A queima e as fitas

Começou a festa aqui em Coimbra. Por quase duas semanas, a cidade sofrerá, perdão, beneficiará de todos os efeitos funestos, quer dizer, festivos, desse facto. Gozará de todas as alegrias que cabem aos reféns. E não é preciso estar atento ao calendário. Os sons,os cheiros alertam-nos para a festança. Que bom! Ainda ontem tomei nota da data de início ao ouvir os urros de júbilo que ecoavam na noite (durante toda ela…). Ouvi o bonito som das garrafas de cerveja que se partem contra os obstáculos que se interpõem no seu trajecto, o excitante exercício de percussão sobre contentores do lixo, que nos faz dançar na cama e – oh excelência de imaginação! – o rodar desses mesmos contentores empurrados, em roda livre, pela rua abaixo. Lindo! E notem: mais de cem quilos de contentor rodando livremente, sobre as suas quatro rodas, pela ladeira, acrescenta um je ne sais quoi de emoção: irá acertar numa porta? Irá embater num carro que, incauta e despropositadamente vai subindo a rua? Ou num cidadão ou, maior emoção ainda, numa criança? Tudo pode acontecer e ninguém vai levar a mal aos simpáticos e irreverentes foliões. A minha vizinha, a quem, no ano passado, urinaram na caixa de correio – que engraçado! – no dia em que recebia correspondência da sua filha emigrante espera, com a natural e ansiosa emoção, o que lhe irá acontecer este ano. Hoje apanhei um autocarro que, apesar de ir vazio, cheirava vibrantemente a mijo e vómito. Quer dizer: os alegres celebrantes, não se poupando a esforços, querem, até, partilhar connosco os seus fluidos festivos. Afinal – pensam eles, ‘taditos, ninguém lhes explicou melhor – isto é tudo tradição da Academia e tal e coisa. Quem não vai gostar são os médicos, enfermeiras, auxiliares e técnicos do Hospital da Universidade que, em vez de terem a Urgência cheia de doentes, vão tê-la cheia de estudantes em coma alcoólico. Esta malta da Saúde tem cá um mau feitio…

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Vivemos tempos estranhos, o tempo dos “grunhos”. Eles estão por todo o lado, mesmo nas academias.


  2. Este tipo de vivência não surgiu por acaso.

  3. maria celeste ramos says:

    Pois é que maravilha de comportamento dos meninos frequentadores da 2ª universidade mais velha do mudo que estudam nem sei o quê nem quanto mas certamente de borla com o IRS alheio, e que depois de doutorados serão os autarcas e governantes e decisores do pais e da construção da economia e finanças e desenvolvimento e CULTURA e que irão dar ao MECO sem saber como nem explicam nem se lhes pede explicação – E se por acaso não estiverem satisfeitos com o que de borla lhes é oferecido irão lá para “fora” porque aqui nem sabem para ensinar os mais novos que até vão à TV de orelhas bem abertas e de quem fazem troça e humilham pois tomarão os lugares onde acham que têm tal direito pois pertencem às gerações que só têm direitos – e mesmo assim, e por enquanto, mesmo sendo estes anormais ainda têm lugar nos países que os apreciam – pois é de ficar expectante que pais irão construir ou ainda mais desconstruir – pois sacam-me o meu IRS para formatar anormais do pk no telemóvel e outras aberraçoes
    que os leva a nem ser necessário perceber português, mas sabem muito inglês, se calhar porque ainda nem aprenderam a abreviar mas por este andar lá chegarão tal é a velocidade com que estudam e falam e correm – que belo pais se desenha governado pelos que acederam ao mail alto grau dos saberes do país


    • Coimbra não é, nem de perto nem de longe, a 2ª universidade do mundo, nem a 3ª, nem a 4ª e nem a 5ª (Bolonha, Paris, Oxford, Cambridge, Salamanca, Modena, Siena, Pádua…). Quanto às festas e bebedeiras elas já assim eram na década de 50. Foi o que me contaram quando por lá andei. Os comportamentos não eram muito diferentes. Eram em menor quantidade porque só os filhos das elites podiam frequentá-la, com algumas excepções. E por falar em comportamentos, no quartier latin, onde se situa talvez a 2ª mais antiga universidade do mundo, era perigosíssimo andar durante a idade média e a renascença. As forças da ordem nem por lá se atreviam tal a fama dos estudantes. O velho do Restelo fez escola. Se a geração não presta foi porque a geração que a antecedeu, e de que faço parte, fracassou por completo. Agora aguentem-se.


