O rei de Redonda

Esta foto mostra o monarca John Gawsworth poucos meses antes de morrer, quando era já um sem-abrigo que mendigava pelas ruas de Londres, quase sempre alcoolizado. Deve ter sido alvo da caridade de alguns e da indiferença, quando não do desprezo, de outros, como sempre acontece aos mendigos, mas quantos saberiam que este homem era um rei e não um qualquer rei, o que já não seria pouco, mas o soberano de um reino imaginário, de um pedregulho perdido nos mares, povoado apenas por gaivotas e ratazanas, mas cuja corte incluía algumas das mais interessantes figuras do seu tempo?  

Nas Caraíbas, entre o grupo das ilhas do Sotavento, nas Pequenas Antilhas, existe uma ilha, com pouco mais de um quilómetro quadrado, que se chama Redonda. A ilha está totalmente desabitada desde o início do século XX e não tem nenhum atractivo turístico. Como lugar físico, real, não interessa a ninguém.

Acontece que Redonda é também um reino, com um soberano e uma aristocracia, e uma lenda literária. A história teve início no século XIX, quando um banqueiro se encaprichou com a ideia de comprar uma ilha para poder oferecer ao seu primogénito o título de soberano de um reino, por mais exíguo que fosse o seu território. Depois de anos de disputa com a coroa britânica, acabou por obter o título de monarca da ilha de Redonda. Era um título despojado de poder, um título fictício, ideal para satisfazer a vaidade de um banqueiro que quis fazer do filho um monarca.

Mas este filho tinha outros interesses que não a banca, e tornar-se-ia o escritor M.P. Shiel (em Portugal foi publicada a sua obra “A Nuvem Púrpura”). Foi ele que decidiu que Redonda seria um reino literário e que a sucessão não teria por base os laços de sangue. À morte de Shiel, o título de monarca passou para um outro escritor, o seu discípulo John Gawsworth, a quem já vos apresentei.

Este novo rei era um homem endiabrado, que aproveitou a passagem pela II Guerra Mundial como combatente para publicar panfletos literários e poemas no Egipto, na Argélia e na Índia, entre outras paragens. Para além de ostentar o seu título, criou uma aristocracia literária, de duques nomeados por ele, e que incluíram os romancistas Henry Miller e Lawrence Durrell, o poeta Dylan Thomas, e os actores Dirk Bogarde e Vincent Price. O Reino de Redonda manteve-se como reino ficcional, cujo trono era concedido por afinidade literária, e que incluía uma corte, composta por nobres que apenas o eram pelo seu mérito artístico (na literatura ou no cinema, as expressões artísticas que mais interessavam a Gawsworth). Nem o rei nem a sua corte alguma vez visitaram a ilha.

Mas  Gawsworth foi-se perdendo no álcool, escreveu alguns escassos ensaios e contos de terror, e no final da vida (morreu em 1970, com 58 anos), quando dormia nos bancos de jardim de Londres, tinha já vendido o seu título de monarca inúmeras vezes. Tantas que há hoje uma disputa entre vários presumíveis sucessores, que reclamam esse imaginário trono porque eles mesmos, ou algum familiar já falecido, compraram a Gawsworth o título de soberano de Redonda. Mas o trono de Redonda, recorde-se, herda-se por sucessão literária e Gawsworth cedeu o título ao escritor John Wynne-Tyson, um autor britânico pouco conhecido.

Quando Redonda parecia já irremediavelmente esquecida, o romancista espanhol Javier Marías descobriu a história de John Gawsworth e contou-a, em parte, num dos seus romances, “Todas as Almas”. O rei em exercício, Wynne-Tyson, cansado das guerras com os pretendentes ao trono, contactou Marías e em 1997 cedeu-lhe o título de monarca de Redonda. Desde então, Marías tem mantido viva a lenda do reino de Redonda e ampliado o número de duques, entre os quais se contam hoje Pedro Almodóvar, Ray Bradbury, Francis Ford Coppolla, Umberto Eco, Milan Kundera, George Steiner, Vargas Llosa, Alice Munro ou o português António Lobo Antunes. Todos eles aceitaram o jogo de fazer parte de um reino no qual os cidadãos não têm qualquer obrigação a não ser a de alimentar uma lenda e onde nem sequer conhecem o território físico do seu país.  Se quiserem saber mais sobre esta história, recomendo a leitura de “Negras Costas do Tempo”, de Javier Marías.

Da história do reino de Redonda, agradou-me sempre a figura de John Gawsworth. Imagino-o a contar a história do seu reino a troco de um copo, capaz de vender o título vezes e vezes sem conta, sabendo que ele não pode ser comprado. Quantas vezes se devem ter rido dele nos pubs de Londres e atribuído ao álcool a história do seu reino, incapazes de imaginar que estavam perante um soberano.

Gawsworth morreu cedo e numa condição miserável, mas sabia-se rei, não de uma ilhota aonde ninguém desejaria aportar, mas de uma lenda, e acredito que em muitas noites do frio húmido de Londres a ideia deve tê-lo aquecido mais do que qualquer garrafa de vinho. Não sei se foi Gawsworth a escolhê-lo ou se é anterior a ele, mas o lema de Redonda é «Ride si sapis» –  Ri se souberes – e a frase deve ter estado nos seus lábios muitas vezes nesses difíceis anos finais.

Pelo sim, pelo não, desde que conheci a lenda de Redonda, desconfio sempre de que em cada mendigo pode estar um soberano caído em desgraça.

 

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