A Escola de hoje explicada aos que não são professores

Cada um de nós tem um ponto de vista sobre a Escola e a Educação, quase sempre muito marcado pelo “no meu tempo“. No meu tempo os professores eram respeitados, no meu tempo os alunos aprendiam, no meu tempo… é que era.

Nada mais falso! Ou antes, nada mais presente. Isto é, eu explico.

Durante as duas últimas décadas do século passado a Escola foi confrontada com o desafio do crescimento. Em 1991 a taxa média de escolarização era de 4,6 anos e em 2011 era de 7,4 anos. Em 1970 a taxa de analfabetismo era de 25,7% e  em 2011 era de 5,2%. E, mais espantoso ainda, em 1991 o abandono escolar nos alunos entre os 10 e os 15 anos era de 12,6% e em 2011 de apenas 1,7%. Nos alunos entre os 18 e os 24, no mesmo intervalo de tempo, esta taxa passou de uns inacreditáveis 63,7% para 27,1%.

Obviamente, tudo isto foi possível com investimento. Segundo os dados disponíveis, em 1972 o investimento do Estado em percentagem do PIB era 1,4. Em 1980 3,1; em 1990 3,7; no ano 2000 de 4,8%, tendo atingido um máximo de 5,2% em 2002. Estamos, com Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, pela primeira vez, em muitos anos, abaixo dos 4%, algo absolutamente inacreditável no contexto europeu.

Em síntese, a Escola evoluiu e muito, algo só possível com investimento público. Claro que, com maiores taxas de sucesso, temos mais portugueses a acederem a mais formação e isso é um património que melhora a vida de cada um de nós, quer individualmente, quer no plano colectivo.

Acontece que para os (alguém me ajuda a encontrar um qualificativo adequado?) que nos governam, este percurso de sucesso da Escola Pública é algo que não faz sentido porque o povo não precisa de cultura, de educação e de formação, pelo menos no plano individual. Desde que aprendam o suficiente para serem empregados eficazes e obedientes – matemática e português é suficiente – parece que nada mais importa. Só assim se explica o desinvestimento na Educação Física, nas Expressões artísticas e até na falta de apoio aos alunos com mais dificuldade. Nas escolas de hoje parece que só os exames contam – é só isso que interessa aos Directores. Isso e o folclore municipal que algumas autarquias lhes querem dar. Na escola de hoje, aluno com dificuldade, é aluno perdido. Se não sabe, soubesse. Se não sabe, procure explicações. Se não sabe, não há problema – nem todos podemos ser doutores.

E, só assim se explica a vontade do Governo em passar as Escolas para as Câmaras Municipais. É um passo intermédio, até permitir a privatização porque o objectivo não é descentralizar, nem tão pouco dar mais poderes às escolas. O governo quer apenas ver-se livre de uma parte fundamental do Estado Social – a Escola Pública, porque os donos do dinheiro acham que esse é um bem desnecessário para o povo. É tão simples, que, confesso, não consigo entender o silêncio de tanta gente.

 

 

 

Comments

  1. João Paz says:

    O seu artigo fala claro e coloca os pontos nos ii , excelente artigo João Paulo. Deixe os vendidos do governo esbracejar e os seus (muitos ) acólitos nas tvs a tentar impingir-nos outras razões. A “experiência ” sueca bastaria para os calar mas todos os que mencionei atrás sabem que estão a destruir o futuro de gerações mas como muito bem diz “os donos do dinheiro” assim lho impoêm como tentativa desesperada de salvar o sistema e de obterem mais uns quantos milhões para os amigos. já possuidores de contas obscenas.
    Como diz um velho ditado popular “não há bem que sempre dure (ensino público de qualidade entendo eu) nem mal que não acabe (a destruição da qualidade de vida provocada pelos que têm como master supremo os mercados e os agiotas da dívida)”.
    O tempo dessa cambada acabará e muito mais cedo do que muitos deles pensam.


  2. Em vez de comparar a taxa de analfabetismo de 1970 com 2011 seria, talvez, mais curial comparar a taxa de analfabetismo de Portugal com, por exemplo, a de Espanha de 1970 e a de 2011 (isto mesmo dando a que indica por boa, do que, como devido respeito, muito se duvida) igualmente com a de Espanha de 2011. É que continuamos muitos lugares abaixo do país vizinho – sendo certo que o regime de Franco não se destacou por um esforço desmedido na educação.
    Isto é, estes útimos 40 anos não se recomendam.

  3. Júlio Coelho says:

    Texto bastante pertinente que gostei de ler, meu caro João Paulo. Pessoalmente vejo com muitas reservas esta municipalização da educação pois, em primeiro lugar, a transferência de competências para as autarquias, não será acompanhada das necessárias transferências de recursos materiais; em segundo lugar, atendendo ao que tem sido usual num número significativo de municípios (creio que Gaia será, neste particular, uma honrosa excepção), as escolas perderão a pouca autonomia que lhes resta e passarão a ser mais um departamento municipal e os directores das escolas/agrupamentos, não passarão de funcionários municipais hierarquicamente dependentes do vereador que tutelar a educação (que, recorde-se, será um político que pode não ter as mínimas qualificações, nem sensibilidade, para desempenhar tal cargo) deixando de deter o ilusório poder que imaginaram, alguma vez possuir.
    É hoje muito claro que este governo tem uma agenda ideológica que passa por destruir o Estado Social e, nesse contexto a escola pública estará em primeiro lugar para a extinção. Na mente dos “iluminados” que nos governam, a maioria da população não necessitará mais do que saber o “ler, escrever e contar” na definição nua e crua do tempo de Salazar, hoje reformulado para competências/metas de aprendizagem de matemática e português. Só não percebo porque razão é que o Nuno Crato ainda não recuperou a figura do regente escolar de Salazar. tinha mão de obra muito barata na educação e evitava a avaliação de professores.


  4. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

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