Postcards from Romania (31)

Pode um palácio secar uma cidade?

Uma cidade, um país e um povo. As ditaduras ditas de esquerda são tão más como as ditas de direita. Os ditadores são dementes, geralmente. Ceausescu não era exceção e talvez tenha sido, de muitas mais formas do que aquelas que a nossa imaginação pode alcançar, a própria regra. Há um filme-documentário, mais ou menos recente em que, apenas usando imagens reais, o realizador nos dá conta do percurso desta pessoa*.

Ao princípio é simples. Uma pessoa ambiciosa, mas aparentemente com boas intenções. Bom, dizer isto de um ditador é no mínimo caricato. Mas assumamos que assim era. Ele e a sua mulher – Elena** – eram pessoas simples. De muitos modos, continuaram a sê-lo, mesmo na sua imensa perturbação, anos depois, mesmo na sua demência que, tal como o Palácio da República que idealizaram e mandaram construir, parece ter secado um país inteiro, descaracterizando-o através de um processo (quantas vezes deverei usar a palavra demência, ainda que com grandes reservas?) de ‘sistematização’.

Homogeneizar e uniformizar o território de modo a que não houvesse nem campos nem cidades e ainda menos (isso é coisa de burguês, naturalmente) casas individuais, moradias. Em Bucareste este processo de ‘sistematização’ iniciou-se em 1984, com a destruição de bairros inteiros, de monumentos, de igrejas… e com a construção de um colossal mamarracho e de blocos de apartamentos tenebrosos. No primeiro habitariam Nicolae e Elena, além de albergar ministérios e outras instituições do regime. Nos segundos, habitaria o ‘homem comunista novo’. O que quer que isso signifique, este homem comunista novo nunca chegou a nascer, abortado pelos próprios criadores, ou chegou a existir talvez apenas em delirantes cabeças. Nos campos, o processo iniciou-se apenas em 1987, os estragos foram menores, portanto e os homens continuaram a ser velhos e, maioritariamente, pobres, como sempre foram.

Deve ser dito que hoje visitei o colossal mamarracho, com quatro faces idênticas. Um monumental quadrado, difícil de compreender num regime comunista, pelo fausto e opulência interiores, pelos mármores daqui, as madeiras dali, as carpetes de acolá. O ouro. E a monotonia, tenho de o dizer. A completa monotonia. É um sítio aborrecidíssimo, um bocejo enorme, com intermináveis corredores iguais, escadarias monumentais iguais, pisos iguais onde se repete até à exaustão o mesmo motivo – a planta do palácio – carpetes iguais, tetos iguais, lustres iguais. Simples, portanto, como os seus criadores.

Na visita, que há-de ser guiada e num grupo – não pode ser de outro modo, já que o mamarracho alberga o parlamento romeno e está sujeito a especiais medidas de segurança – ficamos a saber coisas também monótonas. Que o edifício tem 270 metros de comprimento e 240 metros de largo. Que tem 12 andares e mais não sei quantos no subsolo. Que tem 19 metros de altura abaixo do solo e 86 metros acima dele. Que o tapete da sala da União – a sala bem no centro do colosso de Ceausescu – pesa 4 toneladas e um dos lustres mais de 5 toneladas. Que a escadaria de honra tem mais de 16 metros. Que o volume total do edifício está avaliado em 2 550 000 metros cúbicos. Que nesta visita, que incluiu o terraço e uma parte – pequeníssima – das caves, percorremos 3 quilómetros e vimos apenas 3% do edíficio. Que…

Também são dadas informações sobre as atuais funções das salas. Nada ou quase nada é dito de Ceausescu. E eu acho estranho. E faço perguntas, já que a guia disse que as poderíamos fazer. No salão de baile, por exemplo, diante da imensidão da sala, da altura das janelas, enfim, diante da dimensão absurda de tudo aquilo, pergunto, bem sei que é ridículo,  quanto mediam Nicolae e Elena. Os outros riem-se. A guia diz que não sabe. Nunca ninguém perguntou. Diz-me que um e outro deveriam ter a minha altura, provavelmente. E toda a gente volta a rir. Porque, naturalmente, não é difícil imaginar duas pessoas de pouco mais de 1,60 num palácio com tais dimensões, a deambularem por ali, entre as toneladas dos lustres e das carpetes, nos corredores de quilómetros, na sala da União, no terraço… dois anões numa casa de gigantes. E isso, apesar do resto – dois anões que durante mais de 20 anos (e 20 anos depois da instauração da ‘democracia popular’) secaram uma cidade, um país e um povo – é risível.

Ainda pergunto à guia o que pensam os romenos do que o colossal e monótono mamarracho representa. Diz-me que as pessoas se dividem, nas suas opiniões. As gerações mais velhas odeiam-no, as mais novas vêem-no como um símbolo da revolução que em Dezembro de 1989 pôs fim à demência. Só um povo com muita coragem e otimismo, penso eu, seria capaz disto. De olhar todos os dias para o mamarracho e ser capaz de esquecer.

