A declaração do fura-greves

O texto tem alguma idade, mas é sempre actual e circula assinado por Alice Vieira (da escritora não se trata). Terão sido uns 15000 que hoje furaram a greve. É favor preencherem:

judas traidor

Eu,_________________________,

DECLARO:

QUE estou absolutamente contra qualquer coação que limite a minha liberdade de trabalhar.
QUE, por isso, estou contra as greves, piquetes sindicais e qualquer tipo de  violência que me impeça a livre deslocação e acesso ao meu posto de trabalho.
QUE por um exercício de coerência com esta postura, e como mostra da minha total rejeição às violações dessas liberdades,

EXIJO:

1 º. QUE me seja retirado o benefício das 8 horas de trabalho diário, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e que me seja aplicada a jornada de 15 horas diárias em vigor antes da injusta obtenção deste benefício.

2 º. QUE me seja retirado o benefício dos dias de descanso semanal, dado que este beneficio foi obtido, por meio de greves, piquetes e violência, e que me seja aplicada a obrigação de trabalhar sem descanso de domingo a domingo.

3 º. QUE me seja retirado o benefício das férias, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de trabalhar sem descanso os 365 dias do ano.

4 º. QUE me seja retirado o benefício dos Subsídios de Férias e de Natal, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de receber apenas 12 salários por ano.

5 º. QUE me sejam retirados os benefícios de Licença de Maternidade, Subsídio de Casamento, Subsídio de Funeral dado que estes benefícios foram obtidos por meio de greves, piquetes e violência, e me seja a plicada a obrigação de trabalhar sem usufruir destes direitos.

6 º. QUE me seja retirado o benefício de Baixa Médica por doença, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de trabalhar mesmo que esteja gravemente doente.

7 º. QUE me seja retirado o direito ao Subsídio de Baixa Médica e de Desemprego, dado que estes benefícios foram obtidos por meio de greves, piquetes e violência. Eu pagarei por qualquer assistência médica e pouparei para quando estiver desempregado/a.

8 º. E, em geral, me sejam retirados todos os benefícios obtidos por meio de greves, piquetes e violência que não estejam contemplados por escrito.

9 º. DECLARO, também, que renuncio de maneira expressa, completa e permanente a qualquer benefício actual ou futuro que se consiga por meio da greve do dia 17 de Junho de 2013.

Comments

  1. Uma interpretação bastante livre da história.
    Já agora “. QUE me seja retirado o benefício dos Subsídios de Férias e de Natal, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de receber apenas 12 salários por ano.”

    Os subsídios são irrelevantes visto que aquilo que verdadeiramente interessa é o salário anual. Seja ele pago em 14 prestações ou 12 ou 6 etc…

    No entanto reconheço que a lógica marxista não fica limitada por coisas menores como a matemática ou a realidade.

  2. Mais uma vez tenho de vos dizer que não posso concordar com o teor desta prosa. A liberdade significa também a possibilidade de não concordar com a greve e nada tem a ver com o que este texto aponta. Desculpem-me mas as pressões são tão erradas de um lado como do outro. Respeito pela diferença de opinião por mais errada que vos pareça.

    • Concordo inteiramente. Não devem existir coações e não é por hoje concordar ou não com uma greve que passo a concordar ou discordar de todas as greves.

  3. ferpin says:

    Como é evidente deve haver liberdade total de fazer ou não greve sem qualquer forma de coação (nem devia ser preciso dizer isto). No entanto, interessam-me os nomes dos colegas que não fizeram greve no dia 17 (este dia era especial pois não resultava dele a habitual guerra de números, o crato não aceitou adiar ou negociar porque estava convencido que os exames se faziam, pois os cálculos indicavam que só com greve acima de 90% se começava a poder bloquear exames. Na minha escola 90% dos professores perderam um dia de salário, mas fizeram-se 100% dos exames).
    E continuarei a ser cordial com eles todos os dias. Só direi algo se um deles tiver o azar (em conversa de que eu faça parte) de se queixar das 22h de aulas mais aquela direção de turma horrível que tem que o obriga a atender os pais dos grunhos montes de horas por semana e tratar de toda a burocracia ligada à grunhice. Ou quando se queixar que tem muito mais alunos e testes que no ano anterior. Aí vou dizer-lhe que essa conversa não vale a pena porque 17 de junho já foi.

    E prometo que nem irei, despedir-me deles se receberem guia de marcha, ou lamentá-los se forem “requalificados”. Eles de certeza não esperam isso nem lhes interessa.

  4. António Keating says:

    Para os mais lestos a responder e porventura menos lestos a refectir parece-me que o texto acima utiliza um estilo retórico que mais não pretende do que enfatizar que os direitos sociais foram por regras obtidos num contexto de luta, de expressão da agressividade de caracterizam as relações sociais goste-se ou não disso. Ou seja, é necessario por vezes ser-se “incorreto”, “injusto”, “sujar as mãos” para que do outro lado haja alguma ponderação. Penso que a(s) pergunta(s) que deve cada um por a si próprio é ou são: Justifica a actual situação dos professores este tipo de luta? Justifica(m) a(s) atitude(s) do governo esta radicalização?
    Não sou professor, tenho uma filha que será brevemente afectada por tudo o que se passa e a minha resposta e para ambas as perguntaas definitivamente SIM

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