Cartoline d’Italia (16) (da Palermo)

Elisabete Figueiredo


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‘Ma… lei è a Palermo per fare la rivoluzione?’*

Em vez de ir a Marsala ou a Cefalú decido ficar em Palermo. Afinal há ainda muitas ruas a percorrer, muitos sítios onde ir. No mapa tinha visto a Piazza Rivoluzione. Interessa-me, penso. E lá vou hoje. Começo pela Via Maqueda, Piazza Quattro Canti, desço um pouco da Via Vittorio Emanuele e a sinistra a via Roma e a dritto a Piazza San Domenico. Não está calor, aliás o céu alterna continuamente entre o cinzento e o azul, faz vento, é domingo, as ruas estão mais ou menos desertas. Uma cidade muito diferente de ontem, esta de hoje. Na Piazza San Domenico resolvo inovar e em vez de voltar para trás e percorrer a Via Roma até perto da estação, onde fica a Piazza Rivoluzione, não. Meto por uns becos. Perco-me numas ruas logo a seguir, claro está, mas continuo. Entro numa zona estranha, com prédios bastante degradados, ruas cheias de lixo, garrafas, caixas, sacos de plástico cheios. Chego a uma praça bastante estranha e penso que podia ser a Piazza Rivoluzione, tal é a quantidade de graffitis com mensagens de protesto, tal é a degradação dos prédios, como se acabassem de ser bombardeados. Não me assusto, afinal, não há quase ninguém na rua. Não me assusto e começo a tirar fotografias aos edifícios cheios de mensagens políticas. Que estranho sítio ou então sou eu que acordei com mais disposição militante que o costume. Ou talvez seja apenas a ideia de ir à Piazza Rivoluzione que me põe mais atenta.
Na praça-manifesto meto por uma rua à esquerda. Sem surpresas. A rua continua cheia de lixo e de graffitis. No fim avista-se uma outra praça com uma fonte rodeada de (mais) lixo. Avanço a reparar nas lojas em garagens, aqui uma mercearia, ali uma frutaria, a maioria, no entanto, está fechada. Quase no fim da rua, a entrar na praça da fonte, está um homem de calções encostado a uma porta. Ao lado dele, um graffiti reproduz uma fotografia muito conhecida do fim da II Guerra Mundial. Páro em frente ao homem e pergunto-lhe como faço para ir para a Piazza Rivoluzione. Olha para mim com surpresa. Depois dá-me indicações muito detalhadas. A meio, já me perdi. Recapitulo com ele. Sobe aquelas escadas, depois vira à direita, anda 200 metros e vira à esquerda, encontra uma praça, mas não é essa, continue sempre pela esquerda e vai encontrar a Piazza Rivoluzione. Digo-lhe grazie mille mas obviamente que tenho a certeza que a meio do caminho me vou perder outra vez. Tiro uma fotografia ao graffiti ao lado dele e ele diz: quer que lhe mostre um graffiti interessante? Eu respondo, claro que sim. E ele avança, comigo atrás em direção à praça da fonte. Numa coluna está um graffiti de um homem numa bicicleta, com tatuagens a segurar um peixe. Digo que é um graffiti giro e ele pergunta-me se eu sei onde estou. Na verdade, não digo eu. Ele diz que ali costumava ser um dos principais mercados de Palermo, que toda aquela zona costumava ser ocupada com lojas e tendas e que no sítio do graffiti do homem da bicicleta era onde se vendia o peixe. Mas agora já quase ninguém vende naquelas ruas. Pergunto porquê e porque é que o ‘bairro’ tem um ar tão… hum… decadente? Olha para mim: ‘ah lei ha notato?’ Sim, notei, como não notar? Explica-me que as pessoas deixaram de ter dinheiro, que os que vendiam se foram embora e os outros moradores também foram indo, aos poucos. E o lixo, pergunta-me, você já viu o lixo? Digo que sim, que vinha a pensar nisso e pergunto se não há recolha. Recolha? Não, o lixo é um negócio. Não o recolhem porque não querem. Digo-lhe que deve queixar-se. Encolhe os ombros e diz: ‘è un pecato questo’. Concordo com ele, digo que tenho de ir, arrivederci.

