Um partido que decide não ser governo

O Bloco de Esquerda escolheu ter uma liderança a dois. Imaginando que vence as próximas eleições, quem será o primeiro-ministro? Quem terá assento no Conselho de Estado? É o primeiro-ministro. Que nome figurará na legislação assinada pelo primeiro-ministro? E até num debate, vão os dois contra um opositor? Os do Bloco de Esquerda lá terão as suas razões; eu cá não vislumbro vantagem alguma em termos da qualidade política neste modelo de liderança bicéfala.

Outro aspecto que me causa incredulidade é a vontade do BE para nacionalizar a banca. Tivemos o problema privado do BPN transformado em problema público pelo PS de Sócrates e quer agora este partido nacionalizar os falidos BCP, BPI, BES, etc?! Repare-se bem na argumentação. Dizia Semedo hoje na RTP1 que assim era uma forma de meter o dinheiro emprestado à banca ao serviço da economia. E que tal esse dinheiro nem sequer chegar a ser oferecido à banca? Sei lá, assim tipo o capital não viver do estado? Realmente, depois de um buraco criado pelos socialistas, só cá faltavam n buracos criados pelos bloquistas.

São duas medias que me levam a concluir o óbvio. O Bloco de Esquerda é um partido que decidiu nunca ser governo. Pode por isso fazer as propostas que queira com a certeza que nunca será chamado a executá-las. Falar é fácil. E falar em eco ainda deve ser mais fácil. Uma coisa é certa, uma vez que para mim o factor de escolha no momento do voto é o programa eleitoral, aliado à memória do que é/foi executado quando este se transforma em programa de governo, nunca o BE terá o meu apoio com estas políticas.

Comments

  1. davidmsilva says:

    Os bancos em questão não estão falidos, e o bloco era contra a nacionalização do BPN e, agora recentemente, a sua privatização, por ter sido vendido a preço inferior ao que custou ao estado. Em resposta à afirmação “E que tal esse dinheiro nem sequer chegar a ser oferecido à banca?”, só mandando a troika embora. O dinheiro que chega é injetado para recapitalizar a banca, daí o bloco falar em nacionalizar estes mesmos bancos, que adoram esta política (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=587217).

    • jorge fliscorno says:

      Os bancos não estão falidos? Essa é nova. Deve ser por isso que pedem apoios à recapitalização.

      Mas se o que impede não dar o dinheiro aos bancos é a troika, já não é a troika que impede a nacionalização? Escapa-me algo na lógica da batata.

      • davidmsilva says:

        Os bancos não estão falidos ao nível do BPN. Todo o dinheiro que entra pela troika é injetado nos bancos, bancos que a mesma não quer ver serem nacionalizados. O bloco opta por uma abordagem diferente: agora que o dinheiro entrou, que o deixem sob o controlo do estado.

      • nightwishpt says:

        Ó fliscorno, então não houve um acordo europeu que obrigava os bancos a ficarem com mais dinheiro retido?

        • jorge fliscorno says:

          Pois procure-se então anular esse acordo.

          • nightwishpt says:

            E corre-se o risco de os bancos falirem.
            Se a solução fosse continuar tudo na mesma, a crise já estava resolvida.

  2. André Oliveira says:

    A questão do PM do BE é uma falsa questão, pois nada obrigue que o PM seja o líder de um partido, e o BE podem muito bem eleger um primeiro-ministro entre os seus quadros. As más linguas até dizem que uam das razões da demissão de Francisco Louçã foi justamente essa: preparar-se para ser nomeado PM pelo BE, caso haja por cá umas eleições à moda do siryza.

    Sobre os bancos, realmente são propostas totalitárias e fundamentadas no domínio da fantasia. Para um sector que adora acusar os outros de fascistas, parece que os imitam bem.

  3. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Confesso a minha burriv«ce – ou ouvi mal ou ne percebi

  4. luis says:

    Se propor a nacionalização da banca é fascista, então os islandeses são uns grandes fascistas. A banca comercial é um cancro da sociedade, lucram através da dívida porque mamam directamente da teta do BCE. Agora, nacionalizar bancos falidos também não me parece lógico. Não é fácil esta questão, tal como um cancro, por vezes o paciente pode não aguentar a cura, mas se não se fizer nada a morte é certa.

