Um país sem língua

O texto de Inês Pedrosa já tem uns dias, mas o Latim tem mais tempo e não perde importância por causa disso.

Tal como os programas de Português estão gizados, é possível à maioria dos alunos percorrer doze anos de escolaridade e ficar sem conhecer marcos fundamentais da cultura ocidental (com tudo o que contém de oriental, é preciso não esquecê-lo). Assim, não é aceitável que os jovens portugueses desconheçam a existência de Cícero, de Marcial ou de Santo Agostinho.

A Escola tem de servir, entre muitas outras coisas, para que os que por lá passam fiquem a saber que a criatividade e a criação humanas constituem um universo descomunal. Neste momento, a humanidade já escreveu milhões de textos, esculpiu incontáveis esculturas, compôs inumeráveis músicas. Não tenhamos a ilusão de que podemos conhecer todas as criações da humanidade, mas é inaceitável que um país possa criar uma Escola que retire aos alunos o direito a conhecer um cânone mínimo das principais obras de todas as artes.

Quanto mais não seja, o facto de ficarmos com a noção de que, antes de nós, viveram Cícero, Fídias, Tales ou Aristóteles constitui uma lição de humildade, obriga-nos a duvidar de que tenhamos tido ideias originais e, numa aparente contradição, desafia-nos a ser originais.

O estudo do Latim, num país europeu em que se fala, no fundo, um latim modificado, deveria estar muito mais vulgarizado e não ficar sujeito aos mercadores da Educação cujo único fito é poupar, nem que isso implique obrigar os cidadãos a serem ignorantes. Sem o Latim, Portugal é um país sem língua, com tudo o que isso implica de falta de memória e de gramática. Sem Latim, é todo o nosso interior que fica deserto.

Comments

  1. Maquiavel says:

    A aceitaçäo boçal do AO90 é um importante sintoma disso mesmo!


  2. OA gosto dessa “sceitação boçal” os ministros são todos boçais – TODOS – estes e muitos antes deles


  3. A boçalidade foi promovida e ministeriável

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  1. […] uma língua novilatina como o português. Portugal, ao contrário dos alemães, prefere continuar a cultivar o esquecimento, apagando as bases históricas que estão na origem da sua própria língua e, portanto, do […]

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