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Esta conversa demorou 15 minutos, talvez e com ela na cabeça sigo, mais ou menos, as indicações do homem. Escada, depois à direita, depois à esquerda no semáforo. Sigo as indicações, mas continuo perdida. Vejo um senhor a sair de um carro e pergunto: ‘lei sa come si va a Piazza Rivoluzione?’ Sabe. Vá por aí já à esquerda, encontra a Piazza Sant’ Anna, depois na primeira à direita sempre em frente até à Via Roma, ‘quella che va a la stazione’, anda 300 metros e vire à esquerda e encontra a Piazza. Grazie mille. Chego à primeira piazza sem dificuldades, claro, é já ali. É uma praça simpática e limpa que tem à direita uma igreja bonita e à esquerda o Real Teatro Santa Cecilia. Os graffitis continuam, mais expressivos que antes. Odio Catania, pode ler-se numa parede. Odio eterno per Stato e Governo lê-se noutra parede. Diffidato tiene duro, un altro giorno sta passando mentre guardi questo muro**. Penso que se adequam estes manifestos à minha busca pela Piazza Rivoluzione e passam um rapaz e duas raparigas e resolvo pedir-lhes que me tirem uma foto. Uma das raparigas pega na máquina enquanto o rapaz faz menção de ficar também na foto. Rimo-nos os quatro. Tiro uma foto com o rapaz e com a outra rapariga e outra sozinha. Ciao. Caminho até à via Roma, aí viro então a sinistra e… boh… onde será que tenho de virar? Há uma loja de roupa aberta, entro: ‘scusa signora, ma dove è la Piazza Rivoluzione?’. Já ali, na próxima esquina, diz-me. Vira a esquina e a praça estará mesmo à sua frente.
Isto não é nada como eu imaginava. Ora bolas. Tanto caminhar, tanta conversa, tanto detalhe nas indicações que pedi, para chegar a uma praça tão sossegada, com uma estatuazinha no meio e nem sequer uma placa? Andei eu a encher os olhos e a máquina fotográfica com graffitis mais ou menos revolucionários para isto? Olhe em volta da praça, é bonita. Vejo uma varanda com um pano onde se lê ‘studentato occupato – casa e reddito per tutti!’*** Ah bom. Penso eu, isto já se parece mais com uma revolução. Dobro uma esquina ligeira e eis escrito numa parede PIAZZA RIVOLUZIONE. Quero tirar uma fotografia com as letras mas não passa ninguém. Acendo um cigarro e ponho-me a observar a praça com vagar, à espera que alguém a cruze. Passam-se alguns minutos e um rapaz e uma rapariga entram na praça. Pergunto-lhes se me tiram uma foto com o nome da praça, que sim. O rapaz agarra na máquina, parece ligeiramente embriagado, anda para ali às voltas, vira a máquina não sei quantas vezes, inclina-a, o diabo e eu debaixo das letras de punho erguido. Ao ver-me de punho em riste ri-se no meio das reviravoltas com a máquina e pergunta-me: ‘ma… lei è a Palermo per fare la rivoluzione?’ Quem sabe? Respondo eu, ‘forse la faccio!’**** A obra-prima fotográfica acaba por sair, tão torta que me desaponto. Mas disfarço, muito obrigada e tal, arrivederci. Decido que quero outra fotografia e a oportunidade aparece logo que a rapariga e o rapaz saem da praça em direção à via Roma. Aparece uma rapariga com uns sacos na mão e eu peço-lhe se me tira a fotografia. Que sim, pousa os sacos no chão e, sem sequer um comentário ao punho erguido, clic, já está.
Não sei bem o que fazer a seguir, resolvo regressar à via Roma e percorrê-la na direção da Porta Felice. Doem-me as pernas, possivelmente do que ontem caminhei no vale dos templos. Ando até quase ao fim da Via Roma, páro em frente ao edifício dos correios e telecomunicações. Um mamarracho colossal de arquitetura nitidamente fascista. Não erro. Estas coisas vêem-se a olho nu. Mais tarde, consultado o guia, confirma-se. As arquitetura da ditadura, quero dizer, as manifestações arquitetónicas de todas as ditaduras tem sempre dimensões desumanas. Vi o mesmo tantas vezes noutros locais. Construções grandiosas, quadradas, feias, criadas para reduzir o homem à sua insignificante condição, para lhe retirar humanidade, para o subjugar aos grandes feitos do ‘regime’. Não gosto do mamarracho. As ruas continuam praticamente desertas. Nem carros, nem pessoas, nem autocarros. Sinto-me um bocadinho dominada pela atmosfera de grande solidão e decido então apanhar o autocarro turístico para Monreale, a pouquíssimos quilómetros de Palermo.
O único problema é que o autocarro parte da Piazza Independenza, longe dali para ir a pé. Como não dou conta que passem autocarros, penso apanhar um táxi. Não deve ser nenhuma fortuna. Fico então à beira da estrada à espera que apareça um táxi. Nada. Passam 15, 20 minutos e nada. Até que vejo um. Estico o braço. O carro pára e vejo imediatamente o banco de trás ocupado por um homem. Digo ao motorista… ah, desculpe, não vi que estava ocupado. Os dois homens quase em coro dizem-me que não faz mal, que entre na mesma. Olho para um e para outro, têm ar de boas pessoas, não sei, entro. Bem sei… Entro para o banco da frente ainda por cima. O taxista diz-me que vai deixar primeiro o senhor à estação e depois me leva a mim à Piazza Independenza. Está bem, respondo. No banco de trás o homem diz que até fica contente, porque o seu percurso era curto e assim o taxista sempre faz mais algum dinheiro. Sim, parece que aos domingos a cidade morre para todos. Toda a gente foi al mare diz o taxista. Pois, respondo eu. Esta conversa foi em italiano com o taxista e em inglês com o passageiro. Este pergunta-me de onde sou. Respondo de Portugal, em italiano. A seguir pergunta quentas línguas falo. Eu digo, não muitas. Umas cinco. Cinco? Surpreende-se ele… e ainda diz que são poucas. Bom, o italiano, o português e o castelhano são muito parecidos, por isso… e ele diz: e além disso, fala inglês e francês? Sim, digo eu, isso mesmo. Mas todas mal. Ri-se e diz que é fantástico. Cinque lingue. Confesso que não percebo a admiração, conheço pessoas que falam pelo menos sete línguas e algumas delas muito diversas da sua língua de origem e entre si. Por isso, que coisa, qual é o espanto? Penso isto mas, obviamente, calo-me. O homem sai na estação e diz-me ‘buone vacanze’. Respondo-lhe arrivederci. O taxista deixa-me na Piazza Independenza a tempo de comer um panini e beber uma limonada e apanhar o autocarro para Monreale.

