A linguagem é um vírus*, a Troika também

Apanhei um “potential security risk which can be modified maliciously by virus“, o raio que os parta, um ddespesa.dll, que me mandou um mail, como se viesse para o Aventar, com este interessante conteúdo, tipo andam para aí uns gajos a contar o que se passa na Agenda de Trabalho do FMI em forma de ataque informático. Fica aqui, nestas cenas nem todos os antivirus funcionam, estejam prevenidos, farei relato de mais ataques:

IMF: Portugal Expenditure Review Process Workshop Agenda

No passado dia 6 de Novembro de 2012, no edifício do Ministério das Finanças, foi ministrado pelo IMF um workshop de modo o explicar o que deverá ser dito para justificar a necessidade do corte de 4 000 M€ nas despesas do Estado.

O workshop  foi ministrado pelo inglês Richard Hughes e pelo australiano Jason Harris, tendo contado também com as intervenções do Dr. Tiago Espinhanço Gomes (Assessor do Ministro de Estado e das Finanças), do Dr. Paulo Leiria (ESAME) e do Dr. Pedro Ginjeira do Nascimento (ESAME). [Read more…]

Almoço Sectorial Aventar, Porto

PALAVROSSAVRVS: Hoje o Aventar almoçou na Baixa Portuense, Mousinho. Foi um almoço sectorial. Éramos só dois. Dario e eu. Mas foi muito bom na mesma. Nada como termos podido contrastar o dia-a-dia com o prazer sem paralelo de uma excelente conversa aventadora, onde nada do que é português e relativo à política escape ileso. Conspirámos. Rimos. Sonhámos.

Exare-se em acta esta nossa conclusão concorde: são milhares os exemplos de como a roda dentada político-partidária nos vem fazendo um mal indescritível e ao País: enquanto a Política e a sua Casa Simbólica se conservarem meras conchinhas fechadas aos cidadãos, antro de negócios a que temos sido completamente alheios, e enquanto a Justiça [finalmente levada aos que malbarataram e desmandaram e atropelaram a Coisa Pública debaixo da pala imunitária da Política] não passar de uma caricatura de Justiça, Portugal também não passará de um sítio. Jamais será um País.

Hoje senti-me mais vivo. O copo de vinho ajudou. Fui ressuscitado para a luz bela de um dia portuense frígido, na companhia não já de um colega, mas de um Irmão e de um Amigo. A propósito, parece que o IVA não é levado muito a sério nos restaurantes às moscas, pois não, Dario?!

DARIOSILVA: Não tenho IVA a declarar: o vinho, branco, verde, só podia ser bom: provém do vale do Sousa, d’uma encosta com o comboio aos pés, d’um sítio que acumula um nevoeiro delicioso numa infância a bordo de um comboio. E foi assim.

Propinas no Secundário

Haverá desconto para jotinhas que prometam só largar os estudos depois dos 30 anos?

O hóquei está de luto

Armindo de Vasconcelos

Faleceu uma das figuras de referência do hóquei português. José Estêvão Vasconcelos Machado foi um dos maiores lutadores que a modalidade conheceu, e deixou-nos ontem. Não tivesse falado recentemente com o filho, o vice-presidente reeleito para o executivo da FPH, José António Machado, e a notícia ter-me-ia apanhado ainda mais de surpresa. Mas, por entre lágrimas de saudade antecipada, o Zé António disse-me que o pai estava em estado terminal e só se aguardava o desenlace final.

Mesmo assim, hoje de manhã, ao abrir a minha página do facebook, a notícia estava lá, o escudo da Federação a negro. Não conseguimos nunca, mesmo que seja esperado, encarar a morte doutra forma, que não esta: o enorme vazio que fica quando parte alguém que nos marcou. Mesmo que, por fé, acreditemos na vida eterna, mesmo que, por amor à poesia, encaremos que esta partida é uma libertação da lei da morte, como escreveu Camões. Somos humanos, e esta marca indelével de fragilidade acompanha-nos e revela-se, exactamente, em momentos como este, em que o desconforto de mais um lugar vazio na nossa vida se confirma. [Read more…]

A crise que vivemos e a família

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O orçamento de estado para 2013, acaba não apenas com as entradas lucrativas, bem como com começa com os despedimentos do emprego, a falta de entradas e, o que é bem pior, com as lutas familiares.

