Progredir ou regredir

Confesso que tinha alguma expectativa em relação ao dia de ontem – cheguei a pensar que o trabalho à peça iria fazer regressar alguns textos ao Aventar. Gosto sempre de ver o que pensam (coisa rara!) os adversários, porque é exactamente disso que se trata. E não falo por mim, falo pelo país.

Já por aqui escrevi que respeito e muito duas posições sobre a GREVE:

– os que querendo fazer, não podem aderir porque não podem abdicar de um dia de salário;

– as pessoas que concordando com os motivos, partilhando das reivindicações, discordam da forma de luta. As estes, penso que teria o direito de pedir uma alternativa, mas fica para reflexão posterior.

Tenho mais dificuldade em compreender um grupo de gente que não concorda, porque simplesmente nunca concorda com qualquer tipo de luta. Recorre a argumentos que vão da recusa de um direito existente na Constituição até aos valores supostamente rigorosos – 800 milhões de contos? Mas então houve ou não houve Greve? E, já agora, esse valor, a ser verdadeiro, daria um PIB de quanto? Sim – podem considerar feriados sábados e domingos nas contas…

São, percebo agora, um grupo da cassete ou talvez dos cartuchos!

Seguindo a sua forma de exercício da democracia – comer e calar – estaríamos  no tempo da escravatura, esses tempos em que o trabalhador vivia apenas para trabalhar a troco do essencial para… continuar a trabalhar.

Férias, horário de trabalho, assistência na doença, reforma são tudo valores que são um luxo aos olhos de quem nos governa e de quem os apoia. Mas, infelizmente, vamos continuar a incomodar e a chatear…

Há obviamente quem defenda um regresso ao passado, um ajuste de contas com a liberdade. Sem dúvida!

E se me permitem, para continuar o debate, gostaria de deixar uma pergunta no ar, mesmo para quem está sem trabalho e que ao olhar para o fim do túnel, só vê a luz dianteira do comboio:

– quem, nos últimos 100 anos tem sido responsável pelas propostas que melhoraram, na Europa, as condições de vida das pessoas?

São capazes de me apontar um único exemplo de uma proposta, ao nível laboral e social, que tenha nascido de qualquer governo (PS ou PSD) sem que antes tenha sido uma exigência de muitos anos do Movimento Sindical e em especial da CGTP, que, sabe quem me conhece, está muito longe de ser uma organização de quem goste especialmente…?

Mesmo agora, quando a relação entre o Governo e o país acabou, não anda o CDS a dizer o mesmo que a CGTP dizia há dois anos: que é preciso renegociar e tal?

E até vos apresento um exemplo que vivi por dentro – em 1995 quando comecei a trabalhar os Professores não tinham direito a subsídio de desemprego. Na altura parecia uma miragem e não tenho memória de ninguém dentro do PS ou do PSD ter defendido tal direito. Foram os professores e os seus sindicatos que avançaram e um dia, muitos anos depois, o direito foi consagrado.

Vamos continuar, pelo menos enquanto houver estrada para andar…

Comments

  1. Miguel says:

    Sim, sem dúvida as greves foram uma mais valia para os trabalhadores.

    No entanto, nas greves de hoje há uma diferença. Enquanto uns lutam por ter trabalho ou ter um pouco mais de rendimento para se verem aliviados, outros lutam por ter ainda mais, mas só para eles.

    Desde subsídios de assiduidade, emolumentos, 35 horas semanais e reforma aos 50 (e sim, conheço casos ainda antes disso). Isso não são “direitos”, é gozar com os outros.

    O verdadeiro mexilhão, esse que realmente precisa de mais, ontem teve a trabalhar, enquanto tem emprego. Os outros dão-se ao luxo de faltar, para lutar por luxos que só eles têm.

    • João Paulo says:

      Miguel, vai-me desculpar, mas deixe-me dizer que me sinto confortável, estável e tal… mas luto, até por todos os que não podem lutar, que aliás, refiro no meu texto. Quando fala de luxos, refere-se exactamente a q? Porque há por aí muitos a falar de luxos… que… uma sopa é um luxo?
      JP

      • Miguel says:

        Sopas de luxo? Ou referem-se à corrida às reformas do sector público? Chamam direito a ir para a reforma com 50 anos, eu chamo a isso vergonha. Já viu quem trabalha no campo, ou numa fábrica? Esses correm mas é para mais 15 anos de trabalho. Muitos doentes, que não recebem por completo o tão preciso €, quando assim o estão. Até vão trabalhar com pneumonia.

