Uma greve bem sucedida

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Arménio Carlos entende bem que o trabalhador é um bem essencial, como referi em outros textos meus deste blogue. Durante semanas a CGTP preparou a greve do 14 de Novembro, que acabou por ser um sucesso. Os estivadores, os transportes, as fábricas, especialmente as de vidro exportados a outros mercados, as escolas fecharam, a FENPROF, o SNEsup, calculam que todo fechou. Não houve aulas ontem, com excepção em Universidades privadas onde se educam os ricos deste país, os médicos e o seu sindicato atendiam apenas nas urgências dos hospitais, enfermeiras, enfermeiros, assistentes hospitalares tratavam apenas de casos graves, os tribunais, fechados por causa de greve de juízes e de funcionários, a administração pública, o sindicato dos sargentos da PSP, em fim, tantos, que nem cabem na página em que estimava referir esta greve bem-sucedida. Portugal parou!

Muitos perderam um dia de ordenado, outros tinham que andar para aparecer nos seus postos de trabalho, como empregadas de casas particulares incapazes de perder um dia de trabalho, por ser o único sítio onde encontram remuneração para subsistir, como antigas secretárias, ou artistas que tomam conta de crianças em troca de um baixo estipêndio. Um país sem cultura artística em que atores e vedetas devem efetivar outras labores de todo tipo, menos a de atuar, pintar, escrever música.

É possível dizer que o 14 de novembro, dia de Greve Geral, foi um sucesso que não tem paradigma se a comparamos com outras greves anteriores. Não foi apenas Portugal que parou, também a Espanha que solidarizou e a Grécia que se manifestou, como a Irlanda e muitos franceses, sindicatos alemães e de outros países que apoiaram Portugal. Não houve cidade lusa que não tiver uma manifestação desde a meia-noite de 13 ao 14 de Novembro. Foi, como digo no título do texto, uma greve bem-sucedida.

Como é natural, os cidadãos de direita manifestaram que eles estavam a trabalhar, com o Presidente da República e o Primeiro-ministro. Era a sua obrigação declarar que se a greve é um direito assegurado pela Constituição e pelo Código do trabalho, que perdia era o país por não exportar bens fabricados nesse dia. Mas, senhor soberano, se o povo não reclama, quem solicita por eles o cesse das medidas de austeridade, a falta de emprego para a força de trabalho? Porque estes senhores não falam com o povo e os sindicatos? Será que os trabalhadores são parvos e não sabem fazer as contas? Será que a equipe económica da CGTP e da UGT não têm pessoas que sabem de economia e apresentam medidas alternativas, todas elas válidas, mas que não enriquecem os desgovernantes? Se o trabalhador é um bem essencial, por que não falam com eles, como Mário Soares fez nos anos 80 do século passado nas suas Presidências abertas? Porque o Primeiro-ministro amedronta o povo anunciando no dia 13 que o país não podia pagar parte da dívida que quis contrair? Digo que quis, porque em 1979 Eanes solicitou dinheiro no FMI e no 83, Soares também? Mas pagaram para cumprir e souberam assim refundar a nossa República e permitir o seu acesso para a Comunidade de Nações Europeias, hoje União Europeia. Sem risco, não se atravessa o rio da economia. Para os nossos representantes somos apenas números: quantos a trabalhar, quantos pagos pelo Estado, quantos para despedir, quantos ordenados sem subsídios? E a saúde, com farmácias desbastecidas, remédios que devem ser eternamente esperados até entrarem na nossa República, com 1.131 farmácias com fornecimentos suspensos? E a Segurança Social? E as fábricas que declaram falência e fecham, sem pagar o devido à trabalhadores sem emprego? Porque, em nome da divindade em que acreditam os que nos representam na confeção de leis e orçamentos, não fazem um debate público? Dizem respeitar a lei, mas não hesitam em enviar a polícia sobre um povo enfurecido pela carga de impostos e desemprego. Uma polícia que sabe agir de tal maneira, que estavam dezenas deles escondidos em ruas paralelas do sítio da Assembleia. Sabem bem que há agitadores pagos para desfazer o triunfo de uma greve bem organizada na que todos marchamos. É um fato inconstitucional bater nos grevistas, quando se sabe bem que há agitadores pagos, até pela direita, para descambar greves de sucesso. Como acontecia no Governo do Presidente Allende, greves da burguesia e da CIA, para derrubar o governo socialista. Mas em Portugal não vai acontecer. E, caso acontecer a 27 de Novembro, motivos há para pedir que o governo venha cair.

Hoje em dia todos os jornais têm referências e fotos da provocação. A polícia e o governo sabem disto e deviam apreender antes os agitadores. Mas um governo que não usa a Constituição para governar, é evidente que espera estes acontecimentos para desacreditar a excelência de uma greve bem-sucedida.

