As sementes e a água: isto é muito grave

Conseguem imaginar o que será querer semear, mesmo que para subsistir, e as sementes da colheita de um ano serem estéreis no ano seguinte? E estar dependente da compra de sementes que grupos como a Monsanto controlam? E ser-lhe negada a venda dessas sementes?

E ter sede ao pé de um curso de água venenosa, apenas vos sobrando a alternativa de comprarem água para beber? Ou pior, existir uma enorme barragem de água potável ao vosso lado e não poderem aí matar a sede porque essa água pertence a um grupo privado?

Fica a faltar o controlo do ar, como em Total Recall. Ficção? Falassem sobre isto das sementes e da água a alguém do séc. XIX e veriam a resposta que teriam.

O que se passou nos EUA e o que se está a passar na Europa quanto a sementes, a par com a privatização da água, fará a actual guerra das dívidas parecer coisa de meninos. A fome e a sede caminham para ser a maior arma de controlo de massas que a humanidade alguma vez viu.

Comments


  1. “Felizmente” há imbecis assim que também têm (ainda) o direito a respirar gratuitamente:

  2. Amadeu says:

    Sempre que leio sobre este assunto lembro-me de um cartoon que li em miudo. O Lex Luthor aprisionou todo o ar de Metropolis numa campândula e queria obrigar os habitantes a comprá-lo. Felizmente havia o Super Homem.

    Não estamos muito longe. E não temos ninguém de Kripton para nos salvar.


  3. Quem detiver a comida e a água deterá o poder! É perigosíssimo o que se está a tentar fazer, mas infelizmente tudo aponta para que o rumo seja mesmo esse!

  4. xico says:

    Penso que na madame Tussaud ainda existe um exemplar. Se precisarem de uma pedra de amolar para o fio da lâmina, eu cedo a que tenho. Depois é só preciso olear bem.

  5. Hugo says:

    Há que notar, porém, que não são umas sementes quaisquer, mas sim sementes “geneticamente modificadas para tornar a soja resistente a herbicidas”. Presumo que este processo de transformação genética não seja barato e a empresa queira proteger o seu investimento. No fundo, o produtor estaria a beneficiar duma planta mais resistente sem ter trabalhado para a tornar mais resistente (trabalho feito pela Monsanto). Além disso, há a questão do contrato assinado livremente por ambas as partes, pelo qual o produtor se comprometeu a não replantar rebentos de colheita anterior. Se os replantou, quebrou o contrato e será responsabilizado por isso à luz da lei americana. Quem não quiser aceitar estes termos, tem bom remédio: não compra sementes à Monsanto.

    Quanto à questão da água, completamente de acordo. Não nego que possa haver espaço para a iniciativa privada no mercado da água, mas na maioria dos casos a água devia ser um bem público, como bem de primeiríssima necessidade.

    Já agora, e como argumento meramente retórico (porque não acho relevante estar a discutir o realismo de filmes), no Total Recall o ar não era um bem que existia e que estava disponível naturalmente. Era preciso produzi-lo e disponibilizá-lo e nesse sentido faz todo o sentido que os cidadãos contribuíssem para a sua produção. Como acontece na Terra, na realidade, com a água, fornecida e taxada pelas câmaras.


    • Não são só as sementes de soja que a Monsanto modifica geneticamente,mas sim todas as sementes (cereais, milho, tomate, pepino, etc., etc.).

      Quanto ao contrato ser assinado livremente, não é bem assim. Os agricultores são coagidos a assiná-lo sob pena de não poderem semear absolutamente nada!

      Também conviria dizer que a modificação genética efectuada pela Monsanto tem originado doenças novas, algumas graves.

      Resumindo, da Monsanto não sai nada de bom!

      • Hugo says:

        Tirando o segundo parágrafo, nada do que disse tem que ver com o caso em particular da Monsanto vs Bowman (embora eu não negue os perigos dos alimentos geneticamente transformados) e mesmo em relação ao segundo parágrafo tenho muitas dúvidas que assim seja.