        Não falo numa sopa quente, falo numa falta de respeito e uma enorme diferença entre o que é considerado como um direito para uns e para outros. A sopa de uns é sair aos 50, com uma reforma ainda maior do que ganhavam, enquanto a sopa de outros é sopa da pedra.

        • João Paulo says:

          Miguel, vai-me desculpar mas está a levar a coisa para o lado errado. Não conheço ninguém que se aposente com 50 anos, pelo menos na função pública – mas se me conseguir mostrar aqui, referindo o enquadramento legal, eu sou capaz de dar a mão à palmatória. Houve excessos? Houve! Há e houve erros? Sim. Mas, continuo sem entender o seu ponto – isto é, como houve erros, agora é comer e calar? Ou seja, o Miguel meteu água há 20 anos e eu agora tenho que me sujeitar, é isso?
          JP

          • Miguel says:

            Não é comer e calar… Que tal distribuir a riqueza?? Vocês aqui parece que fogem quando se fala em 35h, subsídios de assiduidade, emolumentos e outros prémios…

            Ou vais me dizer que é por trabalho que os fps já no quadro fazem greve?

        • António Fernando Nabais says:

          Por acaso, não tinha reparado que uma das reivindicações consistia em exigir a reforma aos 50 e não sabia que havia uma corrida de funcionários públicos com 50 anos para se reformarem. E, para cúmulo, há funcionários públicos a reformarem-se aos 50 com uma reforma superior ao salário? Quando puder, Miguel, indique-me as suas fontes. Ainda por cima, já não me falta muito para chegar aos 50 e, a confirmar-se aquilo que diz, vou já encomendar umas lagostas. Das mais caras, claro.

          • Maquiavel says:

            Dos poucos casos de reformas antes dos 50 é a gaja que preside ao Parlamento, que se reformou aos 42, embora continue activa. Era essa energúmena de que V.Exa. falava?

          • Miguel says:

            PT comunicações. Conheço 3 funcionários que saíram entre os 55 e 50, não eram de cargos altos.

            Militar, 47 anos com reforma, 1400 limpos. Era secretario.

            Obviamente que não vou colocar aqui fotos, e BIs, mas é verdade, n tenho qq prazer em inventar.

            Ganham mais na reforma pois mantêm o salário a 100% e passam a descontar apenas IRS. É mentira?

          • António Fernando Nabais says:

            Continuo sem o perceber, Miguel, ou então não se está a fazer entender. Para além disso, é muito rápido a fazer processos de intenções.
            Os funcionários públicos, que não conseguem fugir a impostos e contribuições (e muito bem), não distribuem riqueza? Tenho alguma culpa que tenham gasto mal o dinheiro todo que entrego ao Estado desde que comecei a trabalhar, há vinte e seis anos?
            Qual deve ser, na sua opinião, o número máximo de horas de trabalho por semana? Porque há gente, no privado, a ser explorada, isso quer dizer que temos de nos conformar a sofrer a mesma exploração?
            Mas quem é o Miguel para decidir por que razão os funcionários públicos fazem greve? Não leu o que escreveu o João Paulo? Eu repito: “luto, até por todos os que não podem lutar”. Haverá outros a fazer greve por motivos egoístas? Seja, mas quem é constantemente roubado deve protestar, mesmo que esteja melhor do que outros. Aliás, os funcionários públicos têm funcionado, muitas vezes, como uma espécie de vanguarda de protesto.
            Mas só quem está na absoluta miséria ou no desemprego é que pode protestar? Você faz-me lembrar o típico portuguesinho que só fica contente se os que estiverem melhores ficarem tão mal como ele. Na sua opinião, quem for roubado, como são roubados há anos os funcionários públicos, deve olhar para todos os lados e se descobrir alguém que esteja pior, tem de ficar caladinho, porque isso quer dizer que, de repente, porque há quem esteja pior, passou a ser privilegiado?
            Conhece três casos de gente ligada à administração pública e resolve generalizar? Conheço muitos funcionários públicos que não se reformaram aos 50 e que não saíram a ganhar.