  4. Gabriel Reaccionário, no teu tempo é que era bom, não era?


  5. Comento comportamentos determinados e não faço generalizações. Em nenhum ponto refiro os “estudantes” em geral, a Academia em geral, ou faço considerações sobre “gerações”. Não leiam aquilo que lá não está. Também não faço confrontos com “outros tempos”. Era interessante discutir este ponto mas, nestes termos, não vale a pena.

  6. Zé Mónica says:

    Num tempo em que se fala tanto de empreendedorismo…

    Nascemos com quase nada e aprendemos quase tudo. A família e a escola são os primeiros e os principais responsáveis pelas nossas aprendizagens, quer de competências quer de valores. Embora haja “política” e “ideologia” nas nossas decisões e ações no dia a dia, nunca devemos esquecer que elas começam em casa e na escola. Por isso, a família, os pais e a escola devem dizer e fazer o que lhes compete, de preferência, cumprindo sempre aquilo que dizem. Isso mesmo devem ensinar aos filhos e alunos.
    Contudo, e depois de tantas leis de reformas e mudanças na sociedade e nas instituições, são cada vez mais as famílias que continuam a demitir-se do seu papel de educar para o trabalho e para o civismo; os currículos do ensino continuam a produzir programas que, não sendo de todo inúteis, não ensinam nada sobre o tal espírito empreendedor, e sobre o civismo não produziu significativos efeitos. Deixo aqui alguns exemplos, poucos, mas muito paradigmáticos daquilo a que assistimos há muitas gerações e quase todos os dias, em vários setores da vida pública e privada: até ao 12º ano, inclusivé, os alunos não aprendem nada sobre projetos, planos, “planos de negócios”, relatórios, etc. Também já fui estudante, trabalho no ensino há 26 anos, tenho uma filha que já passou pelo 12º ano no curso de ciências e tecnologias, que adora ler desde pequenina e, como ela mesma costuma dizer, “a disciplina de Português e a Literatura devem fazer sempre parte do currículo em todas as gerações, mas não ensinam os alunos a fazerem uma coisa simples e muito útil, por exemplo, como redigir um relatório, nem mesmo no 12º ano, ás portas de entrar na universidade”; durante os dias das “queimas” das várias academias universitárias, verifica-se que o empreendedorismo e o civismo estão no chão e na sarjeta – o mais visível são as latas, os copos e a cerveja, tudo em abundância como manda a praxe, para festejar e até afogar as mágoas, que também é preciso, mas cujo exagero e despropósito provam que vivemos mesmo em tempos de crise, de muitas crises! É claro que o lixo produzido terá de ser resolvido por outros que não os produtores do mesmo, os chamados “carros-vassoura” que não aprenderam nada sobre projetos de empreendedorismo, de negócios ou competição. Não queremos empreendedores do “lixo” mas exemplos de boas práticas que devem servir de modelo às gerações seguintes. Então, chegou a hora de dizer que o verdadeiro empreendedorismo começa no berço e nos bancos da escola. Não seria melhor ensinar as nossas crianças e jovens a cumprirem, efetivamente, uma coisa simples como “empreender” uns sacos, caixas ou caixotes para despejarem o lixo da mesma forma que “empreenderam” caixas e caixotes repletos de bebidas para se abastecerem nos longos e animados desfiles académicos pelas cidades? Depois da euforia, o rasto que fica para trás é o cheiro a bebedeiras, a visão da sujeira e a sensação de tristeza e desilusão. Eles têm razão quando dizem e escrevem nos cartazes que o futuro é negro e incerto, mas a negrura e a incerteza do seu futuro serão tanto maiores quanto menor for o seu empenho e sentido de responsabilidade. Em democracia, a liberdade e a responsabilidade devem andar sempre de mãos juntas, por todos e para todos. Os responsáveis pelos currículos e programas escolares devem produzir esses modelos e garantir que se perpetuem. Ás portas da universidade, a aprendizagem dos valores e das competências, do saber ser e do saber fazer, já deveria estar numa fase mais avançada. Seria um pequeno passo para o empreendedorismo, mas um grande passo para mais sucesso e felicidade para todos.

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