Uma religião chamada Inglaterra

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Experimentem pisar a vaca a um hindu, desenhar Maomé em frente de um crente, ou dissecar o sistema eleitoral britânico estando ao alcance das direitas: a reacção será a mesma.

Compreende-se, porque a suposta superioridade da democracia inglesa quando tropeça lhes estraga todo um enredo, o da superioridade de um país que continua a colonizar outros, onde o princípio elementar de que todos os homens nascem livres e iguais ainda esbarra na persistência da nobreza, a pátria dos tablóides e de Alan Turing,

Vamos a factos: o sistema pode ser antigo, e foi muito avançado em seu tempo. Não o é hoje, porque invoca a criação de maiorias em detrimento da representatividade, fazendo do parlamento uma anedota (e vá lá, a Câmara dos Lordes, esse supremo exemplo da autoridade aristocrática, já não é o que foi). E porque há sondagens, que condicionam a votação.

Vamos a evidências: a contagem de votos na Venezuela é supervisionada por observadores internacionais:

O processo eleitoral na Venezuela é considerado o melhor do mundo pelo ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, que coordena uma instituição de monitoramento de eleições ao redor do mundo há mais de uma década.

Gostava de o ver na Inglaterra, onde os eleitores não são identificados, se vota com um lápis, e um pénis (não confundir com a moeda britânica) bem desenhado é voto aceite. Para justificar isto, ouvimos a tradição, a confiança no homo britanicus, um ser extra-terrestre de suprema bondade e honestidade, o homem novo estalinista, portanto. Mas claro, a Venezuela é a Venezuela, e porque é que é a Venezuela? porque é a Venezuela, aquele país onde quando a oligarquia ganhava eleições ninguém reparava no seu sistema eleitoral, direitos, liberdades e garantias.

A Inglaterra? nem pensar nisso. Esta listagem de denúncias de possíveis fraudes nunca existiu.

Posto isto, há um último argumento que não o sendo parece: o de que se ataca o sistema por causa dos resultados destas últimas eleições. Por acaso até posso localizar quando me comecei a escandalizar com o sistema britânico de voto: 1989, onde os Verdes com 15% de votos não elegeram ninguém para ao Parlamento Europeu.

Mas não precisava. Porque, também em resultado de um sistema que só permite dois partidos, desde a passagem da amiga de Pinochet pelo poder que a diferença entre Conservadores e Trabalhistas é meramente folclórica, existindo apenas na cabeça do professor Vital Moreira. Um partido que não expulsa um criminoso de guerra chamado Blair é tanto de esquerda como eu sou de direita. Os sindicatos (de onde vinha a força de esquerda dos Trabalhistas) foram arrasados, o pensamento único em modo TINA institucionalizou-se, exactamente o que a direita acusa os bolivarianos de terem feito na Venezuela.

De resto os resultados destas eleições são históricos para a esquerda: os seus únicos candidatos obtiveram bons resultados, fruto precisamente de um sistema eleitoral que algum dia teria de falhar: os escoceses deram uma abada aos partidos do sistema.

O problema é pertinente, em Portugal, porque António Costa defende círculos uninominais. E no estado actual da Europa os partidos que acham o poder monopólio seu farão todas as mudanças eleitorais para o conservarem. Pese que um círculo nacional pode compensar o absurdo à moda inglesa (tal como o sistema francês de segunda volta não deixando de ser mau é menos mau), toda a cantilena que lhe está associada é mentirosa e perigosa. É mentira que tal aproxime o deputado dos eleitores: a mim representa-me quem recebe o meu voto, e no caso de não ser eleito, representa-me o respectivo partido. Em eleições fulanizadas parte em vantagem quem tem mais meios financeiros. E é perigoso porque tenta fingir que os partidos não representam ideologias e não têm programas, que é precisamente onde votamos. Se os partidos a quem se pretende oferecer a eternidade têm maus candidatos de segunda linha, o problema é de quem vota neles, não é meu.

E depois há a engenharia eleitoral, tão americana, tão portuguesa no séc. XIX (sim, já tivemos círculos uninominais) e também inglesa, pois claro, esperem pelo que vai acontecer à Escócia.

Compreende-se a defesa de um regime que apenas permite a vitória de dois partidos, repito, a seu tempo foi dos mais avançados do mundo, dois partidos sempre é melhor que nenhum. É o sonho húmido de quem se esforça por torturar a Grécia para não perder no estado espanhol. Mas não lhe chamem democracia: podem não ter reparado mas estamos no séc. XXI.

Comments

  1. Nightwish says:

    Pois, também lhes correu um bocado mal na Grécia, quando decidiram dar mais 50 deputados ao partido maioritário.

  2. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  3. ZE LOPES says:

    Tenho a impressão que só um fator pode explicar a vitória do Camarão sobre o Milibando: o penteado. É uma coisa muito valorizada nos sistemas uninominais e, temos que reconhecer, aí o Camarão esteve melhor. Aliás, foi no afã de copiar tudo o que vem de fora, que em Portugal se fez a coligação PSD/CDS.: um com mais cabelo, outro com menos, que é para apanhar todo o eleitorado. Nesta guerra, não sei se o Costa se safa. Muito menos com círculos uninominais, já se vê.

    • ZE LOPES says:

      Última hora! José Lello e Francisco Assis (assessorados por Centeno, é claro!)ofereceram-se para ser os cabeleireiros da candidatura do PS. Não se será uma boa escolha…

  4. ZE LOPES says:

    E uma prova do que acabo de dizer são aquelas cabeleiras que os “lords” usam em algumas cerimónias: é para não dar publicamente a entender as diferenças políticas, simbolizando unidade, harmonia e fraternidade. É tão lindo!

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