguém quiser elucidar-me, use por favor a caixa de comentários) mas o valor dado à RTP correspondeu a 29%  do total das indemnizações compensatórias atribuídas às empresas que prestam serviço público. Para comparação, o sector público dos transportes rodoviários, ferroviários e marítimos e fluviais receberam, respectivamente, 14,89%, 23,88% e  2,37% do total dessas indemnizações compensatórias. A acreditar que maior valor dessas indemnizações corresponde a mais serviço público, então a RTP prestou mais serviço público do que a CP. Mas é caso para perguntar onde é que ele está.

O segundo erro está em não se listar o valor recebido à conta da taxa da RTP. É uma receita, não é?

Por fim, o terceiro erro está em o valor da indemnização compensatória estar ele mesmo errado. O valor correcto é de 145 866 455 euros, como se pode constatar no Diário da República. Ou seja, a RTP recebeu mais 24.7 milhões de euros do que os 121.1 milhões que foram badalados para a comunicação social. Coincidência ou não, estes 24.7 milhões são mais do que o lucro declarado. Ó senhores da RTP, importam-se de refazer as contas, sff?

A seguir: cópia do Diário da República aqui citado

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Descoligação

CDS e PSD descolaram via RTP. A dúvida é saber se o velho e sabido rato Portas não está a aproveitar para abandonar o navio.

Porque amamos o nosso país

a mais bonita praia portuguesa... que eu conheçoTodas as críticas que diariamente fazemos ao que vimos, lemos, ouvimos e vivemos em consequência das erradas decisões políticas dos nossos governantes, só se explicam porque nos importamos com o nosso país.

Queremos vê-lo bem tratado, respeitado, governado por gente portuguesa de coração e não só por ter nascido em território português…

Queremos políticos que não procurem boicotar o que de melhor se faz e se tem em Portugal (às vezes parece que assim é)…

Chega de mudar, quando mudar é para pior.

Este país seria um paraíso, a “ideia acabada de uma lua-de-mel” como se lê no Guia Turístico da Europa editado pelo Touring Service da BP de 1960, se os nossos sucessivos governos não nos deixassem deprimidos como já são conhecidos os portugueses…

Esse tal Guia continua a dizer verdade sobre este “país ensolarado, com uma vegetação luxuriante, um clima único, e um charme tão poderoso que até os postais ficam aquém da verdade. (…) estradas excelentes, palácios magníficos, pessoas sempre prontas a desfrutar da vida, refeições que fazem salivar por antecipação, praias lendárias”.

Não destruam este país que amamos.

(Foto: David Gamanho, que considera aquela praia da Berlenga a mais bonita que conhece. Eu também acho…)

Postcards from Romania (22)

Elisabete Figueiredo

Todo aquele que não souber falar latim, será afastado à paulada

A igreja na colina (de cujo interior não se podem tirar fotografias) tem vários frescos. Um deles, do século XV, retrata a santíssima trindade. Uma só figura, com três cabeças. A da esquerda é o espírito santo e este santo espírito é – pasme-se – uma mulher! Whatever that means, ganhei o dia.

No coro há outra inscrição e o papelinho que me deram à entrada explica-me que está escrito: «todo aquele que se quiser sentar aqui, mas que não souber falar latim deverá afastar-se ou, mesmo, ser afastado à paulada». Pelo sim, pelo não, afasto-me.

Cá fora, um cemitério enorme, onde não entro. Além, uma casinha na colina com um pátio delicioso, acho eu. Não sei o que acharão os senhores da UNESCO. Percebo a importância dos rótulos, mas ao mesmo tempo parece-me que não seriam precisos. Que são, até, perversos.

