Horários dos Professores e as verdades de Nuno Crato

O relatório do Governo (mais conhecido por relatório do FMI), por sinal traduzido para Português nesta casa, abriu o debate.

Apesar de continuar a pensar que este não é o momento, parece-me oportuno, pelo menos, pensar alto.

Falo sobre o, mais que provável, despedimento de professores. Nuno Crato continua a afirmar que isso não está nos seus planos, mas a realidade trata de mostrar, a cada dia que passa, a veracidade das suas declarações.

Hoje foram divulgados os números do desemprego (pdf). Depois dos quadros superiores da Administração Pública, os Professores são o grupo profissional com maior crescimento na variação homóloga (o desemprego cresceu quase 80%).

As palavras de Nuno Crato são o que são, mas o pânico continua instalado e já se fala de tudo, até do fim do mundo e às vezes penso que aquela besta do banco até terá razão: aguentam, então não aguentam!

E o que temos em cima da mesa é o medo que se gerou com a possível / provável alteração do horário de trabalho dos Professores. Formalmente, os Professores trabalham 35h por semana. Este valor será real em muitos momentos, pecará por defeito em grande parte do ano e, claro, é um excesso em alguns momentos.

Retirando a dimensão sazonal do trabalho e excluindo as diferenças que cada sector ou disciplina podem acrescentar a esta questão, o horário está dividido em duas grandes partes – a componente lectiva e a componente não lectiva.

O Estatuto da Carreira Docente  define mal o que é  trabalho lectivo e trabalho não lectivo. Este tem sido um dos grandes problemas dos professores até porque uma parte significativa dos Directores continua a fazer mais do que deve. Teoricamente, serviço lectivo é tudo o que se relaciona directamente com os alunos e o trabalho não lectivo o resto. Acontece que serviços como, preparação dos alunos para exames ou aulas de apoio são, em muitos casos, não lectivos. Uma confusão que importa esclarecer quanto antes – será que a secção sindical do MEC poderá dar aqui uma ajudinha?

De um modo ou de outro, todos os docentes têm, a correr bem, 26h /semana marcadas no horário, existindo ainda uma outra parte, estupidamente significativa, que são as reuniões e o trabalho burocrático.

Depois disto tudo ficam duas dimensões cruciais do trabalho docente: o antes e o depois de cada aula. E é aqui que está a questão central – o trabalho lectivo ( o que realmente é feito com os alunos em contexto de sala de aula) não pode ser bem feito com tão pouco tempo disponível para o preparar e para o avaliar.

A questão não está em saber se vamos ou não trabalhar mais –  como as coisas estão até acredito que o pessoal está por tudo! O ponto não é esse!

Se eu tiver uma aula para dar amanhã e não tiver tempo para a preparar, ela vai acontecer na mesma – será uma aula com a qualidade que os alunos exigem?

Se eu não tiver tempo para fazer o registo e a avaliação do que se passa em cada aula, vou ter que centrar a minha avaliação nos testes, ignorando o que a Lei me exige. Trabalhos de grupo, expressões artísticas, participações orais, ou outro tipo de dimensões terão que ser ignoradas. Será isto o trabalho que se exige a um Professor?

Tenho algumas dúvidas. Dirão alguns que a experiência ajuda a resolver esta questão. Talvez, mas, nem sempre, nem nunca.

Poderão até pensar que estou para aqui a encontrar argumentos para defender o emprego. Sim, confesso. Estou.
Mas o que está em cima da mesa é muito pior que isso. É a qualidade do trabalho que se faz com os alunos que vai desaparecer. E isso, caros leitores, não podemos aceitar.

Não será por acaso que somos dos Docentes, que em toda a Europa, passam mais tempo na Escola.

Comments

  1. Raul Silva says:

    Já tenho defendido essa posição. Quando desvalorizamos o período da componente pessoal dos docentes estamos a desvalorizar aquilo que é mais importante que é o trabalho com os alunos. Se acharmos que podemos dar aulas no dia seguinte a uma reunião de três horas significa podemos dar aulas sem as termos preparado e não é possível fazê-lo com qualidade.

  2. antonio cristovao says:

    parece-me descortinar um paralelo com a (agora se ve bem como criminosa) congelamento das rendas. Soube bem ter as rendas administrativamente paradas =casas degradadas+ senhorios miseraveis. Agora se aplicarem o que se propoe vamos ter milhares de pessoas na rua. Tudo o que e artificialmente regulado (o meu filho com mais oito colegas tinha dois professores na sala) vai dar drama – e sempre no pior crise. – como agora!! -ha anos talvez se arranjasse emprego?


    • Meu caro António, obrigado por ter comentado. Percebo a comparação, mas não se trata de regular artificialmente. O ponto não é esse: a questão é que se aguenta – não tenha dúvidas. Se for para dar até 40 horas só de aulas, o povo dá! Não é esse o ponto. A questão é: o que se faz nessa aula, percebe. Imagine que tem de “dar” uma aula amanhã sobre um tema que domina, vai, fala e está feito. Mas, “preparar” uma aula é muito mais que isso, é mais, muito mais do que “falar de um assunto”, até porque, em boa parte dos casos, trata-se de tentar dar de beber a quem não tem sede e isso, meu caro, exige preparação. E, sem tempo, o que fica para trás é isso, é a qualidade.
      JP

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