Um defensor do AO90 contra a simplificação da ortografia

Marcos Bagno é um linguista brasileiro e defende o acordo ortográfico (AO90) com a mesma frontalidade com que critica o “preconceito linguístico”. Acrescente-se que é um homem de esquerda, preocupado, portanto, com os mais desfavorecidos, que o são, também, por serem desfavorecidos em termos educativos.

Continuo a só encontrar defeitos no AO90 e sinto algum desconforto diante de algumas opiniões do autor brasileiro no que se refere à questão do preconceito linguístico. Esse desconforto é consequência de uma reacção, uma vez que o meu conhecimento dos textos de Bagno resulta de leituras dispersas e superficiais; um dia, poderei ter uma opinião sobre o assunto.

No que se refere ao campo ideológico, teremos, provavelmente, muito em comum.

Em Portugal, alguma esquerda tem defendido o AO90, argumentando que “a simplificação das regras de escrita [resultantes, depreende-se, do AO90] constitui (…) uma forma de democratização da língua portuguesa.” No Brasil, o Movimento Acordar Melhor defende que a simplificação ortográfica deve ir mais longe, sempre com o objectivo de facilitar a aprendizagem.

Confesso que, tendo em conta as minhas leituras superficiais sobre Marcos Bagno, esperaria dele uma opinião semelhante. Foi, portanto, uma agradável surpresa ter descoberto, no Facebook, que defende precisamente o contrário, com argumentação inatacável. O texto foi originalmente publicado na revista Caros Amigos e o autor resolveu disponibilizá-lo nas redes sociais. A seguir ao corte, está a transcrição.

A ORTOGRAFIA NÃO PRECISA SER SIMPLIFICADA – Marcos Bagno

Muitas opiniões têm sido emitidas e publicadas logo depois da adoção da nova ortografia no Brasil. A maioria delas, infelizmente, sem nenhuma boa fundamentação em seus argumentos. Uma dessas opiniões é a de que uma ortografia “simplificada” facilita a aprendizagem da leitura e da escrita. Ora, se fosse assim, as línguas mais faladas e escritas internacionalmente (o francês e, ainda mais, o inglês), com suas ortografias ilógicas e complicadas, jamais teriam alcançado a difusão que alcançaram. A realidade nos mostra que é preciso inverter esse mito: é a educação de qualidade que leva um povo a se apoderar de seu patrimônio letrado e a ser capaz de ler e de escrever bem, independentemente do tipo de sistema de escrita empregado.

Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha apresentam índices de alfabetização de 99% da população, apesar da ortografia caótica do inglês. A França exibe o mesmo índice, assim como o Canadá, país que tem no inglês e no francês suas línguas oficiais e de ensino. O Japão tem um índice de alfabetização que beira os 100%. No entanto, escrever em japonês é um aprendizado constante: um cidadão japonês letrado aprende em média um ideograma novo por dia; e a escrita japonesa se vale de nada menos do que três sistemas de escrita diferentes. A China também se destaca como um país onde 93,3% de seus 1,5 bilhão de habitantes são alfabetizados e dominam algo entre 3.000 e 4.000 ideogramas diferentes para poderem ler e escrever a contento.

Por outro lado, diversos países que têm o português como língua oficial, uma língua com uma ortografia mais simples e mais regrada que as citadas acima, apresentam baixos índices de alfabetização: Angola (67,4%), Guiné-Bissau (44,8%), Moçambique (38,7%). No Timor-Leste, só 50% da população é alfabetizada, sendo que no final do período colonial português, em 1975, o analfabetismo chegava aos 90%. A Guatemala, país onde o espanhol (que tem um dos sistemas ortográficos mais próximos do “ideal”) é a língua oficial, apenas 69,1% da população é alfabetizada (13 milhões de habitantes). Em contrapartida, Cuba, com população semelhante (11 milhões) ocupa o primeiro lugar na lista de todos os países do mundo em qualidade de educação, e seu modelo de alfabetização popular tem sido adotado por outros países latino-americanos. De acordo com os resultados obtidos nos testes de avaliação de estudantes latino-americanos, conduzidos pela Unesco, Cuba lidera, por ampla margem de diferença, nos resultados obtidos pelas 3as. e 4as. séries em matemática e compreensão de linguagem. Os índices mais baixos obtidos pelos estudantes cubanos superaram de longe os mais altos de outros países do continente, incluindo o Brasil.