Falemos, outra vez, de folclore, se quiserem. [Read more…]

Acesso ao Ensino Superior e Ensino Recorrente

Maria Eduarda Neves

O ingresso ao Ensino Superior deve ser conquistado por mérito. Não podemos permitir que haja duas formas de avaliação no concurso para as MESMAS vagas. Mais um ano veremos alunos que, já tendo concluído o secundário, aproveitam-se do Ensino Recorrente – criado para aqueles que não conseguiram terminar o Ensino Secundário Regular – para aumentar exponencialmente as suas classificações internas, que não são afectadas pelos Exames Nacionais.

Esta situação afecta todo o Ensino Superior português porque os alunos não colocados em suas primeiras opções, como Medicina, vão para outros cursos, aumentando as suas médias mínimas de ingresso, passando por Medicina Dentária, Ciências Farmacêuticas, Fisioterapia, Enfermagem e assim sucessivamente. Reacção que também acontece em todas as áreas do Ensino Superior, tendo em consideração cursos como Engenharia Aeroespacial e Arquitectura.

É uma recção em cadeia.

O Ministério da Educação tentou impedir que isso acontecesse, mas cerca de 300 estudantes ganharam um processo no Tribunal e, assim, foram autorizados a utilizar médias internas próximas ou iguais a 200 nas suas candidaturas. [Read more…]

Pussy Riot, arte, punk e futurismo

Ou o neo-futurismo russo explicado aos portugueses.

Postcards from Romania (21)

Elisabete Figueiredo

A igreja na colina é o lugar mais bonito do mundo

Subo, com dificuldades, os 176 degraus das escadas cobertas. São de madeira e pedra, escuras e irregulares. Mas chego ao cimo do monte. Ainda tenho folego. E subo mais ainda até à Biserica din Deal que é como quem diz, em romeno, a ‘igreja na colina’.

«Esta obra foi concluída, com a ajuda de Deus, no ano de 1488 quando, no dia de S. Gerardo (23 de setembro) um forte nevão destruiu as árvores de fruto», leio no papel que me dão com a tradução da inscrição em latim por cima da porta principal. No dia em que um forte nevão destruiu as árvores de fruto? Que descrição tão rara.

Onde estaria Deus? A ajudar nas obras, provavelmente, penso. E sorrio sozinha, diante da ideia de um deus servente de pedreiro que, no afã de concluir a obra dos homens, deixa que um forte nevão destrua as árvores de fruto.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Não são os ricos que criam empregos, são os consumidores

Quem o diz é o perigoso comunista capitalista Nick Hanauer. Deixando de lado a polémica sobre os critérios TED para publicação e/ou censura, fica o vídeo agora devidamente legendado. O texto já tinha sido em grande parte traduzido pelo Público.

Mães africanas

É uma delícia…
Os filhos bem juntinho à mãe que trabalha. Muitas vezes eles dormem ao «som» do trabalho que ela faz e do ambiente que a ambos cerca, no sobe e desce do corpo de sua mãe.
Isto não é pensável no nosso continente. Mas se eu pudesse tê-los, senão às costas deste jeito enquanto são pequeninos, pelos menos debaixo do mesmo tecto para puder dar uma espreitadela e um beijo ao longo do dia!
 

Postcards from Romania (20)

Elisabete Figueiredo

Há uma velha a vender flores nas escadas cobertas

Subo uma rua empedrada. Irregular. Há passeios direitos mas em cima deles estão, que surpresa, os automóveis. Chego à escada coberta. 176 degraus até ao Monte da Escola. Avanço. Ao avançar, reparo nela. Um pequeníssimo ramo de flores numa das mãos. Milhares de rugas na cara, como estradas num mapa para que ninguém olha. Com a outra mão mostra um dedo: 1 leu pelas flores.

Estou para lhe comprar o ramo, mas depois, que farei dele? Fico ali, à entrada das escadas a olhar para ela. E penso, outra vez, que o património da humanidade é isto, não as pedras. Estas ruas que atravessam a cara dela, para lugar nenhum. Ou para o mundo inteiro.

