Serralheiros de Pamplona

Luis Azanza (El Pais)

Iker de Carlos (Foto de Luis Azanza, El Pais)

Para o cumprimento da lei, até da lei injusta, são necessários burocratas, executores, carrascos, serralheiros. Destes homens e mulheres pode dizer-se que, mais do que cumprir a lei, executam o serviço para o qual foram contratados, e não têm que concordar com os ditames da legislação, podem até discordar da sentença que executam, porque não lhes cabe a autoria do acto. São meros executores, e como tal não recai sobre eles a responsabilidade da injustiça que concretizam.

Quando alguém perde a casa que não podia continuar a pagar ao banco, a lei manda que o banco recupere a sua propriedade e o inquilino, que teve a ilusão de que era proprietário, seja expulso. E para que essa ordem seja cumprida, para que se execute a transição de propriedade desse imóvel, é necessária a substituição da fechadura, acto simbólico que sela a mudança de propriedade. Há casos em que o inquilino, julgando-se ainda detentor de direitos de proprietário, recusa-se a sair e o cumprimento da lei dita que a porta seja arrombada e que o infractor seja expulso da casa que não lhe pertence.

Para que essa ordem seja reposta é necessária a intervenção do serralheiro, que é talvez o elemento em que menos reparamos se observarmos uma cena de despejo. Agachado no chão, com a mala das ferramentas aberta, pousada ao lado do tapete, ele trabalha diligente e em silêncio, e o que pensa da cena não sabemos nem ninguém lhe pergunta nem tem interesse para o caso.

Em Navarra, porém, num país onde o número de despejos diários já ultrapassa os 500, estes observadores silenciosos decidiram tomar posição. Os profissionais de serralharia de Pamplona, reunidos em associação, decidiram não participar em acções de despejo, mesmo sabendo que com isso perderão trabalho, e trabalho bem pago, com tarifas mais altas e compensação por deslocações.

Fizeram-no porque, explicava há dias ao jornal El País, Iker de Carlos, porta-voz da associação, “quando o vês na televisão é diferente de quando vais lá. Sabes que estás a colaborar com a expulsão das pessoas da sua casa e que além disso vão ficar com uma dívida perpétua, que terão de continuar a pagar”. E sintetizava o propósito desta acção conjunta:

“Sabemos que não vamos começar uma revolução, mas queremos que sirva como rastilho para que a sociedade navarra se questione sobre como solucionar uma situação injusta”.

Desde então, já foram entrevistados, elogiados por cidadãos anónimos, apelidados de heróis. Contaram histórias de despejos em que famílias com velhos e crianças pequenas eram corridas para fora de casa, sem alternativa que não a de dormir na rua.

A eles juntou-se, entretanto, a União de Serralheiros de Segurança, que reúne profissionais de toda a Espanha. É uma mecha, sim, um rastilho de esperança numa acção conjunta e solidária que nos recorde que todos, na estreita esfera de intervenção que nos toque, podemos opor-nos às injustiças do mundo.

Os serralheiros de Pamplona e os colegas que a eles se juntaram já não são executores da lei. São gente que pensa e actua de acordo com a sua consciência, e se recusa a colaborar com o que crê iníquo, ainda que venha selado com o carimbo da legalidade. Logo hoje, dia em que Martin Luther King poderia cumprir 84 anos de vida, vem a propósito lembrar essa suas palavras, que foram também rastilho: “Temos a responsabilidade moral de desobedecer às leis injustas”.

Comments

  1. Exemplar!

  2. Quem não tem a bomba atómica pode acender rastilhos. Que são muitos e conduzem aonde não se sabe.

  3. hipoteca |é|
    s. f.
    1. Sujeição de uma propriedade ao pagamento de uma dívida.
    2. Dívida segura com hipoteca.

    Ou seja, uma hipoteca é um empréstimo onde a garantia é uma propriedade, um imóvel. No entanto em Portugal e pelos vistos em Espanha é um bocado mais que isso. Se por qualquer erro de avaliação o valor do imóvel for menor do que o valor em dívida, o devedor é obrigado a continuar a pagar a diferença ao banco até a dívida estar completamente saldada. Isto torna o negócio de emprestar dinheiro para crédito à habitação um negócio, efectivamente, sem risco. Este é o capitalismo dos fdp dos bancos e respectivos fantoches no governo.

    Por exemplo, nos EUA, é um acontecimento relativamente normal entregar a casa aos bancos, isto costuma acontecer se o valor de mercado do imóvel for inferior ao valor em dívida. Nesse caso não faz sentido continuar a pagar por qualquer coisa que está disponível no mercado por um valor mais baixo.

    Isto tem outra função. Devolve o capital ao mercado. Assim o dinheiro não fica amarrado aos imóveis como acontece em Portugal.

    Quanto aos bancos, não morrem por causa disso, este é apenas um risco de se fazer negócio.

    Esta história toda ainda tem um aspecto altamente subversivo. Os bancos sobre-avaliaram de forma grotesca o imobiliário em Portugal. Isto foi-lhe altamente conveniente dado que produz balanços muito interessantes, gera bónus aos responsáveis e faz aumentar o preço das acções. Ou seja, os bancos foram irresponsáveis (juntamente com os governos e entidades de supervisão) contriuindo para a destruição da nossa economia.

    Ou seja, business as usual

    • Os BANCOS mandam no SISTEMA e como tal fazem o que bem lhes apetece e dá na Real gana! Sobre-avaliam antes de conceder o empréstimo, e logicamente, sub-avaliam na avaliação que efectuam antes de executar a penhora! Bem bom…

      • Exacto. Os bancos são mágicos. Também fazem aumentos de capital contraindo empréstimos. Alguém me explica como isto funciona?

        • É simples! Como é o Escravo Tuga o fiador dos empréstimos está tudo bem… A origem do dinheiro pouco importa e provavelmente se estivermos a falar de um aumento de capital com base em emissão de novas acções, por incorporações de reservas não é de certeza, as mesmas serão do tipo SLN (que eles chamam de “acções especiais”) mas ao contrário! Valem muito agora, quando o Tuga for vender valem pouco 😆 😆 😆

  4. Pois temos. Todos somos responsáveis e podemos fazer alguma coisa. Pelo menos, falar mesmo que nos queiram calar. E tu falas que te fartas e sempre muito bem. Por mim, punha-te em Destaque todos os dias.

  5. Ora aqui está um belo exemplo… Estes Escravos Modernos estão dispostos a PERDER algo, neste caso algo que está no topo da lista dos nossos Interesses: DINHEIRO! E tudo feito com um objectivo…

  6. mcgs07 says:

    Por cá a avaliação das finanças ajuda à festa. No entanto, os casos já julgados criaram precedentes, julgo eu, pois houve juízes que deram a dívida por extinta desde o momento em que a casa voltou à propriedade plena do banco.

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