* O filme é  Autobiografia de Nicolae Ceausescu, de Andrei Ujica (2010)

** Elena tinha pretensões a intelectual. Arrecadou 17 doutoramentos e 74 outros títulos universitários. Mas tinha, na verdade, uma escolaridade medíocre. O mesmo não se dirá da sua esperteza, naturalmente. O Miguel Relvas, ao pé dela, será sempre um menino, com a sua licenciaturazinha instântanea da treta.

(Bucareste, 15 de Agosto de 2012)

Comments

  1. Frederico Mendes Paula says:

    Parece a sede da Caixa Geral de Depósitos na Avenida João XXI (ou vice-versa)

    • Maquiavel says:

      Näo, näo parece. Nem ao longe. A sede da CGD é um mamarracho pós-moderno, a Casa da República foi feita em estilo neo-clássico, e ainda é mais bonita por fora que por dentro. Quem a construiu era doido? E quantas obras temos assim no mundo? Imensas, näo é só Neuschwanstein.
      É imponente? É sim. E pelos vistos funcional, que funcionam lá 1) Parlamento , 2) Presidência da República, 3) Governo, e 4) Supremo Tribunal. Por isso aquilo tem 4 lados. E as pessoas näo säo mais altas hoje em dia.

      Conversas da treta (sim, que as säo) acerca da destruiçäo de bairros para o construir? O que vale é que para fazer o lindo Parlamento neo-gótico húngaro nada foi preciso destruir. Ou inúmeras catedrais como a Igreja e Praça de S. Pedro–continua-se a dizer em Roma que o que os bárbaros näo destruíram do Império Romano destruiu Bernini para fazer S. Pedro, mármores e bronzes. Qualquer megalómano fez/faz isso, nada de novo nesse aspecto.
      Há que olhar as coisas com olhos de ver, e näo ser toldado por palas ideológicas, minha cara. Vê tudo o que há para ver o que näo há para ver na Roménia, e resume o palácio a “monotonia”?
      Entäo dirá o mesmo de todos os “mamarrachos” semelhantes, de Seteais a Versalhes passando pelo Hermitage ou Sanssouci. É que esses também têm “intermináveis corredores iguais, escadarias monumentais iguais, pisos iguais onde se repete até à exaustão o mesmo motivo – a planta do palácio – carpetes iguais, tetos [sic] iguais, lustres iguais.” A diferença é que näo ocupam tanto espaço. Bem dizem que a beleza está nos olhos de quem vê.

      Digo que säo conversas da treta porque destruiçäo de belos edifícios acontece em democracia, e isso é que me custa a engolir: em Lisboa (incluindo Prémios Valmor), e no seu lugar fazem mamarrachos mais feios que os “blocos de apartamentos tenebrosos”, e chamam-lhe “pugresso”; edifícios Neoclássicos e Arte Nova de Helsínquia salvaram-se ao bombardeamento soviético mas näo se salvaram à sanha “modernizadora” de Alvar Aalto nos anos 60 que näo teve pejo em arrasá-los para construir coisas “modernas”. E esse indivíduo foi aplaudido no Mundo inteiro. Por acaso foi esse finlandês que inspirou os “blocos de apartamentos tenebrosos” de Leste… que também fizeram no Ocidente, tanto que há muito sítio da ex-RFA em que tenho de ver no mapa se me enganei no comboio e fui parar ao Leste alemäo…

      O Ceausescu secou tudo à volta? Desengane-se, aquilo já era seco (e corrupto) antes dele e continua a sê-lo mesmo depois dele morto há 20 anos. A verdade inconveniente é que ele beneficiou de muito apoio do Ocidente só por se ter semi-afrontado Moscovo, até a rainha de Inglaterra o recebeu, e destacados líderes ocidentais de Direita o gabavam pela sua “democraticidade”. E foram essas ajudas possibilitaram a demoliçäo (“Ceaushima”) e a construçäo. Só passou a Diabo… quando o mataram!

      • Frederico Mendes Paula says:

        Não parece? Então explique lá porque é que a sede da Caixa Geral de Depósitos é um pós-moderno e porque razão é que, sendo, não tem uma inspiração revivalista baseada na arquitectura neo-clássica.

        • elisabete figueiredo says:

          bom…os postais são/foram impressões, não análises objetivas. Acho que se percebe. E impressões são isso mesmo.

          • Frederico Mendes Paula says:

            Claro. E impressões muito sentidas e muito bem transmitidas! O meu comentário inicial também exprimiu uma impressão. Já o segundo questionou um outro comentário que achei demasiado peremptório. Mas em relação aos seus postais, considero-me um fã.

          • Maquiavel says:

            Eu percebo, desculpe se pareci demasiado incisivo!
            Eu se comento é porque gosto dos postais! 😀

        • Maquiavel says:

          Dito dessa forma até concordo. 😀

  2. Elisabete Figueiredo says:

    Maquiavel e eu concordo com muito do que disse. Simplesmente, como já referi, isto são impressões do sítio que visitei. Não análises. 🙂

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