Não há, em nenhuma torre do mundo, uma placa que diga a que distância estou eu desta mulher.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

O ensino profissional é um logro

Santana Castilho *

É recorrente considerar que a falta de preparação profissional responde por boa parte da falta de competitividade da economia portuguesa, embora seja astronómica a dimensão do dinheiro consumido por programas de formação, em 38 anos de democracia. Compreende-se o paradoxo quando se analisam os critérios (ou a sua ausência) que têm presidido às respectivas decisões políticas. Nuno Crato acaba de persistir na via da leviandade. Não é ele que conhece as necessidades de formação dos activos das empresas. São os próprios e as suas empresas. Não é ele que deve decidir sobre o futuro dos jovens. São os próprios e os seus pais. Mas proclamando irrelevâncias e desconhecendo realidades, acaba de desviar 600 milhões de euros, reservados à formação de activos, para financiar o sistema formal de ensino e serenar os reitores (para as universidades e uma tal “formação avançada” irão 200 milhões). A isso e a um esboço de resposta atabalhoada ao prolongamento da escolaridade obrigatória se resume o que acabou de fazer, em nome do mal tratado ensino profissional. [Read more…]

Construção em crise

Capa do DiaJá tínhamos reparado: a construção está parada em Portugal. 

“Crise levou quase 900 construtoras à falência”, faz capa do Público de hoje..

Não há dinheiro para comprar casa nova “e o Estado não tem dinheiro para fazer obra. O sector da construção aprofunda a crise e em sete meses acumula a perda de 868 empresas”.

E este sector não pode apostar agora na recuperação, restauro e reabilitação de casas habitadas e outras tantas e tão bonitas pela sua antiguidade que se encontram por toda a parte? 

Foram muitos anos a pensar no «novo» e em construir de raíz a uma velocidade exagerada…

É só um reparo de uma leiga…

 

Postcards from Romania (19)

Elisabete Figueiredo

Os olhos do Drácula

Desço da torre sem dificuldades. Haverei de ter algumas um pouco mais tarde. Atravesso a rua que vai dar à praça principal de Sighisoara, passo a casa onde supostamente nasceu e viveu Vlad Dracul, no século XV e dou de caras – estamos no século XXI, portanto – com um homem vestido de Drácula.

Falemos de folclore, então, se vos apetecer.

Tiro uma fotografia ao homem. Há no olhar dele qualquer coisa de profundamente triste, talvez não triste afinal, mas há nestes olhos qualquer coisa difícil de compreender, enquanto encara a máquina que lhe aponto. Chego a envergonhar-me. Hei-de cruzar-me com ele, mais três ou quatro vezes neste dia e reparar sempre na dificuldade daqueles olhos.

Se eu tivesse que me vestir de Drácula, todos os dias, como seria o meu olhar? Ainda bem que, assim como assim, prefiro o Rato Mickey.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

O sabor português vale ouro em Inglaterra

Parabéns ao queijo da Beira Interior que acaba de ganhar medalha de ouro em Inglaterra. Entre cerca de 9000 sabores, o queijo de Castelo Branco conquistou os 300 elementos do júri do Concurso Internacional Great Taste Awards 2012 que os avaliaram em provas cegas.

Vai o queijinho da Beira Baixa acompanhado com um copo de vinho tinto alentejano e um pedacinho de pão de Ul (Oliveira de Azeméis)?

Prémio internacional de teatro para Portugal

O Marcelo Lafontana é, provavelmente, o mais vila-condense dos brasileiros e é, há vários anos, a alma do Teatro de Formas Animadas. O espectáculo Prometeu recebeu o prémio de melhor espectáculo para a infância da XV Feira de Teatro de Castilla y León. Não sei se Portugal o merece, mas o Marcelo, graças ao que faz pelo teatro em Portugal e devido à qualidade com que o faz, merece, também, este prémio, tal como todos aqueles que são seus cúmplices nestas andanças.

