Rio contra as paredes insurrectas

Há uma proximidade que quase roça o erotismo entre autarcas com tiques autoritários e paredes brancas. Brancas, impolutas, imaculadas, inexpressivas, em silêncio. Paredes ordeiras, sem cartazes nem grafitis. Eles anseiam pelas paredes brancas com um ardor voluptuoso, quase fetichista, e parecem dispostos a qualquer sacrifício para alcançá-las, ainda que seja tão efémero o tempo que lhes é concedido para que estejam juntos.

Rui Rio, a minha bête noir, juntou, aqui há dias, funcionários da câmara, estudantes da Universidade Lusófona e beneficiários do Rendimento Social de Inserção para, numa algazarra de baldes, vassouras e imprensa local e municipalizada, dar início a mais uma etapa da cruzada contra as paredes insurrectas.

Juntou esta insólita brigada e liderou-a pelas ruas mais problemáticas, apontando-lhes o que havia que apagar. Na luminosa manhã de faxina ergueu-se a voar, à roda das paredes conspurcadas voou três vezes, voou três vezes a chiar, e disse:

“Numa altura em que temos cada vez mais turistas no Porto e em que o turismo é fundamental para a nossa economia, é nossa obrigação ter a cidade apresentável”.

E afiançou que se os 150 mil euros orçamentados para limpar as paredes em 2013 não chegarem, “não será por causa disso que as paredes ficarão por limpar”. Ardemos, certamente, todos de curiosidade (eu ardo, pronto) em saber como é que uma Câmara tão poupada desenrascará a verba para a limpeza. Contará com o trabalho voluntário da rapaziada da Lusófona? Ou será o dos mandriões do RSI? Ou serão os sete funcionários de que a Câmara dispõe para esta tarefa que serão chamados a fazer horas extras?

Entretanto, a propaganda institucional está nos mesmos sítios – nos cartazes, outdoors,  mupis, nos painéis digitais -, os cartazes publicitários estão por todo o lado, e tampouco se calou aquela revista panfletária da autarquia, que nos despejam na caixa do correio todos os meses, mesmo que lá esteja o autocolante da publicidade não desejada, e que conta, em cada página, as façanhas do herói Rio na sua cruzada contra o mundo que pensa diferente dele.

A cruzada contra as paredes há-de acabar sempre em rios de água e tinta desperdiçados, já para não falar do esforço de voluntários e recrutados. É que as paredes aparecem pintadas e as ruas amanhecem com cartazes porque ainda há gente que precisa de dizer coisas numa cidade dominada por um executivo autárquico que abafa e reprime qualquer tentativa de expressão livre e desalinhada do poder local.

As pessoas ainda têm coisas para dizer – gritos de indignação, propostas, inquietações – e, enquanto não tomarem outros espaços para si, continuarão a desassossegar os muros e a habitar as paredes, que são sítios por vezes inóspitos mas onde ainda se pode gritar.

Comments

  1. Amadeu says:

    Excelente a caracterização do fetiche erótico do Rio Fã De Popós.

  2. Konigvs says:

    O Porto é cada vez mais, e graças a Pedras Rubras, um destino muito pretendido, e talvez tenha sido por isso que em 2012 foi considerado o meu destino europeu.
    Contudo muito se podia e deveria fazer para melhorar a cidade, se calhar o principal precisa de muito tempo, que é o civismo e esse não se ensina de um dia para o outro, e na volta nem com um alfabeto russo isso lá vai.
    Depois há que saber diferenciar o que são grafitis, e a cidade tem muito poucos – um dia destes pego na bicicleta e na máquina fotográfica e vou colecionar os que encontrar – e depois diferenciar o que são os sarrabiscos que poluem as paredes por todo o lado.
    Eu vejo esses sarrabiscos como aqueles putos que tinham a mania de riscar as mesas da escola, ou então outros que tinham a mania de colar a pastilha elástica por baixo da mesa, umas por cima das outras, mas não lhes chamem também “esculturas” ok?!
    Os sarrabiscos nas paredes não são uma forma de manifestar indignação, esses sarrabiscos fazem parte de uma pseudo-cultura importada lá dos gangues americanos que ouvem um certo estilo musical e que sarrabiscam as paredes com pseudo assinaturas como os cães que mijam numa parede para marcar o seu território, do género, eu é que sou fixe e já pintei o sarrabisco com o nome em 50 sítios diferentes da cidade. Lá está, mais ou menos como os putos na escola que riscam as mesas onde se sentam.
    Depois há o grafiti com bom gosto, que qualquer pessoa aceita como uma forma de arte contemporânea.
    Mas eu, que não partidário do partido do Rio Rio, muito menos de direita, gosto muito dos muros imaculadamente brancos da minha casa.
    Ao menos, para já, aqui na aldeia, os putos insurretos, os tais que riscam as mesas da escola, só gostam de sarrabiscar as paragens das camionetas. Felizmente.


