Abril de novo, mas não com este povo?

Há uns anos que digo isto em vez do clássico ‘abril de novo, com a força do povo’. Não que não ache que o povo não tenha força. Tem. E é até bastante. Que o digam os quase 66% de abstencionistas que ontem determinaram, com a sua força, os resultados das eleições para o Parlamento Europeu. Acho é que este povo não quer um novo abril. O que é que o povo quer? Se eu fosse os Homens da Luta diria que ‘o povo quer dinheiro para comprar um carro novo, pá’*. Mas, na verdade, não me parece que se possa resumir a coisa a uma questão tão simples. Na verdade, não faço a mínima ideia do que o povo quer. Mas faço, acho que hoje fazemos todos, uma ideia, por pequena que seja, do que o povo não quer.

E o povo não quer votar. Ponto final.

Parágrafo. Parêntesis, vá. O povo não quer votar nas eleições para o Parlamento Europeu. Podem dizer-me que o povo também não quer votar nas restantes eleições. É verdade. Mas só até certo ponto. Desde há anos que as percentagens de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu se situam bastante acima da abstenção para as outras eleições e  quase sempre acima dos 60%. Portanto, parece-me evidente que

o povo não quer votar nas eleições para o Parlamento Europeu.

Não me peçam razões. Não que eu vos fosse falar do sol (ou da chuva), da falta de interesse, da falta de sentido cívico, do monte cada vez mais volumoso de partidos políticos, ou de outras desculpas esfarrapadas com que os (aqueles que perdem, sobretudo os que perdem muito, entre os quais tristemente incluo o meu próprio partido) políticos-de-carreira nos ofendem a inteligência. Tais razões serão verdade em alguns casos ou só serão razões que espelham questões mais fundas. Mas não me peçam razões. Peçam-nas aos tais políticos-de-carreira que se comportam nas eleições ‘europeias’ como nas autárquicas e, sobretudo, nas legislativas. Alguém ouviu falar da Europa nas campanhas, por exemplo? Alguém ouviu algum deles falar da importância que tem nas vidinhas de todos nós, incluindo nas dos abstencionistas (esses malandros!) a União Europeia? Alguém foi capaz de ouvir muito mais do que tempos de antena sem ponta por onde se lhe pegasse, slogans gastos como solas de sapatos velhos, lavagem de roupa (muito) suja entre candidatos e partidos políticos? Eu, que não sou surda, ouvi muito pouco a mais que isto. E isto podendo não ser a única razão (não me peçam razões, já disse) é um conjunto de variáveis importante para o distanciamento que as pessoas sentem (votantes e abstencionistas) relativamente ao propósito destas eleições. E esse distanciamento é cada vez maior. Conheço quem não tenha ido votar porque não lhe apeteceu, porque não sente que lhe diga respeito isto da Europa. E eu, não compreendendo completamente, compreendo em parte. Isto, a Europa, não nos diz respeito, porque os políticos-de-carreira não se preocupam minimamente em mostrar(nos) o respeito que isto nos deve dizer.

Quando eu entendo (erradamente ou não) que uma coisa não me diz respeito, eu não quero saber dela…

… até que alguém, que evidentemente tem também essa obrigação (sublinhe-se o ‘também’), me explique (de modo a que eu perceba) que a coisa me diz respeito.

E foi aqui, já disse, que a maior parte dos partidos políticos fracassou nesta campanha, ou é aqui que fracassa na maior parte das campanhas. Eu que até tenho partido (embora seja cada vez menos militante) não entendo os partidos e os políticos-de-carreira (incluindo os do meu próprio partido). Ou melhor, entender, entendo, mas sinto-me cada vez mais a anos-luz dos seus objetivos. Que raramente ultrapassam os seus umbigos e esboçam uma (pelo menos) vaga tentativa de compreender o povo, incluindo (ou sobretudo) os abstencionistas. Esses (estúpidos!) que não querem votar. Sabemos que o povo é muita coisa, eu incluída. Mas não sabemos, nem queremos saber, o que são todas essas coisas. Estamos mais preocupados com votos, com cargos, com garantirmos a eleição de A ou B.

Nestas eleições houve (ou pelo menos eu dei mais conta disso) fortes apelos ao voto. Que ir votar era importante. Era, pois. Eu acho que era. E fui (como sempre) votar. Mas esqueceram-se de nos dizer porque é que votar era tão importante. Que temos obrigação de saber? Teoricamente temos. Então não temos? Alguns de nós até o sabem. Mas reparem que a vidinha da gente é esta que vivemos quotidianamente, com problemas concretos para resolver, por exemplo. E que nessa vidinha, a gente vê a União Europeia lá muito ao longe, nem sequer por um canudo, como uma coisa que não interfere no nosso dia-a-dia. A tal coisa que não nos diz respeito nenhum. Reparem que a gente, o povo, é ainda composta por milhões de pessoas que têm a escolaridade básica. E por outros tantos que, mesmo com mais escolaridade, usam pouco as ferramentas da literacia. E que sobretudo as não usam para se informarem sobre essa coisa longínqua que se chama União Europeia. Mesmo se essa coisa tem contribuído para que a nossa vidinha seja o que é quotidianamente. Hoje. Agora. Como é que os políticos eleitos e não eleitos ontem se foram esquecer de nos lembrar isto? Porque confiam no povo, especialmente no povo que não quer votar, para serem (re)eleitos. Basicamente.

Quanto aos outros que não confiam no povo, especialmente no povo que não quer votar e, assim mesmo elege os representantes da sua (desses outros) oposição,  gosto especialmente dos que defendem a plenos pulmões a soberania e a força do povo mas que, no dia seguinte, para explicar eventuais desaires, questionam a legitimidade do ato eleitoral exatamente com a abstenção. E sobretudo gosto daqueles que proclamam (igualmente a plenos pulmões e também para justificar desaires eleitorais) que o povo é estúpido.

É que a mim, sendo parte do povo, daquele que ainda por cima vota, ou seja, daquele que não se abstém, parece-me evidente que:

– a soberania do povo passa pela liberdade de decidir se quer ou não votar e, já agora, de votar em quem quiser

– a legitimidade das eleições (quaisquer que sejam) materializa-se somente nos votos expressos. São poucos? São, pois, mas chegam. Querem mais? Esforcem-se mais também

– o povo não é estúpido, por mais que seja conveniente pensar-se que sim.

Portanto, por isso, consequentemente… deixem de tratar o povo como se o povo, incluindo o que não vota, fosse estúpido. Sejam, vocês, políticos-de-carreira um bocadinho mais espertos. Se calhar aí teremos um abril de novo com a força (deste) povo. É que não se pode mudar de povo, pois não?

 

*E o povo, pá?

Comments

  1. Gotlieb says:

    Excelente post. Deveria ser leitura obrigatória para toda a nossa intelligentsia. E todos aqueles que pensam que deveríamos ser obrigados a votar deveriam ser obrigados a recitá-lo de cor.


  2. credo.

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