Por falar em cúmplices, a fotografia que ilustra este texto é do Pedro Martins. A seguir ao corte, têm direito, ainda, à notícia sobre o prémio, à ficha técnica do espectáculo e a um vídeo. Aqui é de graça; quando puderem, não percam o privilégio de pagar bilhete.

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Postcards from Romania (18)

Elisabete Figueiredo

Do cimo das torres vê-se o mundo inteiro.

Não podia ser mais verdade isto. Placas no varandim informam-nos das distâncias a Londres, Paris, Baden-Baden, Sydney, Nova Iorque… a Lisboa não. Do cimo das torres vê-se (quase) o mundo inteiro.

Uma das placas informa-me que me encontro a 3975 km do Pólo Norte. Coisa pouca, se pensarmos que o Pólo Sul dista 14025 km daqui.

Tenho amigos mais longe de mim do que daqui ao Pólo Norte. No entanto, não conheço ninguém em nenhum destes sítios e decido que o melhor é ficar por ali. Ver o mundo inteiro, esta pequena vila, a partir da torre.

Reparo num homem e num miúdo. Terá 5 ou 6 anos. Pergunto ao senhor se me tira uma fotografia. Diz-me que até duas. E ri-se. O puto olha para mim e diz muito alto: ‘germania, germania?’ Respondo-lhe que não. Volta a repetir, tão alto como a torre, numa expetativa que me custa não cumprir: ‘germania, germania?’. Digo: Portugal. Encolhe os ombros. Vira-me as costas. [Read more…]

Portugal no tempo das Descobertas: India e Brasil

Súmula útil destes dois pontos do programa do 8.º ano de História.

Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI.

Unidade 5.1. – A Abertura ao Mundo

Fotografias imaginadas: Frida e Maiakovsky

Frida Kahlo e Mayakovsky juntos depois de falecidos. Veja os originais: [Read more…]

Este mundo não é para velhos

É para animais que confundem pessoas com células de excel.

Postcards from Romania (17)

Elisabete Figueiredo

Em Sighisoara, vila medieval, património da humanidade

Andava aos dias a pensar que ainda não tinha subido a uma torre. Em mim, é estranho. Uma vez na Estónia, em Tallinn, num dia, hei-de ter subido a umas cinco torres. Tenho a mania das alturas, apesar, como já disse, das vertigens.

Eis a torre do relógio. Uma torre para subir. E eu subo. 120 degraus, nada de mais. Sobretudo se comparado com os quase 400 degraus que uma vez subi em Praga. Quando cheguei lá acima, andava tudo à roda e eu sem folego. Aqui não. Os degraus sobem-se bem e, apesar dos cigarros, digamos, que poderia estar em piores condições.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Já saíram as listas de colocação de Professores, vamos para a rua

São conhecidas as listas de colocação dos docentes que concorreram aos Açores.

Mas esta será a mensagem sobre o concurso para o Continente que todos vão querer ouvir e ler nos próximos dias.

A data prevista é a próxima sexta-feira, 31 de agosto e são muitos os milhares de professores que não fazem, ainda, a mais pequena ideia do que vai ser a sua vida na próxima segunda-feira.

Se para uns a questão é saber em que escola vão trabalhar, que alunos e anos vão ter, para a maioria a questão é bem mais grave – há ou não emprego?

Por mais que se concentrem nas ofertas de escola que estão a decorrer, essa é também uma solução pouco interessante porque as vagas podem (e serão!) ocupadas por colegas dos quadros que ainda estão sem serviço atribuído. O que deveria ter acontecido era um bocadinho mais de dignidade do MEC – publicavam as listas de colocações no dia 31 e no dia 3 abriam as vagas, em oferta de escola, que realmente o são.

É que quase todo o trabalho (imenso!!!) que estão a ter agora será simplesmente para nada.

Até por isso e porque 6ªfeira vai ser um dia bem especial penso que fará sentido que todos os professores se juntem, na rua,  ao fim da tarde. É o momento de mostrar ao país o que nos vai na alma!

Vais?