Construção embargada

“Os portugueses sentem-se pouco europeus”, leio por aí. Olha que novidade. Os portugueses nunca se sentiram verdadeiramente europeus por todas as razões que os separam desse povo imaginado, indistinto e vago, constituído por gente culturalmente muito diversa entre si, cidadãos de um império alargado em combinações possíveis. Os portugueses são um povo demasiado (ou suficientemente, conforme a perspectiva) ancorado materialmente na sua identidade (na sua terra concreta, a que sempre regressam, propulsados pela saudade) para conseguirem projectar-se numa utopia a que a realidade tem conferido crescente distância.

Nenhum problema terão os portugueses com as utopias em si, isso para eles é natural, mas preferem-nas realizáveis, com capacidade de materialização, ‘construíveis’, pois os portugueses são vocacionados para a construção – vem-lhes da terra esse desejo de fixar as pedras no território, nasce com eles para que realizem na Terra esse desejo de sobreposição de elementos que se elevam em direcção ao Altíssimo (a quem os portugueses veneram mesmo quando não são sobejamente católicos). São conhecidas as casas portuguesas. Das igrejas nem vale a pena falar: santuários de riquezas e de ídolos.

A questão é que essa utopia se mostrou incapaz de se transformar em algo que os portugueses possam cabalmente verificar, inscrevendo na realidade das suas vidas, com positivismo português, essa segunda natureza – que nem os conservantes da troika nem os corantes biológicos de Bruxelas puderam tornar menos artificial. Os portugueses, que são uma gente paradoxal – a um tempo terra-a-terra, telúricos, solares de solo e de sol, e poetas, com saudades até mesmo do Futuro -, aceitaram sonhar com os outros (ninguém sabe ao certo o quê, mas fizeram-no com o coração – com o coração português). Porém, passada uma catrefada de anos, os portugueses não viram neles nascer esses europeus. Continuam só portugueses, embora com cada vez maiores dificuldades.

A única coisa que terão visto, ou talvez só vislumbrado (e não é de há muito, porque se deitaram a sonhar sabe Deus o quê mas jamais o confessará), enquanto seguiam com doentio afã a Casa dos Segredos, foram os excedentes agrícolas e financeiros que os adormeceram de súbitos confortos.  E foi assim que gente no entanto pouco atreita a futuros incertos foi subita e brutalmente acordada pelas sirenes do Império em ruína iminente. Haverá empreitada de restauro que salve os europeus do desmoronamento? É que nisso os portugueses podiam ajudar, assim alguém os representasse nessa justa pretensão.

E será justamente nessa participação que tudo poderá jogar-se em matéria de europeísmo (qualquer que possa ser a forma de tal federação), no exacto momento em que os partidos políticos ou se renovam a partir de dentro (abrindo-se à pluralidade e abrindo mão das lógicas e formas endémicas geradas pelos seus aparelhos) ou dificilmente poderão participar (e é esta a palavra que está no coração da política do Futuro próximo) nas sociedades vindouras em que porventura os europeus possam enfim emergir.

Comments

  1. joao riqueto says:

    E edificado muitas vezes identificado de uma maneira que não faz sentido. Por exemplo, Lisboa regista cada vez mais turistas, anda nas bocas do mundo, veja-se a revista The Economist de 25 de Fevereiro e as referências que faz ao Chafariz d’el Rey e a Alfama em particular. Pois bem, ali ao lado na freguesia de São Vivente há um local que dá pelo nome de; Jardim das Pichas Murchas.

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