Esta porra triste

Aos que emigraram e nos pedem notícias, acabamos a dizer: “Eu não vivo em Portugal, eu sobrevivo-lhe.” Levamos a nossa rajada diária de tiros sob a forma de notícias do caos – na saúde, na justiça, na educação, na máquina estatal. Cada jornal que lemos, cada bloco de notícias a que ainda temos estômago para assistir arrancam-nos o mesmo rosnado e impotente “Filhos da puta”. Fomos rebaixados de cidadão a contribuinte enquanto o diabo esfregava um olho. A grande máquina olha-nos com desconfiança, rotula-nos de prevaricadores, trata-nos com soberba e desprezo, cospe ordens de penhora, multas gordas de juros, exige-nos mais. O discurso oficial, a narrativa, ensina-nos a desconfiar de quem pede e a não duvidar da palavra de quem rouba. Ser forte com os fracos e fraco com os fortes é o credo que vigora.

Somos governados pelos piores. Mentem-nos com descaro, traem os nossos interesses, hipotecam o nosso futuro e o dos nossos filhos e netos, humilham-nos e ainda nos tratam com ressabiado cinismo porque nos dão como mortos, ou inválidos ou para sempre adormecidos.

Os tentáculos desta coisa que nos sufoca estendem-se por todo o lado, fazem fendas nas paredes, sufocam as bocas antes de elas se abrirem. É uma espécie de mal indefinível, como nos bons contos de terror, que toma conta de uma comunidade e ninguém sabe bem como começou nem como livrar-se dele. Por vezes, a solução é tão simples como abrir a janela mas é da natureza desse mal instigar a crença de que não se pode lutar contra ele. Entorpecida, desorientada, a vítima sente-se sem forças, acha que não vale a pena e acaba exangue, vencida.

Esta porra triste, nossa vergonha mas ainda nossa esperança, este país onde os velhos passam fome e as crianças não nascem, vai-nos cobrindo com a miserável capa da angústia conformada. Deixámo-nos convencer de que não vale a pena abrir a janela, que o conhecido é menos mau do que o está por conhecer, e que resignar-se é sobreviver. Sabemos que é mentira, sabemos que o tempo escasseia. E agora?

Foto: Carla Olas

Comments

  1. Nuno Leitão says:

    Verdade!

  2. Ricardo says:

    Muito bom. Convido-a para que vá a este enlace que retrata bem aquilo que quis dizer neste post,
    Se já conhece dê a conhecer a quem não conhece.
    Isto deveria ser o hino do povo nas proximas eleições.


  3. Todo o sistema político da esquerda à direita(o que seja que signifique esquerda e direita hoje em dia)está podre e alimentar qualquer ideia de esperança aí é mais ilusão.Por norma precisamos em Portugal de chegar ao completo descalabro para mudar,e quando mudamos nem sempre é para melhor(vejamos bem os últimos 200 anos com a nossa suposta revolução de liberdade e progresso em 1974).


    • Não sei se “todo o sistema político da esquerda à direita está podre”. Sei que o poder governativo tem sido exercido por três partidos dos quais já não espero nada. E suspeito da eficácia de um modelo em que os cidadãos se abstêm da militância política e da intervenção cívica e a entregam inteiramente nas mãos dos partidos.


  4. Não a conheço, Carla, mas gostaria. Esta é, na minha opinião, uma das melhores publicações do Aventar. E olhe que a qualidade do que se tem escrito neste blogue é bastante elevada. Parabéns!


    • Obrigada, Alcídio. Não me ficará bem dizê-lo – mas também já estou cá há tempo suficiente para poder borrifar-me nisso – mas acho que o Aventar está a viver um dos seus melhores momentos, com excelentes autores. E leitores!

      • José almeida says:

        Saramago disse que sabia que os livros dele não íam mudar o mundo. Porém, parar, nunca. A Carla jamais se borrifará para isto, o que provavelmente pensa é que o Aventar lhe rouba tempo para outras coisas, nomeadamente editar um livro. Força.

