Entrei na exposição “A Farmácia no Tempo de Aníbal Cunha” com aquela atitude birrenta de adolescente que alinha num programa a contragosto, sabendo que vai entediar-se, e apenas diz que sim para fazer a vontade a outros. Mãos nos bolsos, cara de parva, olhar sobranceiro, resignada à ideia de que ia perder tempo. Parece que há um resquício de estupidez juvenil que teima em desaparecer e se arrasta triunfalmente pelas décadas seguintes.
Antes de mais, a exposição é de entrada livre, e vai manter-se no átrio de Química do edifício da Reitoria da Universidade do Porto até 13 de Dezembro.
Aníbal Cunha foi um ilustre farmacêutico, e um empenhado republicano. Participou na revolta de 31 de Janeiro e foi um dos responsáveis pela criação da Faculdade de Farmácia do Porto, de que viria a ser director.
A exposição reúne equipamento de trabalho, como alambiques ou balanças de precisão, frascos e boiões de farmácia, cartazes publicitários dos medicamentos da época, e objectos capazes de despertar a vossa curiosidade como uma máquina para fazer supositórios. Ainda que sejam leigos na matéria, como eu sou, creio que tudo isto é suficiente para justificar a visita, até porque aquilo que cada época elege como panaceia é muito relevador não só dos seus males, mas também do seu particular sistema de crenças. A esse propósito, sugiro que não percam o cartaz que representa o mar vermelho do sangue contaminado de um sifilítico, um autêntico pesadelo escarlate. Deveria ter uma foto desse cartaz para mostrar-vos, mas algo correu mal, lamento. Vão lá vê-lo, que ainda têm tempo.
Mas o que me entusiasmou de verdade, e me fez arrepender da minha reticência inicial, foi descobrir, entre a colecção da Faculdade de Farmácia do Porto, o diploma do curso de medicina de Sir Arthur Conan Doyle e o seu auto-retrato jocoso, a celebrar a conclusão do curso, no qual um jovem Arthur, de diploma na mão, se anuncia “Licensed to kill”.
uma péssima foto – mais uma razão para irem ver a exposição
Conan Doyle, já sabem, é o criador de Sherlock Holmes, o maior detective de todos os tempos, aquele a quem todos os detectives da ficção (e os reais, imagino) devem alguma coisa, até mesmo aqueles que o não são, como o dr. House da bengala e dos comentários corrosivos. Cumprem-se precisamente este mês 125 anos que Holmes irrompeu pelo mundo, na revista “Strand”, com a história inicial, “Um Estudo em Escarlate”.
Há por aí muito pateta que desdenha Conan Doyle e a sua dupla Holmes-Watson, por achar que é o género, e não o talento do autor, que faz de um livro maior ou menor.
Quantos personagens literários foram ressuscitados, contra a vontade do autor, por imposição dos seus leitores? Pois Holmes resistiu a uma tentativa de assassinato por parte do seu criador, frustrada pela indignação dos inúmeros leitores assíduos das suas histórias, e tem resistido a uma sucessão de interpretações no cinema e na televisão, por vezes simplesmente frouxas, outras vezes realmente ofensivas.
Os novos Holmes ora aparecem sob a forma de moços com ar de pacientes de Asperger, com pose de génio incompreendido, ora se revelam arruaceiros hiper-inteligentes, que adivinham coisas impossíveis e fazem beicinho quando o Dr. Watson lhes vira as costas. Nada disso tem a ver com o verdadeiro Holmes e basta ler uma das 56 histórias curtas para perceber isso.
Como é que o diploma de Conan Doyle foi parar ao acervo da Faculdade de Farmácia do Porto é um mistério digno de Holmes. Mas fiquem sabendo que a licença de Conan Doyle para matar – e assim engendrar histórias para o seu detective – está no Porto. E há coisas que só se descobrem quando nos dispomos a perder tempo.







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