A recessão calorosa

O seu papel não era olhar; era ir inteiro com as mãos ao pescoço, com o joelho à arca do peito, e retirar-se uns minutos depois, como um instrumento que tivesse cumprido correctamente a sua função.

Miguel Torga

passaríamos pela sala do senhor Oliveira, que nos ouviria de olhos esbugalhados e testa toda franzida e perceberia logo que ui, essa zona quando dói é sinal que a coisa já está bastante mal, isso não me cheira nada bem

— Carla Romualdo

Hic ostendit propheta, si a bonis eloquiis interdum propter taciturnitatem debet taceri, quanto magis a malis verbis propter poenam peccati debet cessari.

— Regula Benedicti

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Há alguns anos, avisei: “vem aí a recessão“. Ei-la, calorosa.

recessao

Os Tradutores Contra o Acordo Ortográfico (aos quais agradeço a foto aqui reproduzida, tal como ao autor, Daniel Abrunheiro) indicaram esta distinção proposta por Malaca Casteleiro, na entrevista dos assentos: [Read more…]

«eles tinham a tendência de pôr assento em “paras»”? Efectivamente: assento

observador

gemahnt es dich so matt?

 Fasolt

Da ließe sich ja eine Spekulation mit meinen Vögeln machen.

Papageno

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Nesta entrevista, João Malaca Casteleiro vem explicar a lógica subjacente à base IX, 9:

os nossos alunos nas escolas, como “pára” tinha acento, eles tinham a tendência de pôr assento em “paras”, “paro”.

Portanto, a ambiguidade de

Bloqueio nos fundos da UE para projecto de milhões na área do regadio

justifica-se porque uns alunos (volto a perguntar: “onde está o estudo?“) punham assento.

Exactamente: está tudo explicado.

Efectivamente, como alguns escreventes têm “a tendência de pôr assento” em vez de acento, receio que a próxima proposta seja a abolição de <ss> em formas como asso, passo ou mesmo apressar e a respectiva substituição por <ç>: aço, paço e apreçar. Porquê? Então, citando Malaca Casteleiro, “o contexto diz-nos”. Exactamente. É o contexto.

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A insegurança ortográfica

Fernando Venâncio*

Eu não devia, nós não devíamos, publicar estas listas. A própria visão duma grafia errada vai criar, pouco que seja, uma habituação. Os nossos neurónios não são parvos.

Mas silenciar também não é opção. Há uma justificada esperança de que a acumulação de destemperos gere algum susto. Não, definitivamente, os nossos neurónios não são parvos.

Entretanto, da parte dos responsáveis, sim, objectiva ou subjectivamente responsáveis, nem um pio. Onde está o comunicado do ILTEC, onde a nota da Academia, onde o sussurro de João Malaca Casteleiro e colegas, fazendo saber o mínimo dos mínimos: que «não foi isto o que quisemos»?

Senhores e amigos: tem de haver uma maneira de tirar estes cidadãos da zona de conforto em que, desde há anos, se acoitam. Aceitam-se sugestões com tino. Dispensam-se brados d’alma. [Read more…]

Última hora: “Entre os detidos se encontra José Sócrates”

escreveu a Veja (com agência EFE), citando a Procuradoria-Geral da República: “Entre os detidos encontra-se José Sócrates”. Ainda bem que “a unificação da ortografia permite a divulgação do mesmo texto em vários países”.

Acerca dos *fatos, só mais uma ou outra coisa

Relativamente ao comentário do senhor embaixador Francisco Seixas da Costa, deixo aqui algumas nótulas.

É inadmissível que responsáveis políticos pela criação, promoção e execução do AO90 veiculem inexactidões em relação ao âmbito da supressão consonântica preceituada na base IV e nada me leva a pensar noutro motivo para tal, a não ser ignorância. Acerca disto, creio, estamos de acordo.

Apesar de, em meu entender, os responsáveis políticos não serem obrigados a conhecer, de forma aprofundada, os aspectos técnicos dos diplomas que criam, promovem e executam, não é aceitável o fomento de fugas para a frente, depois quer da emissão de pareceres extremamente críticos, quer do reconhecimento por responsáveis pelo dossier em apreço das imprecisões, dos erros e das ambiguidades («Só num ponto concordamos, em parte, com os termos do Manifesto-Petição quando declara que o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambigüidades»).