  5. Maria says:

    Carla, por vezes sinto-me tal como descreve. Aprisionada numa coisa triste, numa realidade pardacenta, cujos tons de cinza me ferem mais por ter dois adolescentes que criei na crença da verdade, da solidariedade, da ética, do justo e da justiça e a quem já quase não consigo explicar com coerência que é assim que se caminha no bom caminho.
    Quero abrir a janela, preciso de abrir a janela mas não sei se o tempo lá fora me permite algum dia voltar a ter sol…


  6. Parafraseando o poeta, Maria:
    O nosso mundo é este…
    Mas há-de ser outro!
    Força Maria!

  7. No one says:

    Confesso que também sai da minha boca um enraivecido “Filhos da Pu…” quando ouço os senhores comentadores que são jornalistas ou empresários ou não sei o quê, e que tanto trabalharam/trabalham para nos “evangelizar” através dos media. Ou os senhores deputados que dizem que os portugueses já começam a “estar melhor”, que não é só o país que “está melhor”. Ou os marcos antónios costas e nunos melos a “marcarem pontos” à custa do outro costa, que diz que dizer “diferente” não é dizer “melhor”. Filhos da P…, todos eles. Estão a brincar, com palavras, entre risos, e eu quando saio à rua… vejo filas enormes, às 3 da tarde, à porta dos centros de apoio aos sem-casa, vejo os balneários públicos com imensos “clientes”, vejo pessoas que podiam ser o meu pai ou o meu avô, com “ar normal”, à espera das carrinhas da comida. Vejo tanta gente na estação da gare do oriente, uns velhos outros novos, e e apensar, ao longe, “tanta gente a fazer tempo para apanhar o comboio/metro”, mas ao aproximar-me, todos eles revelam pelos seus pertences ( sacos/malas/cobertores) ou aspeto, que estão à espera não de um comboio, mas de que a vida passe. Uns para entrarem, outros já não terão outra vida. E podia ser eu, ali, naquele corredor da Gare do Oriente. Eu que “ajustei” com o sr. Gaspar, e mudei de casa para ficar mais perto do meu local de trabalho, porque já não tinha ordenado que desse para pagar a gasolina. Tenho a mania que sou “fina”, não quero demorar 3 horas de viagem ida/volta, com “bordos e transbordos” nos transportes públicos, para ir trabalhar. E “ajustei” e deixei de comprar no supermercado a comida que me apetecia comer. Invento com o que estiver na dispensa. Nunca comi bifes todos dias. Porque não era a minha escolha. Agora a minha escolha é: “latas de atum ou de cavala? quantas latas para dar para o mês todo? vou intercalar isto com o quê? 2 peitos de frango, pequenos, olha o preço,bem cortadinhos, misturados com massa, hão-de dar para 2 refeições.”. Decerto, vivia além das minhas possibilidades. Hoje sei que era uma gastadora irresponsável, quando decidia fazer lombo de porco assado no forno. Lombo, meu deus! Quem é que eu pensava que era? Uma vulgar assalariada que vivia/vive com o seu salário. Com cortes, ajustamentos, contribuições especiais, e mais trabalho por menos dinheiro. Ainda não parei de “ajustar”. E sou uma “sortuda”. O problema é que eu sei que, o que me separa dos que “esperam” na Gare do Oriente”, não é muito. Muitos deles já foram eu. E continua “esta porra triste”. Saravá.

  8. Alexandre Carvalho da Silveira says:

    A Carla Romualdo e os comentadores choramingas que lhes dão aqui os amens mereciam ter nascido no Taíti ou no Burkina Faso, para verem o que “é amar a Deus”. O vosso problema é terem nascido num país que apesar de tudo lhes proporciona um bem estar social para o qual se calhar contribuem pouco ou nada.
    Este país que tem há muito, não é de agora, enormes dificuldades, não é o antro de tristeza que aqui se descreve. Eu parto do principio que tanto a Carla Romualdo como a generalidade dos comentadores são pessoa jovens; deviam ter vergonha de exibirem esses estados de espírito derrotistas quando têm a vida toda pela frente.
    Nota: claro que o mais fácil é culpar os politicos que temos, mas esse problema em principio deveria resolver-se a cada quatro anos, não é?


    • “se calhar contribuem pouco ou nada.” Está enganado, ACS, vivi sempre do meu trabalho e pago os meus impostos e contribuições. Está a confundir-nos de certeza com o seu primeiro-ministro.

    • joao lopes says:

      o “observador” lava mais branco,por isso mesmo o actual PM nunca fugiu ao fisco,afinal ele não tem “consciencia” dos impostos que as pessoas pagam,porque ele não os paga…

      • Alexandre Carvalho da Silveira says:

        Fisco é uma coisa segurança social é outra. A ignorância é um espanto!

