Não há tradução para português e não se fala mais nisso

De vez em quando, tão certo como dois e dois serem quatro, aparecem as objecções à TRR, emerge a enigmática figura da letra C em aflição e em aflito, projecta-se o espectro da corrente mais extremada do “anti-AO” (*) e intervêm os adeptos do “não há tradução” e do “não há palavra em português”. Dizer-se “não há palavra para X em português” ou “Y é intraduzível” é, amiúde, uma forma requintada de impressionar os indígenas e de disfarçar uma momentânea preguiça ou uma quebra de ânimo, preferindo-se o impressionante requinte ao taxativo “não sei” ou aos matizados “não me lembro” e “não me ocorre”.

Confesso que não estava à espera de ler Miguel Esteves Cardoso a achar que não há tradução para termo tão prosaico como fairness (felizmente, apesar de utilizar o termo propinas em inglês, Esteves Cardoso não o remeteu para o catálogo da intraduzibilidade). Por exemplo, há uns anos, depois de quatro shallows, Vasco Pulido Valente lá acabou por se lembrar de superficial. Esqueceu-se foi o jornalista de lhe recordar que, afinal, sempre havia tradução. Contudo, para nosso descanso, no título da entrevista, adoptou-se a versão portuguesa.

(*) Em meu entender, José Mário Costa atribui uma imerecida relevância a inócuo artigo que escrevi no Público, em Junho de 2011 (acrescento que, na versão em linha, há dois parágrafos, nos quais discorro acerca da introdução de 1949 do Was ist Metaphysik?, de Heidegger, escrito vinte anos antes). Aliás, certamente por lapso ou distracção (o depoimento tem vinte e seis notas), José Mário Costa esqueceu-se de indicar o artigo. Felizmente, o artigo, aludido, mas não referido, decerto por lapso ou distracção de José Mário Costa, pode ser encontrado através do Google. Basta procurar “greve na CP para comboios em todo o país” e aparecem quer a notícia, quer o artigo, quer a alusão sem referência de José Mário Costa.

Actualização (08/10/2013): Hiperligação em “não sei”.

babel bruegel viena

http://www.wga.hu/frames-e.html?/html/b/bruegel/pieter_e/06/01babel.html

Comments


  1. Na ligação do ILC estava esta palavra: aleuantando. O que quer dizer?


  2. A ligação do público só está disponível para quem paga a mensalidade.

  3. Sarisa says:

    O último grito da moda é não traduzir as coisas do inglês, usá-las mesmo assim. Não é preciso justificar com preguiça, porque não é. É só mesmo porque é “fashion“ entre os “sheeps“.

Trackbacks


  1. […] eventual distracção da minha parte, ‘fairness’ e ‘shallow’ continuam a não constar de qualquer Wörterbuch des Unübersetzbaren / Dictionnaire des […]

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