A guerra não foi um filme americano

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É natural que os vencedores escrevam a sua versão de uma guerra, as suas histórias. Não lhe chamem é História.

Setenta anos depois da derrota do nazi-fascismo Clara Barata escreve no Público, e sem se rir, sobre “o mito estalinista de que a salvação do fascismo assentou no sacrifício do povo russo“,  para depois tropeçar em sim mesma e criticar: “os 27 milhões de mortos só contam como pequena história, a história familiar, dos indivíduos, e não como análise, reflexão. Aliás, desde 2014, existe uma lei que pune com penas até cinco anos de prisão a “distorção” do papel da União Soviética na II Guerra Mundial.”

Como se o revisionismo não estivesse sujeito a idênticas condenações em França ou na Alemanha, como se a II Guerra Mundial tivesse sido um filme americano desembarcado na Normandia.

O primeiro problema historiográfico das guerras, seus vencedores e vencidos, é o da sobrevivência do positivismo oitocentista, que reduz a a História aos líderes, fazendo de Hilter o único mau da fita, elevando Churchill a homem espectáculo (e esquecendo que em Inglaterra, no poder, estava um governo de coligação) e metendo Estaline onde não é chamado.

Quem ganha e perde as guerras não são os generais, pese a importância do seu trabalho, são os soldados. E nesta, muito mais do que noutras guerras e sem qualquer comparação possível com a I GM, foram os povos, o Jean, o Igor, o Robert, o Manolo, os mortos e vivos que voluntariamente, soldados ou resistentes, combateram os exércitos do eixo e quem os apoiava, os justos vencedores.

Sim, indivíduos, soldados desconhecidos, camponeses anónimos, operários sem nome, empregados de comércio que não recordamos, indivíduos que formam povos, classes sociais, gente que em grupo foi gente gente e não se reduziu à cobardia generalizada dos que se submeteram e calaram, essa outra massa anónima que também perdeu a guerra e pelo esquecimento do seu colaboracionismo tantas vezes poupamos.

Em pleno séc. XXI retirar o social da História nem é revisionismo, é pura aberração científica, mera ficção hagiográfica, não por acaso coincidente com o regresso ideológico do individualismo nas formas neoliberais, que berrando pela liberdade tenta ocultar a sua origem, construída em Mont Pèlerin como alternativa de sábios ao nazi-fascismo derrotado.

Acresce que, além de o número de mortos ser indicador mais que suficiente sobre quem virou a guerra ao contrário, só em West Point e nos livros das Selecções do Reader’s Digest ainda se faz do desembarque na Normandia uma batalha decisiva, quando depois de se passearem as tropas nazi-fascistas por uma Europa desprevenida (e tudo começou e se comprova em Espanha) perderam em Estalinegrado, e principalmente foram derrotados em Kursk. Não por valorosa obra de Estaline, que além de se armar em general de opereta tinha purgado o exército vermelho dos seus melhores comandantes, mas por feito dos soviéticos (não confundir com russos, outro anacronismo frequente que apaga tantos povos), seja na frente de combate, seja na retaguarda fabricando tanques ou munições. Foi aí que a Alemanha e seus esquecidos aliados perderam a iniciativa, é a partir daí que a contra-ofensiva começa.

Que andem os poderes da Europa, com a Alemanha no comando, a brincar à I Guerra Mundial com a Rússia, é uma coisa. Propaganda de guerra como a que levamos sobre a Ucrânia, onde deliberadamente se toma por cá o partido de um dos lados imperiais, omitindo a presença de nazis nas suas fileiras, é a mesma coisa.

Que sirva de desculpa para negar factos históricos claros como um floco de neve a congelar a Luftwaffe, é outra. Chama-se propaganda de guerra, e se andam a preparar mais uma, façam o favor de se assumirem.

Ficou isto muito claro nas celebrações dos 70 anos da vitória dos aliados, esses mesmos que souberam colocar o essencial acima das suas próprias divergências, numa guerra que colocou de um lado os humanos e do outro as bestas. Não foi isso que os seus herdeiros, a ocidente negando o papel do Leste, e a Leste exibindo desfiles militares, andaram a fazer por estes dias.

