Ultima Cartolina d’Italia (musicale*)

Elisabete Figueiredo

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‘Lascia ch’io Pianga’*


Talvez hoje houvesse ou haja algumas razões para chorar. Para começar o raio do livro que comecei a ler, entre outros em que agarrei e coloquei na mala antes de vir. Dois deles já foram lidos, este vai já a meio. Comprei-o há mais de 2 anos e, não sei porquê, eu que tanto gosto do Julian Barnes deixei-o para ali ficar, também juntamente com outros ainda por ler. Até que agarrei nele e o trouxe comigo. Vá-se lá saber porquê. A escolha dos livros que vieram comigo a Itália foi perfeitamente aleatória, não pensada: o Amante Bilingue do Juan Marsé; Chet Baker pensa na sua arte, do Enrique Vila-Matas e  O Sentido do Fim, este do Julian Barnes. Ou se calhar até foi pensada sem o ser de facto, reparo agora que escrevo os títulos lado a lado. Quem já o leu O Sentido do Fim e me conhece um bocadinho talvez perceba uma das razões para chorar. As outras razões são ora tristes (vou-me embora amanhã e ainda que não terminem é quase quase como se terminassem as férias) ora contentes (vou para casa, ao fim de tantos dias e as saudades que eu tenho de casa, da minha vida regularzinha, sem andar com malas para trás e para a frente. Sim, a minha vida. Que em nada, ou em pouco ou talvez apenas nas férias se assemelhe à literatura. Não é que me desgoste, seja como for).


Gosto de viajar, acho que isso se percebe. Gosto de viajar, reparando em todas as coisas. Gosto de viajar sozinha. É. Pode parecer estranho à maior parte das pessoas. Mas é assim que é. Há muitos anos, ou, se calhar, desde sempre. Talvez a maioria das pessoas não consiga compreender isto, mas não me interessa rigorosamente nada o que os outros não compreendem de mim, desde que eu o compreenda. E isto, ao contrário de muitas outras coisas, entendo perfeitamente em mim. Não se vê nada como deve ser, para além de nós, quando estamos acompanhados. Não se guardam memórias particulares para além do que se viveu com a companhia no sítio tal ou tal. Gosto de ter a minha própria memória, ou melhor, não associar a maior parte dos acontecimentos e experiências que vivo nos lugares, a pessoas conhecidas e específicas.
Isto não quer dizer que não goste de companhia. Da companhia de algumas pessoas. Gosto. E quando viajo sabe-me bem aqui e ali encontrar gente conhecida, amigos, passar um bocado com essa gente. Mas chega. Umas horas são suficientes, para que o resto que vivo quando estou só não se dissolva. Permaneça comigo, a fazer parte de mim, só de mim. Chega. Bem sei que haverá poucas pessoas que compreendam isto perfeitamente, quero dizer, tal como eu o sinto. Mas não importa, na verdade. O que poderá isto importar?

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Neste último dia em Itália, digo, neste último dia desta viagem a Itália, fui de comboio de Palermo a Cefalú. Cefalú é uma cidadezinha turística, como muitas outras neste país, no meu, em quase toda a parte. Uma cidadezinha bonita, imaculada, relaxada e relaxante, com cafés e restaurantes e lojinhas amorosas em todas as ruas. E o mar azulíssimo, tal como o céu, ao fundo. Quando chego a Cefalú quase me arrependo de não ter decidido ficar aqui estes dias passados na Sicilia em vez de ter ficado em Palermo. Seguramente teria sido mais relaxante, ou seja, teria sido aquilo que a maioria das pessoas que conheço espera das férias: descansar. Mas eu, uma vez mais, não, não faço isso, nas férias. Canso-me mais na verdade, encho-me de muitas coisas em vez de me livrar de tantas outras. Desde sempre. As férias são isto para mim. Não um intervalo para repousar, mas um intervalo para viver mais, ou como disse já, a época em que o que se passa comigo e em mim se assemelha mais à literatura (estou a citar O Sentido do Fim, mais ou menos).
De maneira que, do mesmo modo que se tem pena quando se acaba um romance muito bom, assim tenho eu agora pena que este intervalo se acabe. Bem sei que existirão outros, mais à frente, aqui e ali, mas assim mesmo, este pedaço de literatura que acabou de acontecer na minha vida é já quase só uma memória, mesmo sem ter terminado e, tal como sempre tive vontade de chorar quando acabo de ler um livro extraordinário, também agora me sinto um pouco triste. Uma tristeza que amanhã será ela mesma só memória. Uma coisa que pensava ter esquecido.
E é isto. Arrivederci Sicilia, a doppo Italia

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* Lascia ch’io Pianga’ pelo grande trompetista italiano Paolo Fresù: http://www.youtube.com/watch?v=d3bXeGwSJBc

Comments


  1. Belo remate para uma bela série de postais.


  2. Esta re-invenção do tempo que nos é devido é linda!
    Percebo-a, mas não ouso ir tão longe nessa partilha connosco próprios!
    O diálogo e a cumplicidade também me são essenciais.
    Beijos.


  3. Obrigada Carla 🙂 (mas o remate é mais logo)


  4. Manuel, pois, as pessoas são diferentes e ainda bem 🙂

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