Por exemplo, uma das ilações que um leigo atento — ou um especialista distraído — terá tirado de determinadas declarações de Pinto Ribeiro poderá ter sido a de que o ex-ministro da Cultura conhecia tão bem e de forma tão profunda o tema que até se dava ao desplante de rebater a Petição N.º 495/X/3.ª com considerações vagas e com piadas de algibeira (Jornal de Letras, n.º 1010, 17 a 30 de Junho de 2009, p. 15):

Compreendo que as pessoas que lideraram a petição tenham essa posição e que estejam grudadas no purismo. É como se não quisessem que as respectivas mulheres mudem de cortes de cabelo ou os maridos deixem crescer ou cortem a barba.

Aquilo de que se desconfiava acabou por vir à tona, na resposta [Read more…]

Arena e óculos? ― arena para os óculos?

Não tenho muito a acrescentar àquilo que tenho dito e escrito sobre alguns dos temas que Malaca Casteleiro apresentou anteontem em comunicação, na Assembleia da República. Poderei mais tarde (se for facultada a gravação da audição e se considerar que esta nos traz factos novos e relevantes) voltar à carga, para tecer outros comentários.

Será, contudo e porventura, pertinente recordarmos que, ao contrário daquilo que, estranha e frequentemente, se diz e se escreve, touro e toiro, cobarde e covarde, camionete e camioneta, equipe e equipa, controle e controlo não são duplas grafias, como já tive a oportunidade de escrever, como já foi debatido e como poderei esclarecer alhures, se necessário. Aliás, Malaca Casteleiro tem uma visão bastante peculiar (em latim, sui generis) deste conceito: recordemos que, no Preâmbulo do VOLP da Porto Editora, Malaca Casteleiro considera que “a questão da dupla grafia é, aliás, recorrente na história da língua portuguesa”, dando como exemplos olho /óculo, areia /arena, entregado /entregue ou imprimido /impresso (p. 11)…

No final da comunicação, Malaca Casteleiro revela que [Read more…]

Acordo ortográfico: carta ao Ministro da Educação

Rui Miguel Duarte*

6 de Janeiro de 2013

Exmo. Sr. Ministro da Educação,

Assunto: Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90)

Venho por este meio dirigir-me a V. Exa., como responsável no domínio da Educação em Portugal. Tal responsabilidade não se esgota na emissão de diplomas de natureza burocrática nem na gestão administrativa; a Educação é muito mais, e prende-se com muito mais, tange a cultura e a formação de cidadãos competentes, activos, livres e responsáveis. Daí que a voz de um Ministro da Educação seja essencial para a construção de uma consciência e alma nacionais. Serve esta missiva para conclamar V. Exa. a uma tomada de posição sobre uma matéria que é fulcral para a identidade portuguesa: a língua. Não se entende, nem tão pouco convém, o silêncio do Ministro da Educação; entendemos que deve este manifestar-se, no âmbito das suas competências políticas.

1. Três deputados do PSD-Açores à Assembleia da República têm desde há algum tempo endereçado sucessivamente perguntas ao Governo acerca do AO90. A última série foi dirigida a 21 de Dezembro do ano transacto: [Read more…]

Acordo ortográfico: Viegas, boçalidades e patetices

nao2c4Francisco José Viegas, regressado à blogosfera e aos jornais, defende-se de “ataques boçais e patetas” de que teria sido alvo, por ter defendido que o chamado acordo ortográfico (AO90) necessitava de ser aperfeiçoado, opinião que já tive oportunidade de comentar.

No mesmo texto, Francisco José Viegas repete a ideia de que não houve oposição ao alegado acordo desde 1990. Embora noutro texto já tenha chamado a atenção para a aparente falta de atenção de Viegas, aqui fica, mais uma vez, o conselho para que visite a página do professor António Emiliano. A visita a essa mesma página permite, inclusivamente, a consulta de uma raridade: o único parecer favorável à aplicação do AO90 (da autoria de Malaca Casteleiro, um dos autores do mesmíssimo AO90).

Espero não ter sido demasiado boçal nestas críticas a FJV, mas não posso desperdiçar a oportunidade de qualificar como patetas as suas opiniões acerca do AO90, nomeadamente quando declara acreditar na possibilidade de aperfeiçoar um instrumento que não tem ponta por onde se lhe pegue. Faz tanto sentido como decidir transformar uma faca romba em colher, continuando a chamar-lhe faca e sabendo que nunca será colher.