O cineasta e o imperador

Quando o imperador Francisco José I, que esteve 68 anos a liderar o Império Austro-Húngaro, morreu, em 1916, um cidadão vienense chamado Maximilian quis que o seu filho Billie, então com 10 anos, aproveitasse a oportunidade de assistir a um momento histórico. Bom conhecedor de Viena, escolheu o café Edison, subiu à sala do segundo andar, e instalou o filho em cima de uma mesa junto à janela para que ele tivesse uma vista privilegiada do cortejo fúnebre.

– Vais lembrar-te deste dia toda a tua vida, Billie – profetizou.

O miúdo ficou a olhar a lentíssima peregrinação de gente vestida de negro. A carruagem com o caixão era puxada por cavalos negros. Os homens vestiam fatos negros e negros eram também os uniformes dos oficiais. Entre as mulheres, não havia vestidos de outra cor, e negros eram igualmente os chapéus, as luvas e os véus.  O negrume e o silêncio absoluto impressionaram Billie.

Foi então que na procissão apareceu um rapaz, de quatro ou cinco anos, todo vestido de branco, com o uniforme dos Hussardos e um capacete branco e reluzente, encimado por uma pluma branca.

Era o príncipe herdeiro do império Austro-Húngaro, Otto de Habsburgo.  Billie não pôde deixar de invejá-lo e de sentir-se insignificante ao lado daquele rapazinho que haveria de herdar o império. Como seria nascer num palácio, não ter de enfrentar as dificuldades com que a família de Billie se debatia, ser educado para vir a governar boa parte do mundo? Por instantes, imaginou-se a si mesmo no lugar do príncipe, avançando, solene e digno, ante os olhos dos seus súbditos. Mas a ilusão durou pouco e logo voltou a ser quem era, o miúdo judeu, magricela e ágil, que brincava na rua e para quem o mundo havia reservado um futuro banal, o anonimato das pessoas comuns.

O pai apontou para o príncipe e murmurou ao ouvido de Billie:

– Um dia hás-de estar com o teu filho a ver passar o desfile real e aquele rapazinho será o teu imperador.

No que respeita a essa profecia, Maximilian não podia estar mais errado. Otto nunca chegou a ser imperador, porque o império, sólido e imutável como parecia nos inícios do século XX, desmoronou-se em 1918. Billie sobreviveu à guerra e à penúria, escapou-se para a louca Berlim do final da década de 1920 e daí teria que fugir, primeiro para Paris, depois para os EUA, quando Hitler ascendeu ao poder. A sua família ficou na Áustria e foi assassinada num campo de concentração.

Seria pouco provável que as vidas de Billie e Otto voltassem a cruzar-se, mas não há nada mais improvável do que a realidade.

Em 1941, Billie mudara o nome para Billy e tinha-se tornado um guionista de sucesso em Hollywood, já com uma nomeação para um Óscar com o guião para Ninotchka. Em breve começaria a assumir a realização dos filmes que escrevia e tornar-se-ia no lendário cineasta Billy Wilder. Nesse dia, estava ele numa pausa para almoço nos estúdios da Paramount, quando foram anunciar-lhe que estava lá um compatriota seu. Billy aceitou recebê-lo enquanto jogava scrabble com os colegas, um passatempo que o ajudava a melhorar o seu vocabulário em inglês. Billy considerava-se fundamentalmente um escritor e lutava com a necessidade de ganhar domínio sobre um idioma que aprendera já em adulto. O funcionário do estúdio regressou pouco tempo depois, com o visitante austríaco.

– Billy, apresento-te o senhor Otto von Habsburg.

Já não era o rapazinho de uniforme branco resplandecente, mas um homem de fato cinzento e cabelo ralo. Estava nos EUA para uma série de conferências universitárias.  Billy, obrigado a arranjar assunto para uma conversa improvável, evocou a vida em Viena no início do século, mas as suas memórias do «Hungerwinter», o período durante a guerra em que ele e outras crianças passavam horas infindáveis nas filas de racionamento para conseguir meia dúzia de batatas, não eram exactamente as mesmas que Otto guardava dessa época. De qualquer forma, não era sobre Viena que Otto queria falar, mas sim sobre Hollywood. Queria saber histórias de algumas das vedetas que Billy conhecia de perto e queria oferecer-se como consultor caso os estúdios estivessem interessados em produzir filmes sobre o Império Austro-Húngaro e precisassem de um especialista na matéria.

Não sobrou muito mais do encontro e Otto não chegou a ser chamado como consultor.

Maximilian Wilder sabia que estava a dar uma importante lição de vida ao filho quando lhe mostrou o futuro rosto do império Austro-Húngaro, mas a lição não foi exactamente a que ele esperava. Vinte e cinco anos depois do dia do cortejo fúnebre, os dois homens estavam frente a frente com o que tinham conseguido salvar de um mundo que ruíra. Tinham ambos aprendido que nada dura para sempre.

(Roubei esta história, embora a tenha recontado, a Nobody’s Perfect – Billy Wilder, a Personal Biography, de Charlotte Chandler, uma biografia pouco esforçada mas que vale pelo biografado).

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