A lição de Tsipras

Tsipras

Extasiadas, as tropas do regime salivam e rosnam acusações de irresponsabilidade e cobardia, apesar da inquietação causada por um movimento que a esmagadora maioria não antecipou e que poderá ter um impacto inesperado na estratégia dos seus caciques para as Legislativas: na passada Quinta-feira, Alexis Tsipras comunicou à Grécia e ao mundo a sua demissão, na sequência da conclusão do acordo para um novo empréstimo e consequente recebimento da primeira tranche. Depois da chantagem, Tsipras baralhou e voltou a dar.

Consciente de todas as limitações e pressões de que o seu governo foi alvo e que o impediram de concretizar grande parte dos seus compromissos eleitorais, Tsipras decidiu devolver a palavra ao povo, apresentando-se novamente a escrutínio ao invés de virar as costas ao problema como a propaganda do regime tenta fazer crer. Serão os gregos a decidir se reforçam a confiança no Syriza ou se preferem um regresso ao passado e às garras daqueles que efectivamente arruinaram o país.

Por cá temos um primeiro-ministro que prometeu, entre outras coisas, não aumentar impostos e não “alienar participações como quem vende os anéis para ir buscar dinheiro, fez tudo ao contrário e ainda por cá anda. Já Tsipras teve a decência de assumir que não foi para isto que foi mandatado e que se viu forçado a aceitar um acordo com o qual não concorda mas que, perante o cenário que lhe foi imposto, entendeu não ter alternativa, motivo que o levou a colocar o lugar à disposição. Nem todos se agarram de forma fanática e doentia ao poder como os oligarcas politico-partidarios que temos por cá. Outros, como Paulo Portas, recorrem à chantagem sobre os seus próprios parceiros de coligação e ameaçam demitir-se apenas para emergirem com um pouco mais de poder.

O que sucede? Sucede que, a confirmar-se um novo acto eleitoral a 20 de Setembro como tem sido avançado pela imprensa, teremos eleições na Grécia antes mesmo destas acontecerem em Portugal e Espanha. E se em Portugal parecemos condenados a mais do mesmo, ganhe o PS ou as brigadas fanáticas pró-austeridade da coligação, em Espanha uma vitória do Syriza poderá ser decisiva para as aspirações do Podemos e do Ciudadanos. É que com Rajoy e Passos Coelho a apostar todas as fichas no desastre grego e na queda com estrondo do governo de Tsipras, uma nova vitória ou mesmo um possível reforço da votação no Syriza poderá ter efeitos directos nos resultados na Península Ibérica e significar uma dura machadada na poderosa máquina de propaganda dos mercenários. O próximo mês e meio será decisivo para o futuro da Europa.

Espera-nos por isso um mês de mentiras e manipulações sobre o Syriza, em linha com o que aconteceu antes do referendo quando a imprensa e os fazedores de opinião encostados ao regime garantiam uma vitória folgada do “sim”, apoiados nas mais variadas aldrabices, até ao desfecho final no dia 20 de Setembro. Apesar deste verdadeiro esforço de guerra, dizia-me um amigo cipriota profissionalmente ligado à Grécia que é expectável que o Syriza ganhe as eleições, reforce a votação, e que não chegue sequer a precisar do actual parceiro de coligação. Não admira: os gregos sabem quem arruinou o seu país e já tiverem a sua dose de corrupção e incompetência do bloco central.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Retiro do seu texto a frase : “(…) os gregos sabem quem arruinou o seu país e já tiverem a sua dose de corrupção e incompetência do bloco central (…)”.
    Nós também devíamos saber quem nos arruinou, mas continuamos a cantar a canção do “saltimbanco” enquanto os contendores políticos “assaltam os bancos”… para além da maioria eleitora continuar a valorizar a mentira e a incompetência.

  2. Nightwish says:

    É preciso não esquecer o Corbyn no Labour.
    Eu estou mais do lado da facção que saiu do Syriza relativamente à solução final.

  3. Anónimo says:

    O Syriza ganhou as eleições com a promessa de acabar com a austeridade e a recusa de ceder aos ditames dos alemães fanáticos pró-austeridade. Durante meses, recusou aceitar as condições impostas pela troika com o argumento de que representavam a ruína da Grécia e de que havia uma alternativa melhor. Convocou um referendo em que os gregos validaram de forma esmagadora essa postura.
    Após o referendo, negociou com a troika precisamente o oposto do que prometeu em campanha e defendeu durante meses (com um enorme custo para a economia grega e para os gregos) e o oposto do que os gregos lhe disseram que fizesse.

    Agora, depois de comprometer a Grécia e os gregos com algo com que “não concorda” (e que, supostamente, representaria a ruína da Grécia), vem assumir que a alternativa à “austeridade imposta pelos fanáticos pró-austeridade” é pior do que esta austeridade, que negociou e passou para Lei algo que não tinha mandato para fazer e que quem antes o acusava de irrealista e irresponsável tinha toda a razão.

    A pergunta que se impõe é: o programa com que o Syriza vai agora a votos é anti-austeridade (como o do ano passado) ou pró-austeridade (como o que defende agora ser a única opção para a Grécia)?


  4. O que estraga o retrato é a situação real. Enquanto depois de governação heroica do Tysipras, acabou por ser uma medida excepcional da Merkl a por ordem na paralizada vida finaceira e economica grega, por cá os indices ( e Espanha), não dão descanso a demagogia da oposição, ultrapassando o que os líricos propunham para daqui a dois anos! que porra de realidade que desmente a sabedoria e galambices dos espertos!!


    • Quais indices Cristo? Refere-se aos números manipulados do desemprego, as ligeiras melhorias nas taxas de juro proporcionadas pela acção do BCE ou o aumento de exportações ao sabor da Petrogal? Exactamente a que é que se refere? Diga-me pF! será ao fosse entre pobres e ricos que não pára de aumentar? Ao SNS degradado? `Á escola pública sem condições que contrasta com o aumento do financiamento ao sector privado de educação onde os amigos e compadres do bloco central ganham milhões? Que indicadores são esses? Que porra de realidade e como que raio de óculos é que você a vê? Com os óculos do PaF? Boa, seja muito feliz então. Merece cada corte de reforma que lhe espetam.

    • Nightwish says:

      Quem destruiu paralisar a finança grega foi o BCE com ordens da Merkel, ilegalmente.
      Factos e direita não se misturam.

Trackbacks


  1. […] expectável. Há uma semana e meia, a minha bola de cristal avisou-me que as manipulações e as mentiras sobre o… e eis que, a poucos dias da votação, surge o primeiro do contra-ataque do império que controla […]

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