A turma de Nuno Crato tinha mais de trinta alunos

Confesso que tenho um gosto perverso em assistir a programas televisivos que detesto. Sempre que posso, revejo, por exemplo, o Knight Rider, provavelmente uma das piores séries do mundo. Também não consigo tirar os olhos do ecrã, quando vejo um cantor pimba a repetir quarenta vezes um refrão, enquanto pula com uma alegria tão postiça que parece um capachinho de má qualidade. A idiotice de José Castelo Branco deixa-me absolutamente mesmerizado. Durante algum tempo, o cabotinismo de José Sócrates punha-me um sorriso de beatitude nos lábios.

Confesso que, ao fim de algum tempo a última personagem e a pandilha que trazia acoplada me retiraram a vontade de rir e dei por mim, diante do discurso dos políticos, a fazer algo que me era impossível diante dos meus ódios de estimação: comecei a mudar de canal, incapaz de ouvir aleivosias durante mais que um minuto.

Ontem, no pouco tempo em que consegui ouvir a sinistra delicodoçura de Nuno Crato na TVI, pude assistir, mais uma vez, à defesa do aumento do número de alunos por turma, dando o seu próprio exemplo, lembrando que, enquanto estudante, fez parte de uma turma com mais de trinta alunos, facto que não o impediu de estudar e de sobreviver.

Podemos sempre fingir que Nuno Crato não estudou numa época em que o acesso à educação ainda estava limitado a alguns privilegiados e que não frequentou o Liceu Pedro Nunes, por onde passaram filhos das melhores famílias do país, não sendo minha pretensão transformar esta referência na minimização das capacidades individuais de ninguém.

Mesmo fingindo que não sabemos nada disso, não é aceitável que um ministro da Educação tome a decisão de aumentar o número de alunos por turma com base numa experiência pessoal bem-sucedida e no vago argumento de que não está provado que seja pedagogicamente mau. Curiosamente, os estudos que não existem começam a aparecer e é provável que surjam outros igualmente inexistentes.

Comments

  1. nightwishpt says:

    Não sei o que é que algum destes ministros ter tudo uma turma de mais de 30 alunos prova senão o contrário; é que não passam de um bando de bestas idiotas, incultas e mal-educadas.

  2. Miguel says:

    “não é aceitável que um ministro da Educação tome a decisão de aumentar o número de alunos por turma com base numa experiência pessoal bem-sucedida e no vago argumento de que não está provado que seja pedagogicamente mau”…

    É o que eles sabem melhor fazer. Tomar decisões atiradas ao ar, sem qualquer estudo, fundamento ou ideia das repercussões. É assim que o nosso titanic anda… Mas já sabemos o fim…

  3. maria celeste ramos says:

    cratocracia

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