Josefa Teixeira

«Serafim,

Eu tenho lume no olho. Tenho-te dado em muita malhoada e feito vista grossa para não dar estalada. Ora agora que andas à gandaia com as vizinhas por Penafiel, e a moura de trabalho que fique para aqui como negra ao canto da cozinha, isso é que não senhores. Vai para onde essa bigorrilha, que a seu tempo terás o pago. Eu retiro-me desta casa com o meu oiro e não te fico a dever nada. Não me procures, se não quiseres sofrer uma desfeita. Em tão bom dia que eu me vou embora! Se te esperasse em casa, punha-te essas orelhas compridas como a vista, e talvez o caso passasse a mais, e eu de todo em todo me botasse a perder contigo, que és o rebotalho dos homens!!! Por não saber ler nem escrever, pedi ao teu caixeiro António que esta por mim fizesse. Ele teve dor de mim e também me acompanhou. Adeus por secula seculorum sem fins.

Josefa Teixeira»

Ramalho Ortigão, Uma visita de Pêsames, in Histórias Cor-de-Rosa

Comments

  1. Amadeu says:

    >>>>
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não

    depois
    não te venhas queixar
    >
    Não te cures, não

    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não
    depois
    não te venhas queixar

    >>
    Tu dás ares
    de filósofo barato
    quando tu és simples

    e cheio de portantos
    Então para quê
    tanto aparato
    Não é defeito

    é feitio dizes tu
    mas sabes
    que os teus encantos
    vêm sempre à baila

    quando te põem a nu
    >>>>
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar

    não vás ao médico, não
    depois
    não te venhas queixar
    Não te cures, não

    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não
    depois
    não te venhas queixar

    >>
    Tu és o
    delicadinho da tua rua
    e também

    o complicadinho da Silva
    e andas sempre na Lua
    E à miúda
    de bochechas risonhas

    dás-lhe um sopro
    um sopro do teu ar
    depois dizes que andas
    nas lonas

    >>>>
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não

    depois
    não te venhas queixar
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar

    não vás ao médico, não
    depois
    não te venhas queixar
    >>

    Andas de café
    em café na esperança
    de encontrares
    uma boa amiga

    mas a idade já te mastiga
    Tu tens ideias
    como quase toda a gente
    e tu sonhas

    com a realidade
    e é porreiro
    esse teu ar
    sempre de contente

    >>>>
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não

    depois
    não te venhas queixar
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar

    não vás ao médico, não
    depois
    não te venhas queixar
    >>

    Acabas num copo
    na Trindade e não te topo
    a pensar
    no que já pensaste

    nas escadinhas
    do Duque
    Às duas por três
    apanhas o comboio

    para o Cacém
    ou então para Setúbal
    e é quando não se fica
    pelo Galo

    com um ganda galo
    a fumar um talo
    até apanhar
    o último estalo

    Mas não te cures, não
    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não
    depois

    não te venhas queixar
    Não te cures, não
    vais ver onde vais parar
    não vás ao médico, não

    depois…
    não te venhas…
    queixar!


  2. Que talento poético, Amadeu!
    Mestre Ortigão, grande manejador da língua portuguesa, lá onde está, deve estar roído de inveja.
    🙂

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