Comments


  1. Pode considerar-se um facto. Não tivesse Hitler invadido a União Soviética e tinha ganho a guerra.


  2. O desembarque na Normandia também foi decisivo, até para a URSS. Pois sem a entrada dos EUA em força, o esforço de guerra alemão a Leste teria sido ainda maior. No final também foi importante para os povos europeus, pois sem ele, a Europa do pós guerra teria ficado vermelha, orbitando em redor de Moscovo.
    Quanto à indiferença com que os líderes europeus trataram ou ignoraram Hitler, se falas eu guerra civil de Espanha, porque esqueces os acordos de Munique ou o cínico pacto Molotov-Ribbentrop?
    E convém também não esquecer que a par da guerra na Europa existiu em simultâneo o pacífico, onde o Japão só foi combatido e derrotado pelos EUA. Apesar dos países asiáticos serem à época colónias britânicas e francesas, mas as potencias coloniais foram incapazes de defender os seus territórios, com o Japão a ocupar tudo, China incluída, até Pearl Harbour. A partir daí o curso da História inverteu-se.
    Mas não existiu um vencedor único, nem tão pouco um derrotado único, porque de facto ninguém combateu sozinho. As raízes do trágico conflito terão estado na Justiça dos vencedores, aplicada no final da WWI…


    • – Batalha de Kursk, ou seja, derrota da Alemanha a Leste, que a partir se limita a uma acção defensiva: 23/7/1943 (final).

      – Desembarque na Normandia: 6/6/1944, já quase toda a União Soviètica tinha sido libertada. O mesmo não direi do Desembarque na Sicília, esse sim, fundamental na sorte da guerra.

      São factos. Como é um facto que o acordo de Munique foi meramente táctico, ganhando tempo para preparar a resistência à invasão da URSS, objectivo principal de Hitler. Provas? precisamente o empenho da URSS em combatê-lo na Espanha, quando ainda não era óbvia a capitulação anglo-francesa, que se confirma na anexação da Checoslováquia. Vergonha foi isso mesmo, abandonar o governo legítimo do estado espanhol e permitir a Hitler todas as anexações até tomar foros de escândalo, e tem um nome: o conservador Chamberlain.
      De resto, em matéria de amnésias, esquecer que o primeiro batalhão que entrou em Paris era espanhol, a importância do desembarque na Provença (uma chatice, a maior parte dos franceses eram pretos), etc etc, faz parto do mesmo filme.


      • Nem uma palavra sobre a Ásia. A Europa é que conta? Os outros eram amarelos…


        • A guerra não foi bem a mesma, teria sido se o Japão tivesse atacado a URSS. E se aí o papel dos EUA foi determinante, convém não esquecer os chineses, os australianos, etc. etc.


          • Tenho para mim que a bomba atómica foi lançada a tempo de evitar que a URSS entrasse na guerra do pacífico, facto a que estava obrigada pelos acordos, mas que lhe permitiria reclamar depois os despojos…


          • Eu diria que esse crime de guerra foi cometido para iniciar a guerra fria em vantagem. Nem sequer foi útil durante muito tempo.


          • Os melhores cientistas alemães já estavam tomados, mas aqui não existem inocentes. Wernher von Braun é bastante conhecido, mas Klaus Fuchs não foi personagem secundário…
            Mas isto já é outra história!


  3. Mudando Hitler por EI .. quem dúvida, quem apoia quem? GENOCIDAS são genocidas tenham o nome de Hitler ou ISIS, mas pelos vistos, uns são melhores que outros.. vendo bem, quem estando ao lado dos nazis teria tantos jeeps norteamericanos na Síria e no Irak? quem estando ao lado dos nazis, teria tanto markting em jornais como o Expresso, Público ou Diário de Notícias? pensem nisso!!


  4. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

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  1. […] Mas o ponto alto foi mesmo o ex-presidente da ANA, que estabeleceu umas das mais belas comparações de sempre em directo na televisão, afirmando que os países que apostaram na gestão pública de empresas já tinham desaparecido e que – reparem na genialidade – o bloco comunista caiu por causa disso. Por não conseguir gerir bem empresas. Eu não sei se aquele senhor já terá ouvido falar nesse tão nosso parceiro comercial que é a China, que tantas compras tem feito por cá e que tantas empresas poderosas e rentáveis possui e gere. Esta conta como revisionismo João? […]

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