Como se vê, é perfeitamente possível alfabetizar todo um povo, desde que haja investimentos consistentes em educação — se eles existirem, a ortografia pode ser de qualquer tipo.

Comments


  1. O Bagno, é um linguista actualizado. E, enquanto tal, sabe que o AO se baseia em princípios e ideias que, transpostos para a medicina, equivaleriam a restaurar as sangrias como meio terapêutico…


  2. Quem me traduz “1,5 bilhão de habitantes” para português?
    Obrigado.

  3. fantasiaseperplexidades says:

    Interessante, sem dúvida (se de facto for essa a posição do Marcos Bagno). Em videos do Olavo Carvalho (exactamente a propósito do “Preconceito Linguístico”) não se ficava com essa ideia.
    Teresa Ramalho

  4. António Jorge Marques says:

    Acrescento que Marcos Bagno faz parte do número (crescente) de linguistas brasileiros que consideram a língua falada do outro lado do Atlântico como “outra língua” diferente do português. Opinião também expressa por António Emiliano no livro seminal “Apologia do desacordo ortográfico”. Em última análise (realista), aqueles que são contra o “AO90” só têm duas hipóteses: 1. o Brasil volta atrás em Janeiro de 2016 (como já fez anteriormente) e revoga-o, ou 2. o Brasil decide chamar à sua língua “brasileiro” ou “brasiliano” ou outra coisa qualquer, (se adoptar a ortografia simplificada proposta pelo movimento “Acordar Melhor” teria mesmo de ser “outra coisa qualquer”). Existe outra hipótese muito triste para os portugueses que têm a língua como ferramenta de trabalho (onde concretamente me incluo neste momento): tornarem-se exilados da sua própria língua (escrita) e deixarem de publicar em Portugal.


    • Talvez haja mais uma hipótese para os portugueses: praticar a resistência, sempre que possível. Eu continuo a escrever sem as normas do AO90, mesmo em correspondência oficial. Até agora, ainda ninguém me chamou a atenção para isso.


  5. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  6. José Neto says:

    Espero quase tudo dos acordofóbicos. Pôr a questão em termos de esquerda e direita, confesso, não esperava.

    José Neto

    • António Fernando Nabais says:

      Caro José Neto, tenho a impressão de que não leu com atenção. Quem é que pôs a questão em termos de esquerda e de direita?


  7. Mas como diria a esquerda: as dificuldades da Língua Portuguesa são instrumentos de exploração e repreensão. Servem para subjugar os menos favorecidos…assim como a tabuada do 7, do 8…que logo podem ser extintas para evitar a manutenção do status quo e preconceito matemático !


  8. Se você é contra reformas ortográficas, por que não volta a escrever em português arcaico?

    • António Fernando Nabais says:

      Não posso voltar a escrever em português arcaico, porque nunca escrevi em português arcaico. Não sou contra reformas ortográficas se forem bem concebidas. Se você é a favor de qualquer reforma ortográfica, escreva como lhe apetecer.


  9. São tantas as divergências sobre o AO90 que creio que, mesmo com a sua aprovação e entrada em vigor, cada pessoa passa a escrever como melhor lhe convém e passa, então, a haver muitos erros de português escrito!!!

Trackbacks


  1. […] na página Simplificando a ortografia, na esteira do movimento Acordar Melhor. Há, pelo menos, um defensor do chamado acordo ortográfico que se opõe a essa ideia. Na minha opinião, acordar melhor é estar a […]

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