A insegurança ortográfica

Fernando Venâncio*

Eu não devia, nós não devíamos, publicar estas listas. A própria visão duma grafia errada vai criar, pouco que seja, uma habituação. Os nossos neurónios não são parvos.

Mas silenciar também não é opção. Há uma justificada esperança de que a acumulação de destemperos gere algum susto. Não, definitivamente, os nossos neurónios não são parvos.

Entretanto, da parte dos responsáveis, sim, objectiva ou subjectivamente responsáveis, nem um pio. Onde está o comunicado do ILTEC, onde a nota da Academia, onde o sussurro de João Malaca Casteleiro e colegas, fazendo saber o mínimo dos mínimos: que «não foi isto o que quisemos»?

Senhores e amigos: tem de haver uma maneira de tirar estes cidadãos da zona de conforto em que, desde há anos, se acoitam. Aceitam-se sugestões com tino. Dispensam-se brados d’alma.

*

GRAFIAS CONTRARIADAS PELO ACORDO ORTOGRÁFICO 1990,
PÚBLICAS E DOCUMENTADAS EM PORTUGAL

abruto por abrupto
adatação por adaptação
adeto por adepto
alótone por alóctone
antissético por antisséptico
artefato por artefacto
atidão por aptidão
autótone por autóctone
batéria por bactéria
bateriano por bacteriano
catação por captação
compatar por compactar
compato por compacto
conetar por conectar
conetor por conector
contatar por contactar
contato por contacto
convição por convicção
convito por convicto
corrução por corrupção
corruto por corrupto
critografia por criptografia
descompatar por descompactar
dição por dicção
dútil por dúctil
egício por egípcio
egitologia por egiptologia
encritação por encriptação
erução por erupção
facioso por faccioso
fato por facto
fatual por factual
fição por ficção
fitício por fictício
fricionar por friccionar
impato por impacto
incónita por incógnita
ineto por inepto
ininterruto por ininterrupto
intato por intacto
inteletual por intelectual
interrução por interrupção
interrutor por interruptor
Invita por Invicta
latente por lactente (cp. «mulher latente»)
láteo por lácteo
mição por micção
nétar por néctar
Netuno por Neptuno
oção por opção
ostáculo por obstáculo
otogenário por octogenário
otometria por optometria
óvio por óbvio
pato por pacto
pitórico por pictórico
proveto por provecto (cp. «em proveta idade»)
rato por rapto
reto por repto
seção por secção
sução por sucção
ténica por técnica
ténico por técnico
tetónico por tectónico
trítico por tríptico

*

Um obrigado a quantos vieram, ao longo de anos, documentando estas anomalias. Nunca as mãos lhes doam, nem os olhos cansem.

*Linguista, crítico literário e escritor

 

Comments

  1. Nightwish says:

    De fato…

  2. Rui Esteves says:

    Falta aí em cima uma palavra cuja nova ortografia me provoca fortíssima urticária.
    Refiro-me à palavra ACTA que o AO quer grafar como ATA.

    • António Fernando Nabais says:

      Considero que o AO90 é um erro. Ainda assim, segundo o AO90, a grafia da palavra “acta” deverá passar a ser “ata”. Esta lista inclui erros que resultam de uma aplicação errada do AO90, uma vez que não deveriam ter sofrido alterações. Estes erros são, ao mesmo tempo, uma consequência do próprio AO90.

      • sinaizdefumo says:

        São erros de “maispapistasquòpapa”, genocidas consonantais, cuja “regra” parece ser nunca juntar duas consoantes. Mas vem aí mais (omni… por oni…)


  3. Mais uma para a lista do Fernando Venâncio: protologia. Cf. aqui: http://www.medicos24.pt/hospital-escola-fernando-pessoa/protologia/


  4. Para um país que nunca cuidou da sua língua como devia, através de uma verdadeira política do idioma, pouca legitimidade tem de criticar medidas avulsas como os AO. Não nos podemos esquecer de que foi Portugal quem hostilizou o Brasil com a reforma ortográfica de 1911, alterando a grafia sem qualquer nexo e dando-a a “consumir” aos brasileiros, com laivos de neocolonialismo de quem não conseguiu digerir o Grito do Ipiranga. Teixeira de Pascoaes, e.g., não se conformou com a substituição dos “y” pelos “i”. Fernando Pessoa combateu a grafia reformada que, hoje, se defende como pura e fiel ao étimo.

  5. Carlos Eduardo da Cruz Luna says:

    Realmente, muitos críticos do AO não o leram. Os disparates, que os há, devem-se mais a este facto do que a outra coisa. E, todavia, na ortografia anterior ao AO, não faltavam erros. Sou professor, tenho prática nesse campo. O tempo de adaptação vai levar a algumas confusões… tal como sucedeu em 1911. Nada de novo, afinal!


  6. E depois há dois tansos que não gostam da publicação. Acordistas convictos e na frente para a destruição da língua.


  7. Ora, aqui está a prova de um tipo de fundamentalismo: o linguístico. Dividem-se abusivamente as pessoas em acordistas e patriotas (sem admitir meios termos) para, logo de seguida, se poder enxovalhar os primeiros, tratando-os como assassinos da letra, infames e insanos criminosos de lesa pátria. Na falta de argumentos consistentes, envereda-se pelo caminho do insulto balofo de quem, seguramente, leu o AO na diagonal ou nem sequer o leu. Para este tipo de fundamentalismo, ocorre-me gritar com um convicto JE SUIS CHARLIE.


    • Para quem não vê um palmo à sua frente, é natural que pense e diga isso. Quem escreve contra o novo acordo ortográfico não anda para ai a ofender, como você diz, refere exactamente aquilo que o novo acordo é, um desastre tal que está a destruir a língua. E que quem defende está a permitir isso mesmo.


  8. Ora, cá está! Como eu sempre digo e disse aqui: “Dividem-se abusivamente as pessoas em acordistas e não-acordistas (sem se admitir meios termos)”. É possível encarar esta questão do acordo no meio termo, discutindo-a ao nível mais holístico duma política do Idioma, que nunca houve em Portugal. Em Espanha, por e.g., houve um AO em 1990 e tudo se fez na maior das pazes. Por exemplo, enquanto a Associação de Academias da Língua Espanhola teve a 1.ª sede no México, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa teve-a em Cabo Verde, num momento em que, neste país, nem havia embaixadas de todos os países da CPLP. Só para contrariar José Sarney, que foi quem teve a ideia de o criar. Ou seja, não é em Lisboa, também não é no Rio de Janeiro.

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  2. […] o problema parasse em “pára”, seria menos mau. Mas há os contatos, os fatos, os patos e muitos outros erros que, após a imposição descuidada do AO90, se juntaram a outros que já […]


  3. […] adetos? Exactamente, «adeto por adepto». Efectivamente, hoje, no jornal da irresponsável resistência silenciosa. Quanto ao espetador, […]

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