Hoje regressei ao mercado

No Bolhão, era dia de amolador de facas e tesouras. Foi um dos sons da cidade durante muitos anos, a gaita do amolador. Chegava à cidade à quarta ou à quinta, vindo de alguma vila do interior, e as donas de casa faziam bicha à porta para entregar-lhe as tesouras da costura, a faca de arranjar o peixe, a lâmina da barba dos maridos ou dos sogros. O amolador já não deve ser o mesmo mas voltou a ter gente à porta, sinal de que já se afiam outra vez as lâminas.

No piso de cima, para quem entra pela porta de Fernandes Tomás, estão as vendedeiras de hortaliças. Nabo, couve-galega, lombarda, brócolos, penca, coração, acelga, pés de salsa. E pimento, chuchu, alho-francês, cebola, cenoura, curgete. E sacos de feijão: amarelo, catarino, canário, moleiro, fradinho, rajado. Muita variedade e poucos fregueses. Tudo cheira a humidade, a tinta das paredes descascou, podiam crescer cogumelos naquele recanto mais escuro. As vendedeiras estão sentadas entre caixotes, com as mãos escondidas debaixo dos aventais. De Outubro a Março passam o dia cheias de frio. Trazem camadas de roupa, calças justas, saias, camisolas, xailes, um avental rendado, outro de pano mais grosseiro por cima, meias grossas dentro das socas. Basta-lhes olhar quem se aproxima para saber se vale a pena levantar-se. Uma corta à conversa às outras com a frase que corta todas as conversas. “Não há dinheiro, é o que é”.

Tenho que voltar atrás porque o corredor está vedado. Não há dinheiro para as obras. Há andaimes, é certo, mas parecem servir unicamente para escorar as paredes. Para isso e para varandim de pombas. Pesadas e sonolentas, dormitam pousadas sobre os ferros e pouco se importam com os turistas que se aproximam.

Os telhados estão cobertos por lonas, os corredores entre bancas estão tapados por lonas, as bancas mais expostas ao frio e à chuva estão tapadas por lonas. No piso de baixo, ziguezagueia-se pelos corredores entre bancas, para escapar aos pingos grossos que se escapam por entre as lonas. Os gatos espreguiçam-se lá em cima, empoleirados nos ferros, caminham sobre os plásticos. Se calhassem de pisar os charcos sobre as lonas (mas isso nunca acontece) cairia um jorro de água sobre a cabeça de quem fosse a passar.

Tudo parece improvisado, como se tivessem sido os vendedores a ocupar um espaço que se destinava a outra coisa qualquer. Foram convertidos em feirantes ilegais, vestidos para a intempérie, capas de chuva, agasalhos. Este não é um mercado, é uma feira, provisória, semi-clandestina, a qualquer momento cerra-se a banca e desata-se a correr porta fora, como as vendedeiras de meias e collants de Santa Catarina, que estão sempre preparadas para fugir à polícia.

Ninguém compra queijo terrincho, nem o de cabra transmontano, nem o amanteigado de Nelas. Nem peixe fresco, marmotinha de rabo na boca, chicharro, polvo. Nem saquinhos de caril, colorau, piripiri, açafrão, nem chá de cidreira, erva-lúcia, mistura de barbas de milho, raiz de morango e pés de cereja.

Num dia como hoje, ninguém parece querer estar aqui. Nem os turistas assombrados com as ruínas, nem os vendedores transidos de frio, nem eu que saio com um molho de gerbérias e não era dessas que vinha à procura.

Comments


  1. gerbérias? aquele malmequer pintado que nem quer nem deixa de querer?


  2. Excelente retrato de um pedaço da vida urbana do Burgo. O seu homónimo, o restaurante ao Bonjardim, está fechado há anos, as pedras já não roubam ais, os americanos do jantar a 11 de Setembro já não podem beber ali o choque da manhã, os aviões, o horror, desfeitos em copos de trincadeira e malvasia.
    Obrigado, Carla, por estas lembranças que me trouxe, eu que já só passo por aí em peregrinação de fim-de-semana, quando não resisto ao chamamento e galgo os cinquenta quilómetros que do Porto dista Braga. À procura de rever tanta coisa, até uma francesinha.

    • Carla Romualdo says:

      há aí uma história, Armindo, fico à espera de lê-la


      • Tantas histórias, estórias que fazem a minha história.
        E há, também, a preguiça, a mãe de todos os vícios. Tentei ensinar aos meus vícios, desde logo o de escrever, que, por princípio e educação, se deve obedecer às mães. Por vezes, no entanto, como todos fazemos, apanhamos a mãe a dormir, ou distraída, e desobedecemos… É quando deixamos que a inspiração nos guie! Sem pecado e sem perdão.
        Um dia destes, quem sabe, peco!

  3. Sarah Adamopoulos says:

    Carla, por vezes também regresso aos mercados, na verdade a qualquer um, sou uma pessoa do século XX que gosta de fazer compras nos mercados. A maior parte das vezes saio dos mercados triste da vida. Os vendedores andam para lá cheios de problemas, esquecidos dos burocratas de gravata que tomaram decisões por eles, perderam a alegria de viver, e sim, reparei que noutros mercados para além do Bolhão (amo esse velho mercado carago!) rapam frio e têm parcas condições. Pergunto-me como será ir aos mercados para os nossos governantes, mas imagino que seja uma ideia apenas, distante da realidade (que também é uma ideia, mas com pessoas lá dentro) dos mercados onde se vendem flores e marmotinha de rabo na boca (nós dizemos pescadinha no Sul, deve ser o mesmo peixe)

    • Carla Romualdo says:

      Na minha infância (caramba, não vai assim há tantos anos!) ir ao Bolhão era uma festa e não era só porque eram os meus olhos deslumbrados de miúda que viam assim o mercado. Havia vida, bulício, alegria. Não tenho visto isso nos últimos anos e parece-me que cada dia é pior. É certo que a degradação que o mercado sofreu nos últimos anos também não ajuda, mas é uma consequência da miopia acentuadíssima da autarquia da minha cidade.
      É verdade, parece que vocês chamam pescadinha à marmotinha, que raio de ideia


    • Não, não, vocês é que chamam marmotinha à pescadinha, que raio de ideia.

      • Maquiavel says:

        Com a breca, “pescadinha” ou “marmota”.
        Marmotinha seria uma… pescadinhinha! 😀

        Pois é, eu ainda sou do tempo em que ia a Santarém com a minha avó, e passávamos pelo lindo Mercado Municipal (que deveria ser Património Nacional) que fervilhava de vida.
        Continua lindo por fora (e por dentro), mas lá dentro é que quase näo há movimento. O que é pena, porque os legumes frescos säo muito, muito melhores que os do hiper, mas o hiper está a 1km e tem mais coisas.


  4. Já ta roubei para a minha página do facebook. Porque sim, como sempre, e hoje por uma frase especial cheia da tua inteligente subtileza. Quando esse contrato de exclusividade acabar…

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