A crise portuguesa da actualidade

O seu a seu dono: a autoria da actual crise é da direita

Bem se empenham os arautos tendenciosos, desonestos e vesgos por conveniência para engrupir a opinião pública com a desresponsabilização da direita pela crise política em que atolou o país nos últimos 15 dias.

A defesa inconsistente e estrambólica da inocência do governo de Passos e Portas, e até do presidente Cavaco, emporcalha-se por ímprobos ataques desferidos sobre quem, de área política divergente ou neutralmente, dignifica a verdade e tece legítimas críticas às ridículas peripécias da vil tríade do presidente, da maioria e do governo a que estamos submetidos.

Para reposição da verdade – e já agora para memória futura – grave-se com letras de indestrutível relevo, por ordem cronológica, quem, quando e como a crise se despoletou e desenvolveu:

A 1 de Julho de 2013

Vítor Gaspar demite-se. Insinua falta de perfil de Passos Coelho para liderar a actividade governativa, confessando responsabilidades próprias na falha dos défices de 2012 e 2013, na expansão da dívida pública, na depressão na procura interna e desvios desfavoráveis nas receitas fiscais; e, em acto de comovente penitência, Gaspar rematou: “a repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto Ministro das Finanças.”

A 2 de Julho de 2013

Paulo Portas comunica a “irrevogável’ demissão ao PM, por discordância da escolha de Maria Luís Albuquerque para o cargo de Ministra do Estado e das Finanças, em substituição de Gaspar.

A 2 de Julho de 2013

Passos Coelho era conhecedor da demissão de Portas, mas não a transmitiu a Cavaco Silva que deu posse à nova ministra e mais um conjunto de secretários de Estado, um deles, Núncio, afecto ao CDS. Patética esta cena no Palácio de Belém.

A 6 de Julho de 2013

O PM, Passos Coelho, anuncia ao país a monumental remodelação, centrada sobretudo no recuo de Portas que, a despeito de representar o partido minoritário, 12% de votos, é nomeado vice-primeiro-ministro, com a incumbência da coordenação económica, das relações com a ‘troika’, da reforma do Estado, subalternizando a ministra do Estado e das Finanças.

A 10 de Julho de 2013

O PR, no papel de Hades, deus do mundo inferior na mitologia grega, ignora a remodelação, renuncia a hipótese de eleições antecipadas e lança o desafio do ‘compromisso de salvação nacional’ entre PSD, PS e CDS, marcando eleições para Junho de 2014, depois do cumprimento do programa da ‘troika’.

Os efeitos da crise

Os eventos e autores da crise de que hoje sofremos – e essa é que conta para os mercados, investidores, a ‘troika’ e em especial para o duo CE+BCE é objectivamente a narrada anteriormente. É assim que a imprensa internacional, na Europa e nos EUA, a interpretou.

É também deste modo que Portugal se afastou mais da Irlanda, ao ser excluído do projecto de ajuda da CE para regressar aos mercados no período ‘pós-troika’ – ao contrário, o segundo resgate torna-se mais provável.

Transladar as responsabilidades da crise para fora da tríade e apêndices que a causaram é um acto de suja e repelente falta de seriedade. Chegam ao ponto de invocar conceitos e comportamentos financeiros e económicos. sem sequer os entender.

Os comissários políticos, infiltrados nas televisões, nos jornais ou na blogosfera, não superam obviamente o baixíssimo nível das reles tarefas a que se prestam. O seu objectivo é defender pessoas de questionável idoneidade política, atacando outras de opiniões distintas. São os vícios do subjectivismo. No fundo, fazem reviver o ordálio, essa figura de prova jurídica medieval, também considerado como juízo de Deus.

Chamemos-lhes, pois, os ‘Comissários do Ordálio’, porque se um dia pudessem, em vez de difamar e ofender, torturariam quem descreve, comenta e critica segundo as regras liberdade de expressão responsável e expõe as opiniões que tem o direito de formular.

Comments

  1. adelinoferreira says:

    Como já é hábito nos posts do Carlos
    Fonseca, análise cuidada e sem margem
    para dúvidas. Só os comissários politicos
    do governo e do Presidente da República, tentam desvalorizar os acontecimentos descritos. E por falar em
    Presidente da República leiam o que disse o mesmo nos famosos roteiros: “Há quem tenha a ilusão de que o Presidente da República pode impor aos partidos, contra a vontade destes, a sua participação em governos de coligação, por vezes apelidados de salvação nacional.” (Cavaco Silva, Roteiros VI
     – 2011/2012, p. 21)

    • Carlos Fonseca says:

      Caro Adelino Ferreira,
      É impossível que a incoerência do homem não corresponda a comportamentos próprios de outras causas que não quero detalhar e comentar.

  2. nightwishpt says:

    Não é 2012, é 2013.

    • Carlos Fonseca says:

      Já emendei. Isto de um tipo querer ser mais novo à força é um disparate. Obrigado.


      • O espírito jovem pode manter-se e deve manter-se, o físico é que é preciso ter cuidado com ele, que por mais que o espírito esteja jovem, é preciso ter cuidado.


  3. Carlos Fonseca isso aconteceu tudo em 2013, menos a carta do Gaspar que já foi escrita o ano passado.


  4. E não torturam já?

  5. adelinoferreira says:

    O ano é pois 2013! meninos vamos
    dormir!


  6. Amigo e Sr Carlos Fonseca concordo com o seu comentário
    e sou apreciador dos seus escritos .

    Só não concordo que a culpa disto tudo é só da direita , a
    esquerda também tem muitas culpas , para mim são todos
    culpados e não nos esqueçamos do passado recente do
    PS socrático , que ainda continua a minar este partido , .

    A sua análise é correcta sobre os últimos acontecimentos ,
    que obviamente andam em passo de corrida ,

    Nem estes , nem os anteriores , podem ser desculpados .

    Subscrevo-me com os melhores cumprimentos e admiração
    pelas suas análises cuidadas,

  7. Margarida Correia says:

    era bom que tudo isto fosse uma crise economica, era mais aplausivel, agora uma crise politica??? realmente…

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