Em Monreale há uma igreja fantástica, de arquitetura normanda, também grandiosa, mas de uma grandiosidade diferente da do edifício dos correios. Bem sei que tudo nas igrejas serve igualmente para tornar os homens conscientes da sua pequenez diante do divino. Mas eu gosto de igrejas, já o disse tantas vezes, acho que são lugares frescos, onde cheira a madeira e a cera, onde há belos órgãos de tubos e onde as sombras jogam com a luz de uma maneira bela. Ando pela igreja a admirar a construção, as pinturas e acendo uma vela. Vá. Não me converti. Gosto de acender velas nas igrejas, porque gosto de ver fieiras de velinhas acesas. É bonito, acho e eu gosto de coisas bonitas. Demoro mais de uma hora nisto e depois saio e vou comprar um gelado. Sim, ‘limone, cioccolato’ e… desta vez inovei… fico. Se alguma vez passarem em Monreale, Sicilia, recomendo a gelataria Mirto Rosário, na praça em frente à catedral. Uma revolução o gelado, sobretudo o de figo. O último autocarro turístico sai de Monreale às cinco e meia, por isso vou andando e comendo o gelado e lamentando a colherzinha de plástico. Gosto de congelar a boca encostando a colher aos lábios. O plástico não produz, nem de perto nem de longe, o mesmo efeito. No caminho aproveito para apreciar a estonteante vista sobre a baía de Palermo. Mesmerizante! De facto, não há melhor palavra.

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O autocarro deixa-me em Quattro Canti, o que agradeço. Dali ao hotel é um saltinho. Vou descansar um bocado. Acabo por me deixar dormir. Odio dormire al pomeriggio. Davvero che odio*****. Mas acaba por me saber bem. Quando acordo tenho fome e saio. Resolvo ir ao mesmo sítio onde jantei ontem na companhia de um belo gato amarelo. Preciso de levantar dinheiro. Não vejo nenhum bancomat. Em frente ao Teatro Massimo está um carro da polícia municipal com os vidros abertos. Do lado do condutor ninguém, por isso inclino-me e pergunto ao polícia sentado no outro banco: ‘buona sera, lei sa dove posso trovare un bancomat?’. Sai do carro solícito. Digo-lhe que não era preciso sair do carro. Sorri-me muito prestável e explica-me onde encontro o bancomat logo ali um pouco mais à frente. Digo-lhe grazzie mille. Responde-me di niente, sorri e pisca-me o olho. É a primeira vez que um polícia me pisca o olho. Suponho que faça sentido que seja italiano.

Levanto o dinheiro, volto para trás, mas evito passar novamente diante do carro do polícia que pisca o olho. Meto por outra rua onde ainda não tinha passado, e depois por outra e chego ao restaurante. O senhor reconhece-me buona sera. Olho em volta à procura do gato e não o vejo. Que pena, gostei verdadeiramente da companhia ontem à noite. Peço. Enquanto ferro o dente numas bruschette al pommodorino as pessoas passam para a frente e para trás. Nisto, alguém me acena. Um rapaz. Olho para ele franzindo os olhos. Não o (re)conheço. Ele faz o gesto de tirar uma fotografia e, claro, é o rapaz da piazza Sant’Anna, aceno-lhe, rio-me. Deixo-me ficar a comer as bruschette e a beber birra alla spina, a pensar que tenho saudades de casa, do gato amarelo de ontem, de ser de manhã e de andar à procura da Piazza Rivoluzione e que, na verdade, o que me apetecia comer agora era bacalhau com grão.

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* «Mas… veio a palermo fazer a revolução?»

** «Toma atenção, outro dia está passando, enquanto olhas esta muro»

*** «Casa de estudantes ocupada, casa e rendimento para todos!»

**** «Talvez a faça!»

***** Odeio dormir à tarde. A sério que odeio.

Comments


  1. Um passeio diferente e interesantíssimo.
    Gosto da descrição de ambientes e da forma como os vive.


  2. 🙂

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