    • Hugo

      Informe-se primeiro e fale depois. Quanto às plantas mais resistentes, coma-as você e a sua família. Eu e a minha queremos ter o direito de escolher plantas naturais e biológicas.

      http://gaia.org.pt/node/16487

      http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=57589&op=all

      Muito bom post, Jorge, infelizmente quase ninguém quer saber que se hipoteca o futuro de gerações e que, em questões de princípio, já não se nasce cidadão com direito a viver num mundo em que a natureza é um bem comum.
      Acham mais importantes as questões do tipo “Portas faz ou não faz teatro”, “o Relvas tem ou não tem curso”.

      • Hugo says:

        Tinha ideia que o post era sobre um caso em particular passado nos EUA e não sobre os meus hábitos alimentares, mas pronto, eu também prefiro alimentos 100% naturais. Quanto aos alimentos geneticamente manipulados, não ponho em causa que possam ser prejudiciais à saúde, mas pelos vistos nos EUA há gente que está disposta a investir para os produzir em massa e os vender também em massa. É bom? É mau? Não sei. O que eu quis dizer foi que, neste caso em particular, o “little guy” não tem razão, só por ser o “little guy” e do outro lado estar a “big corporation”. Independentemente da qualidade ou falta dela dos alimentos manipulados geneticamente, o produtor quebrou um contrato que assinou livremente e como tal deve ser responsabilizado. Se não concorda com a política da Monsanto, passa a utilizar sementes naturais ou muda de fornecedor. Em relação à lei das sementes, mais uma vez, nada tem que ver com o caso da Monsanto. Em todo o caso, só o li por alto e posso estar enganado, mas parece-me que nada tem que ver com manipulação genética de alimentos. É mais um meio de controlo burocrático da produção, mas mesmo assim ainda reserva uma área para a produção de sementes tradicionais (vendas abaixo de 2M €). Contudo, posso estar enganado e por isso não vou dizer se concordo ou discordo dessa lei ou se ela é boa ou má.


        • Hugo,
          Terei sido um pouco “agressivo” nas primeiras frases do meu comentário, e retiro algum excesso, mas, segundo leio, o post tem um alcance um pouco mais vasto do que o caso do “little guy”, pois começa assim:

          “Conseguem imaginar o que será querer semear, mesmo que para subsistir, e as sementes da colheita de um ano serem estéreis no ano seguinte ?”

          Esta situação não tem apenas a ver com a Monsanto, tem a ver com a própria política europeia (para já, depois estender-se-á ao resto do mundo, como sempre acontece com estas coisas), basta ver os links que inseri no comentário anterior.

  6. jorge (fliscorno) says:

    «Há que notar, porém, que não são umas sementes quaisquer, mas sim sementes “geneticamente modificadas para tornar a soja resistente a herbicidas”.»

    De acordo. Mas será só isto o que está em causa? Não vou procurar mas recordo-me dum processo de há uns anos em que a Monsanto, novamente, processou um agricultor porque os seus campos de milho tinham sido polinizados por uma seara adjacente, na qual tinham sido usadas sementes híbridas da empresa. Ou seja, um agricultor viu o seu campo contaminado e a Monsanto processou-o. Não me recordo do desfecho mas acho a atitude da Monsanto chocante.

    Depois há também a questão de pensarmos se queremos ir por aí. Sabe que neste momento começa a ser difícil encontrar sementes de soja e milho que não tenham sido sujeitas a patentes? E como podemos ter a certeza que mexer no ecossistema, com a manipulação genética, não alterará o equilíbrio? Há coisas onde devemos jogar pelo seguro. Se aqui fizermos asneira, vamos para onde?

    Sobre o filme, uma ilustração do impensável, esse ar também podia ser produzido em quantidade suficiente para todos e não o era. Mas voltando ao impensável, pois era esse o ponto, um estado dos EUA lançou um imposto sobre a chuva para ajudar às limpezas. Sobre a chuva!

    • Hugo says:

      Sem dúvida nenhuma, mas isso já são contas de outro rosário. Não acho que a Monsanto seja composta só por santos e anjos papudos, nem que a manipulação genética de alimentos não esteja isenta de perigos, nem que existam taxas completamente idiotas (como essa da chuva). Eu limitei-me apenas a comentar a situação que relatou no seu post, na qual entendo que a razão assiste à Monsanto.

  7. jorge (fliscorno) says:

    E a burocratização que está em curso na Europa para obrigar a um esquema kafkiano de registo de sementes? Inenarrável.

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