A tempestade que semeamos

Refugees

Não vale a pena insistir no óbvio, muito se tem escrito sobre ele. Que é uma catástrofe humanitária, uma fuga desesperada de quem não tem mais para onde fugir e procura um mínimo de segurança para si e para os seus. Que a Europa, que se gaba por ser o bastião da paz, da solidariedade e da tolerância tem demonstrado enormes dificuldades em lidar com o problema, incapaz como de costume de falar a uma só voz e poluída por sujeitos mesquinhos como Viktor Órban, o fascista a quem curiosamente a imprensa apelida de conservador – o facto de liderar um partido que pertence ao PPE será apenas uma coincidência – pois, como sabemos, radicais são os do Syriza. Que temos a sensibilidade de uma folha de Excel de um qualquer ministro das finanças pró-austeridade e que infelizmente ainda precisamos de ver a imagem de uma criança morta na praia para percebermos a dimensão apocalíptica da situação. Sim, já todos sabemos isso. Não nos permitimos sequer não saber.

Mas para além do óbvio comum, olhemos para o outro óbvio que muitos parecem ainda não ter entendido: depois de anos de exportação de violência para o Médio Oriente e Norte de África, o Ocidente estava à espera de quê? De se manter hermeticamente fechado para o problema enquanto beneficiava do petróleo dos desgraçados, lhes vendia armas e para lá enviava as suas empresas de construção para reerguer aquilo que havia ajudado a pulverizar? Achava mesmo que podia continuar a treinar terroristas, a armar fanáticos e a patrocinar bombardeamentos que pouco mais fazem do que beliscar os alvos reais, provocando ao invés a destruição de hospitais, escolas e das vidas daqueles cuja vida é já um pesadelo e que se transformam assim em presas fáceis para o recrutamento de soldados sem nada a perder, cegos e movidos pelo ódio, tudo isto sem consequências?

Tal como o Iraque, também a Síria está pior, muito pior, do que quando a boa nova da democracia ocidental chegou. Como um cão obediente segue o seu dono, os estados europeus têm seguido os EUA nas suas invasões e outras violações de soberania, regra geral com o intuito de depor ditadores que já o eram no tempo em que eram recebidos com toda a pompa e circunstância em Washington, Londres, Paris ou Bruxelas. