Extinções

Esta frase de um leitor num comentário a este poste

…quando era criança era muito comum ver joaninhas em todo o sítio, hoje em dia são cada vez mais raras…

fez-me fazer um exercício de memória.

Tenho cinquenta e dois anos, nasci em Angola, vim para Portugal com quase quinze, há trinta e sete anos, portando. Sem nenhuma pretensão científica e não sendo exaustivo, dei por mim a pensar nas extinções a que assisti – aqui a palavra é utilizada de forma pouco exacta, sendo que chamo extinção ao (quase) desaparecimento de certas espécies de determinados locais.

Um dos primeiros insectos que me maravilhou em Portugal foram os pirilampos. Lembro-me deles às centenas, à noite, piscando nos campos. Há anos que não vejo um único pirilampo nos mesmos campos. O que se passou? Não sei, sei que as crianças os apanhavam às dezenas para brincar, mas imagino que sempre tenham feito o mesmo ao longo de gerações.

Também gostava de lagartixas. Bastava haver umas pedras, umas ervas e um raio de sol, e lá estava uma lagartixa. Agora vou vendo uma ou outra, cada vez mais raramente. Com as centopeias ou as salamandras, idem.

Um petisco muito comum, suponho que também ao longo de gerações, era passarinhos fritos. Havia-os das mais variadas espécies, piscos, tordos, rouxinóis, pardais, bicos-de-lacre, calhandras, carriças, chapins, pintarroxos, eu sei lá. Hoje, que quase não são usados na alimentação humana (logo, era de esperar haver mais) algumas destas espécies tornaram-se verdadeiras raridades (também se dá o fenómeno oposto com outras espécies, não me lembro de ver tantas pegas-azuis como actualmente).

No sul de Portugal era normal ver-se ouriços cacheiros, sobretudo à noite. Muitos, infelizmente, apareciam mortos junto às estradas secundárias. Há muito que não vejo um ouriço vivo e, mesmo cadáveres junto a estradas, vejo cada vez menos. O mesmo para cobras e sapos, anteriormente fáceis de encontrar.

No Algarve , há uns trinta anos, havia uns lagartos fantásticos (lembro-me especialmente deles na zona da Boca-do-Rio, perto da Praia da Salema), coloridos, com tons verdes, vermelhos, azuis e amarelos, deviam atingir vinte e cinco a trinta centímetros de comprimento. Nunca mais vi nenhum. Nesta região, também o lagarto-de-água se tornou menos visível, assim como o belíssimo camaleão que proliferava no sotavento.

No mar, então, chega a ser doloroso fazer este exercício de memória. Chegava-se à beira-mar e havia caranguejos correndo sobre a areia. Havendo umas pedras nas proximidades, era seguro encontrar lapas e caranguejos aninhados nos seus buracos. Arranha-camisas, caranguejos-mouros, caranguejos-violinistas, são vistos raramente. Percorria-se algumas praias de areia e deparava-se facilmente com buracos de lingueirão.

Quando a maré vazava um pouco mais do que o habitual, normalmente por volta da lua cheia, e deixava rochas a descoberto na areia, era banal encontrar navalheiras, alguma santola, um ou outro polvo que se deixara ficar à espera da maré cheia.

Os buracos no meio das rochas, aqueles que mantinham sempre uma quantidade razoável de água, eram de uma riqueza espectacular: anémonas verdes e roxas, com tentáculos longos ou curtos, ouriços do mar, casas-de-aluguer ou bernardos-ermita, lesmas marinhas, caranguejos, alguns peixes como cabozes, budiões, taralhetes, por vezes uma bruxa perdida ou um pequeno polvo.

Junto à babuja era frequente encontrar cachos de ovos de choco. Quem procurasse conchinhas e búzios encontrava uma infinidade de espécies minúsculas, beijinhos, orelhas do mar, troques, vieirinhas e tantas outras cujos nomes não me lembro. Tentem apanhá-las agora…

Em qualquer estuário era frequente apreciar liças e juvenis de várias espécies, sarguetes, sargos-veado, safias, robaletes, chocos, às vezes uma moreia ou um safio mudando-se de um buraco para outro. De peixes, junto à costa, quase não vale a pena falar: meros, corvinas, anchovas, bailas, avárias e, até mesmo, sargos e liças, foi um ar que lhes deu.

Mas na costa rochosa havia sempre, sempre, sempre, em todo o lado e cobrindo todos os materiais que passavam algum tempo dentro de água, mexilhões. Agora, quando deparo com as pedras das rias e estuários despidas de mexilhões, com os lugares onde o mar bate na rocha e lixava o mexilhão, dói-me o peito: até o mexilhão, o mais do que comum mexilhão, vai sendo difícil de encontrar.

Falo apenas de trinta e sete anos de memórias e observação, devo ter-me esquecido de muitas espécies neste texto feito agora, sobre o joelho. Este enorme empobrecimento colectivo parece comover poucos, como se tudo isto fosse dispensável e acessório. Entristece-me.

Comments

  1. palavrossavrvs says:

    Belíssimo post, muito embora perpassado de luto e perplexidade. Faço minhas as tuas observações, porque o mesmo aconteceu desaparecer-nos da vista, aqui, na minha Gaia rural-dormitório-floresta-praia.


  2. Gostei muito deste post! Fez-me voltar à infância e recordar todos os bichinhos que faziam parte dos dias inteiros de brincadeira: joaninhas, bichos-de-conta, lagartas belíssimas que logo se transformavam em borboletas, salamandras amarelas e pretas, escaravelhos, grilos, “saltões”…

    Todos eles desapareceram. O avanço do cimento armado e do betão é implacável. A chamada civilização reclama cada vez mais da Terra que é de todos, incluídos os animais e as plantas… Mais uma vez, o Homem na senda da destruição!

    • A. Pedro says:

      Os escaravelhos e os saltões, claro, Isabel. E outros de que não nos lembramos agora. Triste!

  3. Konigvs says:

    Há uns meses, em casa dos meus pais, dizia o meu tio que há mais de vinte anos que deixou de ver perdizes e que havia muitas por aqui na aldeia. Segundo ele foi de um ano para o outro, num ano ainda viu muitas, no ano seguinte como que desapareceram misteriosamente e desde então nunca mais viu mais nenhuma.
    Eu também não sou estudioso sobre o tema, muito menos sou da área, sou unicamente uma pessoa que olha para a natureza com muito respeito mas acho que quando o tema é a natureza todos deveríamos ser doutores e sem direito a equivalências.
    No ano passado recebi um casal amigo em minha casa, são do Porto, e quando lhes mostrei o que era um bicho da conta ficaram fascinados a olhar para o bichinho a enrolar-se sobre si mesmo como se lhes estivesse a mostrar algo mágico nunca antes visto.
    Hoje em dia, e mesmo nas aldeia como a que sempre vivi, as pessoas e em particular as crianças, vivem cada vez mais distanciadas da natureza, fechadas num redoma higienizada porque coitadinhas das crianças podem apanhar uma qualquer doença se estiverem em contacto com a terra. Eu andava descalço, a rua ainda era em terra batida, corríamos, andávamos pelo meio do monte, se deixávamos cair a comida ao chão, apanhávamos, dávamos um sopro e comíamos tranquilamente de novo porque o “que não mata engorda”. Hoje em dia não, há filtros para o ar, tomam-se dois e três banhos por dia, as crianças não saem fora de casa e mais parecem umas florzinhas de estufa, contudo eu não me lembro de uma única criança alérgica no meu tempo e hoje é o pão nosso de cada dia. Diz-se que são alérgicas ao pólen e aos ácaros, eu cá para mim acho que são simplesmente alérgicas à natureza. Se as fecham dentro de uma redoma, e não as deixam interagir com o mundo exterior, depois como é que se surpreendem que sejam todas alérgicas? Também uma planta que se trás de uma estufa, se não for feita a devida aclimatizarão definha e morre porque esteve ali sempre muito protegida do mundo exterior, e com as crianças é a mesma coisa.

    As cobras gozam de muita impopularidade, coisas da ignorância da religião ligadas a Satanás, e então as pessoas cismam de as matar com a enxada se passarem por elas e esquecem-se que são mais amigas que inimigas porque alimentam-se de roedores por exemplo e a maioria só quer que as deixem em paz e não são perigosas para o homem. Os sapos também. Se aparece um sapo à porta de alguém, então é provável que alguém tenha feito um feitiço!
    Até com as pobres das libelinhas imagine-se há associações ao demo e chamam-lhes tira-olhos ou precisamente “cavalinhos-do-diabo”!

    Cobras, vi duas bem de perto no ano passado, uma já grandota aqui perto de casa e ela até esperou que eu fosse a correr buscar a máquina fotográfica e lhe tirasse umas fotografias, e uma pequena juvenil a aquecer-se em cima do muro escondida por entre as sebes. Mas vão sendo cada vez mais raras, como raros são os licranços e as salamandras que me lembro de ver em pequeno. Sardão também apareceu um cá em casa no ano passado mas é raro vê-los.

    Se a rola brava quase desapareceu, a turca que nunca andou pela península ibérica , chegou (ou foi aqui libertada) instalou-se e multiplicou-se por todo o lado. Gaios e pegas também vejo agora muitos, até corvos também, e aves de rapina também as ouço e vejo lá no alto, talvez milhafres, e de vez em quando o columbófilo vizinho queixa-se que lá se foi mais um pombo à vida.

    Também eu me entristeço ao ver o cenário que se passa à minha volta, mas pergunto-me, daqui por cinquenta anos,
    aquelas crianças que hoje pensam que as galinhas são fabricadas numa loja e que nascem sem cabeça e depenadas tal e tal se vêem no talho, que muito menos sabem o que são bichos da conta e são alérgicas à natureza, de que irão elas sentir falta?

    • A. Pedro says:

      “mas pergunto-me, daqui por cinquenta anos,
      aquelas crianças que hoje pensam que as galinhas são fabricadas numa loja e que nascem sem cabeça e depenadas tal e tal se vêem no talho, que muito menos sabem o que são bichos da conta e são alérgicas à natureza, de que irão elas sentir falta?”

      Grande pergunta, grande sabedoria!


  4. Belo texto. Como o Manoel de Barros, tens um quintal maior do que o mundo.

    “Prezo insetos mais que aviões.
    Prezo a velocidade
    das tartarugas
    mais que a dos mísseis.
    Tenho em mim
    esse atraso de nascença.
    Eu fui aparelhado
    para gostar de passarinhos.
    Tenho abundância
    de ser feliz por isso.
    Meu quintal
    É maior do que o mundo.”

  5. Poraqui says:

    È Poe culpa das radiacoes que todos emitimos Mobil fhone , computer . Parece mod

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