    • será preciso criar um comité para decidir o que é o “grafiti com bom gosto”. A câmara do Porto até agora ainda não encontrou nenhum, mas lá está: são gostos

      • Maquiavel says:

        Näo é preciso criar comités nenhuns.
        E sarrabiscos (na gíria dos meninos sarrabiscadores, um tag, que “etiqueta” näo é cool) näo säo “gritos de indignação, propostas, inquietações”, säo mijadelas de cäo ou riscos nas carteiras da escola MESMO. Querem gritar o próprio “nome de guerra”? Ide para a lezíria e deixem de emporcalhar as paredes!
        Gosto de ver “grafitis” que são “gritos de indignação, propostas, inquietações”, como gosto de ver outras obras de arte, mas abomino os sarrabiscos imberbes, como abomino cagadelas.

        • Amadeu says:

          Quem não tem outro modo de dizer estou aqui, sarrabisca …
          E caga em cima dos que não se cagam.

          • Miguel Pa says:

            Para quem tanto condena os sarrabiscos e eleva ” a obra de arte”.
            Primeiro: O que é arte? Para quem estudou arte, como eu, sabe bem o que quero dizer com esta questão, já que é recorrente e sem fórmula como resposta.
            Segundo, quem adora os grafittis, como tantos aqui o dizem, têm completa falta de conhecimento da cultura, para falarem dos outros sarrabiscos. E não esquecer que é nos sarrabiscos que começam as obras de arte.
            Para terminar, adoro como o povinho português foge à questão fulcral com argumentos mediocres e sem sentido. Quando se fala em repressão, que já senti na pele e talvez o problema é que está tudo em casa sentadinho no sofá e por isso não a sentem, e quando a vêem, como é o caso exposto neste texto, fingem não ver e tentam levar a questão para outras coisas pequenas. Qualquer repressão deve sempre ser mais combatida e discutida e divulgada que os sarrabiscos dos adolescentes que estão a crescer e se exprimem, seja de que forma fôr, gostando eu mais ou menos. E são esses adolescentes e sarrabisacadores que mais combatem essa repressão e que mais se indignam, basta perceber um bocadinho pequenino sobre a cultura hip-hop.
            Pena que ao entrarem na faculdade, alguns se fiquem pela “vidinha”, conformismo, capas pretas, humilhação / praxe, bebedeiras e conhecimento puramente académico sem mais nada saberem que não seja o que lhes metem na cabeça sobre o seu curso. Tipo rio.

          • Maquiavel says:

            Suponho que queimar bancos de jardim é “instalaçäo interactiva de arte”, e os escritos nas paredes de casas-de-banho (lembro o tradicional “FILHO DA PUTA QUEM LER ISTO”) säo obras literárias, verdade?
            Säo täo arte como… hip-hop é música! Por acaso pichagens combina bem com hip-hop, ambos execráveis.
            Haja paciência!

    • siker says:

      meu caro …..graffiti não e arte ponto….não vamos misturar as aguas ….graffiti é pintar para ti para a tua crew e para quem pinta….agora street art e outra cena…..agora a puta da coca cola tbm e importada e tu bebes não bebes????ou então deves de andar a ver novelas brasileiras ai na aldeia e importado e tu vez….. Miguel tens toda a razão…. Maquiavel pensas ser o 2pac???Hip Hop e cultura, rap e musica,bem não deve ser pois se o graffiti e sarrabisco e e uma merda e Picasso fazia um sarrabisco e é arte então rap e lixo sonoro e musica pimba e património cultural…

  3. Paulo says:

    cara Carla, um dia desafio-a a pousar o Roland Barthes e convido-a para dar uma volta pela Bica, Santos, Santa Catarina que conheço:
    http://cidadanialx.blogspot.pt/2013/03/lisboa-capital-mundial-do-grafitti.html

  4. maria teresa says:

    o rui rio está tão preocupado com as aparências, que deita abaixo bairros inteiros se estes derem mau aspecto às vistas do douro, por onde passam os turistas com máquinas fotográficas e cartão de crédito – e se por acaso puder ganhar ali uns terrenos para uns belos condomínios fechados, onde o turista se instale, por que não aproveitar? o que ele queria no fundo era desfazer-se dos pobres do porto que se vestem mal e infectam o olhar dos senhores turistas. gostava era de desocupar ali os bairros históricos e doá-los a pessoas com gosto, mesmo que não percebessem nada de vizinhança, da comunidade e das festas que se vão fazendo aos santos. o porto assim limpinho é que era! – mesmo e sobretudo se, com tanta limpeza, desaparecesse de vez a cidade, finalmente vencida, devoluta. de fachadas percebe bem o rui rio.

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