Raúl Iturra

15 de Novembro de 2012.

Comments

  1. Raul Iturra says:

    Escrevi este texto para salientar o sucesso da Greve Geral, apoiada pela Espanha, a Grécia, a França e para salientar o desapreço dos órgãos que representam a nossa soberania, que, estou certo, devem ter incitado o vandalismo do fim do dia de Greve, para desacreditar o triunfo de nós, o povo, que fomos bem sucedidos na Greve. Portugal parou! É pena que os jornais, todos eles, tenham salientado um vandalismo criado pela direita, mas que a Greve Geral foi um sucesso, não há duvidas. Marchamos um dia completo! O vandalismo pode ser evitado, a policia conhece aos que são pagos, gente jovem, para desacreditar um sucesso!

  2. Jorge Maia / Penacova says:

    Portugal parou!
    Não tem noção do ridículo?

  3. luis says:

    A CGTP não falou da solidariedade europeia porquê? Estive no Porto e nem uma palavra sobre o que estava a acontecer no resto da Europa. Nos discursos do Arménio, igual. Não compreendo.

  4. artur almeida says:

    É verdade que junto à Assembleia da República houve os já muito habituais arruaceiros, gente despolitizada e despartiradizada (uma coisa leva a outra), outros que são os meninos bem filhinhos das Tias da Linha, e que na minha opinião não teria outro desfecho. Mas não devemos nem podemos esquecer todas as cargas policiais que houve contra Piquetes de Greve, devidamente identificados, que levaram cargas policiais, só porque estavam a exercer um Direito, Também Ele Constitucional. A essa Policia os Trabalhadores disseram por várias vezes que a Luta não era contra eles (policias), que também eles deveriam estar do lado dos trabalhadores ou pelo menos manterem a neutralidade, mas não entenderam e carregaram. Vamos ver a próxima manifestação de policias. Devemse ter esquecido dos Secos e Molhados.

  5. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Quanto aos secos e molhados só esquece quem lhe interessa – estas greves quanto menos oportunas sindicais melhor que parasitam a alma de quem sofre e não se deixam vencer mesmo que morram – os porugueses acordaram por fora porque sempre estiveram vivos por dentro e estão a dar a vida pela vida depois de tanta escravização e não precisam de petardos – só os mercenários – os polícias foram aumentados mais de 10% e vendem-se à indignidade para com os seus irmãos e nem deviam ter saído à rua porque quando preciso deles qui na rua não estão – a Escola Superior de Polícia é ao pé de mim – não aprenderam nada – são gajos com um pau na mão . nem soldados são

    • Raul Iturra says:

      Maria Celeste, o seu comentário revela a boa senhora que é. O sindicato de polícias é para respeitar, como todos os outros. Mas, tem razão, nem todos são iguais. Há os mercenários que Gonçalo da Fonseca tem comentado no seu blogue Geração à Rasca. Deve haver muitos molhados que se vendem ao governo de turno! Muito obrigado pelo comentário. Da-me ânimo para continuar no Aventar! Com carinho
      Raul Iturra

  6. Raul Iturra says:

    Agradeço os comentários sobre o meu texto Uma greve bem sucedida. Para Luís: o Secretário da CGTP referiu as adesões, mas ele estava estava em Lisboa, como muitos de nós. Para Jorge Maia: tenho sentido do ridículo, se o definimos como engano, porque Portugal parou. A lei que regulamenta as greves, a Constituição do Estado e o Código do trabalho falam que a greve é o direito mínimo dos trabalhadores para paralisar o trabalho, desde que a greve fique dentro dos objetivos para a qual é convocada e os serviços mínimos para os habitantes estejam assegurados, o que aconteceu. Há greves que não respeitam esses serviços, como acontece hoje em dia na Grécia. Para Artur Almeida: concordo consigo, mas tenho uma dúvida: normalmente os arruaceiros são pagos por grupos de direita para que o leitor ou o manifestante enderece o seu olhar para outro canto, objetivo conseguido. Antes de escrever o texto, li os jornais: todos falam do vandalismo em primeira página. O que me surpreende é como os polícias são capazes de se manifestarem pelos cortes salariais, despedimentos, retiro de investimento na tropa e, no entanto, cumprir duramente com o seu dever. Sabem distinguir entre trabalho e manifestações, são disciplinados. É verdade que são disciplinados e como a luta não é até o fim, eles souberam distinguir. Ora, que há molhados na polícia de choque, não tenho dúvidas. A opção de pensar livremente é ainda viva no nosso país… por enquanto!
    Agradeço todos os comentários. Ajudam-me a melhorar a escrita com mais informação!

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