          • Miguel says:

            “Qual deve ser, na sua opinião, o número máximo de horas de trabalho por semana?” Simples, 40h.
            E ainda diz “Porque há gente, no privado, a ser explorada, isso quer dizer que temos de nos conformar a sofrer a mesma exploração?” Eu não sou explorado no meu trabalho, mas mesmo assim pergunto se há alguma razão para trabalharem (quase todos, há sempre mts poucos casos particulares) menos 5h que os resto do país? A terem subsidio de doença diferente e outros benefícios que todos deveriam ter. Atenção, não falo de prémios, pois todos devem ver o seu esforço compensado, falo de benefícios básicos, como reforma uma a 100% para todos, em vez de 80%(ou algo assim). Porque razão os fps têm uma reforma integral ao subsídio e o resto do país não? Não somos todos Portugueses?

            “Mas quem é o Miguel para decidir por que razão os funcionários públicos fazem greve?…“luto, até por todos os que não podem lutar”..” Está a brincar? A cp, metro, tap e outros que fazem greves constantemente, estão a fazer greve pelos direitos de quem?

            “típico portuguesinho”. Não diga isso.

            “São roubados há anos os funcionários públicos”. Sem ser os subsídios, e visto que é há anos dê um exemplo de algo que roubaram aos funcionários públicos e que não o fizeram ao privado sff.

          • António Fernando Nabais says:

            Não nego, em lado nenhum, que os trabalhadores do privado não tenham sido, como os trabalhadores em geral, prejudicados de vários formas, mas esta contínua comparação entre público e privado não leva a lado nenhum, porque cada um tem as suas dores e, se as tem, deve queixar-se.
            Simples: 40h? E por que não 45 ou 50? Dependendo da profissão, não faço ideia quantas horas, na realidade, trabalham as pessoas, no privado ou no público. Não consigo ver as coisas de uma forma simples ou simplista e, na minha actividade, não ando a medir o número de horas que trabalho, embora tenha cada vez mais vontade disso. O problema está na constante e progressiva retirada de direitos: hoje passa para as 40 e amanhã passará para as 50. Faz tudo parte de um movimento para embaratecer os custos do trabalho.
            Quanto ao roubo dos funcionários públicos, para além dos subsídios, desde Janeiro de 2011, houve um corte brutal nos salários. As progressões nas carreiras estão congeladas há vários anos, tal como os aumentos salariais. Como se isso não bastasse, os aumentos salariais têm sido habitualmente inferiores ao valor da inflação (com excepções pontuais em anos de eleições, como acontecerá em 2015, aposto). No que respeita à Educação, o Crato despediu (não de direito, mas de facto) milhares de professores, usando estratagemas anti.pedagógicos como o aumento do número de alunos por turma (com prejuízo a prazo para os alunos).
            Há quem esteja pior? Há, com certeza. Protestem e exijam o que considerarem justo.

          • António Fernando Nabais says:

            Não nego que os trabalhadores do privado TENHAM sido prejudicados, queria eu ter escrito.

          • Miguel says:

            “mas esta contínua comparação entre público e privado não leva a lado nenhum” -> sim é verdade. Não é por aqui que se resolve os problemas.

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Estes dizeres opostos e contraditórios fazem-me pensar no tempo em que via minha mamã a fazer arroz para a família comer – punha um punhado no prato e retirava cuidadosamente com os seus dedos as pedras que se confundiam com arror e ela distinguia e punha na borda do prato – Hoje o arroz é mais limpo e não tem pedras para partir os dentes – Como muitas conversas aventares, sobretudo de comentadores, parece que em palavras há muito arroz de má qulidade – Incluo nesta conversa o AO em que tantos não percebem nada e comem as pedras e ainda agradecem – têm com certeza bons dentes

  3. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Mas eu não já não tenho e ou é da osteoporose que me lixa a vida ou do mau feitio com que nasci e cresci e se acentua com o tempo

  4. João Paulo says:

    Enaltecer um benfiquista é um pleonasmo! ehhehe

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