        • joao lopes says:

          na declaração de IRS,existe um item para declarar descontos para a SS.sabia? pelos vistos a sua ignorancia é tipica dos lambe botas do blasfemias/observador.já agora já trabalhei a recibo verde,portanto sei das minhas obrigações,o seu querido lider não tem “consciencia disto”,porque não era ele que prenchia o irs,ele só ia buscar uns milhares de euros na tecnoforma,não declarados…

          • Alexandre Carvalho da Silveira says:

            O que é que tem o IRS a ver com os descontos para a segurança social ó sr joão lopes burgesso? uma pessoa pode pagar o IRS e não pagar os descontos para a ss.

    • Nascimento says:

      Ó asno o meu problema é que merdas como tu, vomitam asneiradas aqui no tasco. Ó lol,vai-te catar pró Haiti,erm vez de andares a tentar saber a idade dos outros “choramingas”, se eles trabalham ,etc…e sabes uma coisa? Tu nem merecias ter nascido, meu inverterbrado de merda.

      ps. Peço desculpa á Carla ,mas ,quando leio as bostas dos Alexandrinhos ,não resisto,….não consigo ser bem educado perante um escarro/ facho.Quem quiser “argumentar ” com a bosta ,que o faça. Moi? já não tenho pachorra…só ao estalo.

      • Alexandre Carvalho da Silveira says:

        A maneira como o Nascimento se expressa diz bem do que ele é: um pobre diabo. Quanto aos estalos é quando quiseres ó Nascimento.

    • Maria says:

      Alexandre Carvalho da Silveira says:
      04/03/2015 às 01:53

      Faço minhas as palavras da Carla. Além de ter os impostos e contribuições em dia (o que não é difícil, pois trabalhadora por conta de outrem), conheço as minhas obrigações declarativas e o respectivo calendário fiscal e contributivo.

      O que não reconheço nem pratico, enquanto cidadã, contribuinte fiscal e da segurança social, é a hipocrisia, o cinismo e a mentira.

      E aí, posso asseverar-lhe, que sou uma cidadã perfeita, que é o mesmo que o PM declarou não ser.

      O que resta da sua opinião, que não discuto por ser tolerante e acreditar que mesmo aos néscios não se deve barrar a palavra, é feio, patético, arrigante, mas fica para si.


    • Alexandre Silveira, respondo-lhe apenas para lhe dizer 3 coisas: 1.ª Elogiei o texto da Carla e, garanto-lhe, não a conheço; 2.ª Não sou propriamente jovem, pois tenho 52 anos; 3.º Tem um “gosto” no seu comentário. Fui eu quem o fez, por engano. Leia-se “não gosto”.

  9. nome obrigatório says:

    Tem toda a razão o sr. alexandre 01:53. Muitos passam fome? Também muitos há que comem. A vossa casa (que não é vossa, é do banco), é penhorada por dívidas à Segurança Social, porque sois trabalhadores precários e “desviaram” esse dinheiro para pagar a conta do supermercado, mês após mês? Sois abençoados, ficam sem casa, mas têm algo com que pagar a dívida. Trabalhai, votai e calai. Pensem sempre que podiam ter nascido no … Haiti. “O Haiti não é aqui”, como diz aquele sr. brasileiro que canta tão bem. Amén.

  10. Ausente says:

    Vao-se entretendo com o Podemos, com o Livre, com o “diferente” com o Syriza, os sem gravatas, o preso 44, o esquecimento do PC pagar o que devia, etc.
    Felizmente que entrou hoje ou ontem em cena uma nova novela. O personagem pretence ou pertenceu a um clube de futebol.
    Viva a desmocracia!


  11. os bpys and girlg aparecem sempre… é mentir minha gente que o tacho pode ficar sem efeito, se o povo acorda!

  12. A. Pedro Correia says:

    Tenho para mim que Portugal tem sido paulatinamente desportugalizado nas últimas décadas, que perdeu o sul, o leste e o oeste, e parece andar apenas à procura do norte.
    E alguns foram mais desportugalizados do que outros, como será o caso daquele sr que opinou ali em cima, que não sabe sequer que para nascer onde quer que seja basta a nossa mãe lá estar naquele momento.

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  1. […] N’Esta porra triste de país que alguns lunáticos entendem estar melhor, onde fanáticos extremistas aparentemente se deixam falecer em urgências de hospitais públicos, movidos por utopias gregas do campo ideológico da literatura infantil, houve um dia um contador de histórias que, perante uma clientela assembleia em profundo êxtase, afirmou o seguinte: […]

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