É verdade que as pessoas juntam lares dentro de uma mesma casa para poupar o pagamento de rendas, que, de certeza, passam a ser mais caras, assunto inusitado no nosso país. Como é natural, todos querem morar no seu canto de família doméstica, mas, quando não há dinheiro, a única alternativa é juntar pessoas da mesma família beijo um mesmo teito.

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A lição dos estivadores

Como se percebe da leitura do extenso trabalho que veio hoje a lume no Público, há sindicatos e sindicatos, e uns e outros distinguem-se pelos trabalhadores que têm e sua consciência.

Enquanto nuns portos os estivadores pagam uma quota elevada e beneficiam com isso da possibilidade de prolongar uma greve, o responsável do sindicato de Sines afirma não ter hipóteses de o fazer (embora saiba que uma greve de 8 dias faria ceder qualquer governo), o que até se compreende.  Uns ainda são trabalhadores, os outros estão no grau abaixo de zero do precariado e do salário pelo mínimo.

É essa a diferença, é para aí que governo e patronais pretendem empurrar os trabalhadores que sobram. Espancando para a ausência completa de direitos, para a reproletarização na versão clássica do esses que nada têm a perder porque nada têm, mas não ganharam ainda a consciência de terem tudo a ganhar. Esses a quem chamam em gozo de balofa hipocrisia colaboradores.

Têm azar: mais tarde ou mais cedo este filme também acaba assim:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=S6VBdu_ur48]

Há Lodo no Cais – On the Waterfront

Secundário com propinas

Para poupar mais, as equivalências terão desconto de 50%.

Que se lixe o ABC

O Governo quer que os portugueses se deixem de escolaridades mínimas obrigatórias e prepara-se para destruir de uma assentada o que resta de uma ideia de Escola pública que, apesar de deficiente (e tudo terá começado a ficar mais complicado quando o PS de José Sócrates chegou ao poder), mantinha o País num rumo de progresso por via do acesso universal ao Conhecimento. Não é só a mobilidade social (já muito dificultada por tudo o resto que actualmente a debilita) que se verá gravemente afectada: é o próprio projecto de uma sociedade que começa por ser democrática porque dá a todos, pelo acesso gratuito à Educação, a possibilidade de formar cidadãos para o exercício político da cidadania.

Em 1936, Carneiro Pacheco, ministro da Educação Nacional, afirmava (num estilo de que Passos Coelho é um lamentável e anacrónico herdeiro) que «O ABC [tinha sido] legalmente derrotado por Deus», deitando por terra o programa republicano que preconizava ser o ABC «o fundamento lógico do carácter». Tratou-se, nessa reforma estado-novista, de reservar a Educação às elites, reaproximando o povo do freio da Religião, banhando-o desde a mais tenra idade nas virtudes cristãs, em detrimento daquilo a que chamavam “o saber enciclopédico”, que de nada serviria aos meninos nas suas vidas futuras, diziam – e o mesmo dizem hoje os passos coelhos desta vida portuguesa a andar para trás relativamente aos alunos universitários que estudam para serem desempregados, em vez de se deixarem de estudos e aceitarem ser os soldados das multinacionais exploradoras do trabalho barato.

E foi assim que criou o povo resignado que se absteve de toda e qualquer participação cívica – mergulhando no silêncio medroso até 1974. É esse o povo que hoje não vota, entregando aos partidos minoritariamente votados (se considerado o universo dos eleitores) o destino da Nação.

A Entrevista

Era preciso fundamentar melhor por que teremos de sofrer tanto e onde está a excessiva generosidade dos nossos magros subsídios de desemprego e magras pensões.

Passos está obcecado com o Ajustamento. Obcecado com o Défice. Obcecado! Não há País para além da sua missão divina com os números, com as metas, com os cortes. Compreendo a margem nula em que se movimenta e que naturalmente o obsessiona quanto à eficácia das suas medidas, mas se ele vê a sua missão histórica como histórica, vai demasiado só e demasiado movido a matemática para fazer sentido a gente sob um depauperamento e, logo, um cansaço moral difícil de descrever. Boa parte da economia move-se psicofuel. E esse está a faltar. Mesmo um incompreendido e um iluminado, conta em que Passos talvez se tenha, precisa das pessoas, de conquistá-las e, sobretudo, de as merecer. Serve-nos de pouco que a carreira internacional de Gaspar e o seu prestígio fora de portas sejam cada vez mais extraordinários e Passos seja olhado como um decisor implacável. Estava escrito em algum lado que teríamos de morrer da cura?