    • jorge fliscorno says:

      «Se propor a nacionalização da banca é fascista, então os islandeses são uns grandes fascistas. »

      E se calhar são mesmo: “O fascismo é uma corrente prática da política que ocorreu na Itália, opondo-se aos diversos liberalismos, socialismos e democracias.”
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Fascismo

      No meu entender, todo o negócio deve estar sujeito à falência e a banca comercial é um negócio, Os fundos de garantia bancários entram neste jogo para que a falência da banca não se transforme em mais uma forma de sacar as parcas poupanças aos cidadãos, Um negócio que não esteja sujeito ao risco de falência é um negócio no qual se podem tomar decisões sem ter em conta o respectivo impacto, que é o que aconteceu com a especulação desenfreada do sub-prime.

      • luis says:

        Definir fascista como oposição a tudo o que não é fascismo é um pouco redutor. Fascismo não é só o regime que Mussolini criou, hoje em dia, entende-se por fascismo um regime autoritário. Na definiçaõ de fascismo, até o regime soviético cabe lá. Eu concordo que o negócio deve estar sujeito à falência, coisa que a banca não está, como se viu depois de 2008, onde todos os governos europeus “resgataram” os seus bancos, para que não houvesse falências. Esta “crise” começa ai. Quanto a sacar as poupanças aos cidadãos, com todos os bens que a banca possui, não sei se esse argumento não é mais um “bicho-papão”, mas é sem dúvida, o grande “trunfo” da banca, para não falir. Ou seja, depositamos dinheiro no banco e depois, para ternos esse dinheiro temos que pagar impostos para a banca? Isto não lhe parece doentio? A banca ganha sempre, o jogo está viciado!

        • jorge fliscorno says:

          É doentio e de que maneira! Concordo.
          Sim, fui propositadamente por uma definição redutora. Era uma provocação 😉

          • nightwishpt says:

            Mas pelo que leio, é acertada.
            O termo correcto é plutocracia. Ou, se calhar, é mesmo cleptocracia…

        • Hugo Mota says:

          Nacionalizar à força toda uma indústria é uma medida totalitária, somente imposta por regimes autoritários. O fascismo também impõe a necessidade de nacionalizar sectores ditos vitais da sociedade, por alegar que eles tem o dever de servir a nação a fim de atingir a auto-suficiência e independência. O fascismo também defende uma economia mista, com o estado a ocupar-se dos sectores ditos estratégicos e deixando aos privados apenas os sectores menores e menos importantes.

          Se acham que o regime soviético, e qualquer regime comunista, encaixa na definição de fascismo então é porque já começam a compreender o que é o fascismo – e também a natureza dos regimes comunistas.

          • Maquiavel says:

            Se acham que o regime soviético, e qualquer regime comunista, encaixa na definição de fascismo então é porque ainda näo compreenderam o que é o fascismo, mesmo com o enlace que o Fliscorno mostrou. É mesmo analfabetismo funcional.

    • Hugo Mota says:

      Ninguém espera coerência a partir das propostas do PCP e BE. Um exemplo é terem andado a reverberar elogios ao exemplar caso Islandês, por o governo ter insistido em implementar uma política puramente neoliberal ao recusar-se a nacionalizar bancos falidos e em vez disso deixá-lo falir como devia ser. Então enquanto os militantes mais ingénuos andam nas ruas a gritar palavras de ordem contra o fascismo e neoliberalismo, temos os seus partidos a defender publicamente as políticas resultantes dessas ideologias.

      • Maquiavel says:

        Realmente alguém que se pöe a dizer que “recusar-se a nacionalizar bancos falidos e em vez disso deixá-lo falir como devia ser” é “uma política puramente neoliberal” a chamar outros de incongruentes… é de ir às lágrimas! 😀

  5. António M. C. Carvalho says:

    Boa noite meu caro Jorge Fliscorno,
    A sua afirmação “para mim é o programa eleitoral, aliado à memória do que é/foi executado quando este se transforma em programa de governo, o factor de escolha no momento do voto”, levanta uma questão muitas vezes ignorada. Quando votamos passamos um cheque em branco, porque nem sequer sabemos ao certo quem será o primeiro ministro, normalmente ignoramos a composição do futuro governo e a execução do programa eleitoral dependerá muito das pessoas escolhidas para nos governar.
    Na realidade poucos eleitores pensam como o Jorge, se o fizessem nem o PS, nem o PSD ou mesmo o CDS voltariam a ser governo, responsáveis, como são, pelo estado a que o Estado chegou !!!

    • jorge fliscorno says:

      Mas cometo os meus erros na mesma. Um deles foi o meu voto, pela primeira vez, no PSD, achando que cumpririam o programa eleitoral. À primeira qualquer um cai mas à segunda só cai quem quer.

  6. Amadeu says:

    Vejam bem os problemas existenciais dos anti bloquistas. “Quem terá assento no Conselho de Estado? ” Vamos lá a ver. Como é que fazem quando vão com a mulher de carro ? Quem é que conduz ? Põem 2 volantes ? Desistem do carro e vão de comboio ? E se vão de comboio quem é que vai à janela ? Vai cada um para seu banco ?

    Bancos nacionalizados. Mas, mas, não querem estes governantes e acólitos formar um novo banco estatal “de fomento” ? Os bancos portugueses estão falidos ? Pronto, mais um dado económico relevante que aprendi hoje por aqui.

    • jorge fliscorno says:

      Ó Amadeu, você tem sérios problemas com a realidade? Já me viu defender a criação de algum banco de fomento estatal? Cuide.-se.

      E concluo que há muito quem saiba escrever sem saber ler. Eu não sou anti-partido algum mas sim “anti” certas políticas, sejam elas de que partido for.

      • Amadeu says:

        Jorge,
        Não o acusei de defender um banco de fomento, a menos que se considere acólito deste governo. Querem ver que adivinhei ?
        Formalismos à parte, não se preocupe com essas coisas.

    • jorge fliscorno says:

      Quanto à boca do carro, talvez o Amadeu perceba que há uma coisita chamada Constituição que impõe certos formalismos. Ah, espere, isso é só para questões de orçamentos serem constitucionais ou não.

  7. nightwishpt says:

    Os bancos não podem ir à falência, ponto final. Era o caos. Até o FMI tem uma proposta sobre como acabar com isso porque até eles acham que é péssima ideia.

    Quanto às nacionalizações, tinha que ler as palavras, mas duvido que seja como diz. A questão que sempre ouvi é que não se pode atirar dinheiro para a banca sem esperar que ela repague em contributos para a sociedade, por exemplo em mais e melhores empréstimos às PME, que este governo espera que aconteça por obra e graça sabe-se lá do quê.

    • jorge fliscorno says:

      Mas duvida porquê? Quando não se sabe, dá-se o benefício da dúvida, parece-me. Em vez de ler, ouvir serve? http://www.rtp.pt/programa/tv/p29453/e10 É lá para o meio.

      E nacionalizar buracos como o BPN não é o caos? Aliás, está a ser o caos. Em todo o caso, em que país foi a banca nacionalizada com essas vantagens? Posso estar errado…

      • jorge fliscorno says:

        Após o minuto 26.

      • nightwishpt says:

        Atão, mas a culpa é minha de não indicar as fontes ? 🙂 nacionalizar parece-me exagerado, como disse, mas já exercer algum “controlo público do crédito bancário”, como diz o Semedo, é essencial.
        Após a nacionalização do BPN não foram os restantes à falência, e as pessoas continuaram com as suas poupanças, correcto? (embora hoje se saiba que provavelmente não teriam ido). Como foi feita a nacionalização, sem a parte que dava lucro, é outra coisa…

        • jorge fliscorno says:

          Pronto, tá bem, não meti link no texto mas referi a fonte. Questão secundária.

          Bem, “controlo público do crédito bancário”, pela nacionalização da banca. Parece-me até que BPI, BCP e BES até agradeciam o estágio sob a saia do estado. Do que se houve deles, aquilo é de fugir.

          Já agora, não tenho link mas com (um pouco de paciência encontra-se), há uns meses Louçã também já tinha defendido a nacionalização da banca.

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