Ontem, na entrevista à TVI, ficou evidente que há um imenso trabalho de casa por fazer: aquele que envolve gente, que sente e ouve gente e ousa, por alguns momentos, esquecer os números. Talvez ainda se vá a tempo de mudar atitudes e tiques de feitor.

A ver se eu percebo…

Primeiro estebelecem obrigatoriedade escolar até ao 12º ano e depois começam a cobrar propinas? Percebi tudo mal, certo?

O acordo ortográfico já não causa impacto

Mesmo depois do chamado acordo ortográfico (AO90), a grafia da palavra “impacto” manteve-se inalterada, uma vez que o c é pronunciado. Simples? Não necessariamente.

Depois da imposição do AO90, surgiram vários erros que raramente ocorriam, sobretudo no âmbito da grafia das chamadas consoantes mudas. Assim, é cada vez mais vulgar ver textos portugueses em que “facto” é erradamente substituído por “fato”, para além de já ter sido possível ler “pato” no lugar de “pacto”.

A ocorrência destes erros tem várias causas e é evidente que o AO90 não é a única. Correndo o risco de cair no pecado do simplismo, penso que tudo começa no facto de haver, ainda, uma iliteracia generalizada, visível em diversas dificuldades de expressão e de compreensão, mesmo entre pessoas com educação superior. No meio deste caldo, o AO90, sendo, para mais, um instrumento deficiente, veio tornar ainda mais difícil a vida de quem já tinha dificuldades em escrever com correcção. [Read more…]

O devir histórico (7)

Continuando.

Existe um perigoso sentimento que tem atravessado séculos da nossa história. Com maior acuidade e gravidade durante o Século XX até aos dias de hoje. De maior acuidade e gravidade, porque foi durante o Século XX, até aos dias de hoje, que se consolidaram as ideias e os conceitos de justiça, de cidadania e de dignidade da pessoa humana. Esse perigoso sentimento é o da impunidade. Mercê de razões conjuncturais díspares, a verdade é que desde o regicídio, passando pelos hediondos crimes de tortura e de sangue do Estado Novo, até às delapidações da riqueza nacional e do fomento do fatal endividamento que se sucederam em plena democracia, existiu um fio condutor: impunidade. Tal sentimento é dos mais desgastantes e corrosivos para a moral de um povo. Porquanto enraíza sentimentos contrários aos da ética e da responsabilidade. Ao ponto de se desvalorizar a seriedade e aplaudir-se a audácia. De se descredibilizar a inteligência e de se louvar a esperteza. Bom, não é ser-se sério e inteligente. Bom, é ser-se vencedor, não importa como. É ter sucesso. E, assim, a mentira entrou nas nossas vidas, nas nossas, casas, nos nossos projectos. A mentira para conquistar votos, para se chegar ao poder, para se conseguir o que se quer sem esforço ou mérito. E, assim, se afastou o mérito das nossas profissões, das nossas escolas e dos nossos desejos. O mérito não abre portas. A mentira, abre. Pelo menos o tempo suficiente para se alcançar outra porta. Porque este é o resultado natural de sucessivos episódios de se ver que quem roubou, mentiu ou matou ficou impune. Todos, eles, notórios casos de impunidade. Sim, notórios. Não é o roubo de esquina, a morte passional ou a pequena burla. É a impunidade dos crimes nas esferas das elites. Aquela que descredibiliza a Justiça, aos olhos do povo, porque firma duas Justiças: para pobres e para ricos. Algo que, só por si, é inadmissível. A que é, também, a pior impunidade de todas, porque inquina a hierarquia do exemplo, porque o exemplo que vem de cima, é o pior. E pior, ainda, quando contraditoriamente acompanhada de retórica evocativa de princípios éticos, de respeito, de direitos e de morais. Pior, porque o mau exemplo conspurca os valores apregoados. Pois que pior destino se pode dar a ideais e conceitos éticos, do que prostituí-los ao serviço dos seus antípodas?

Foge, Cão

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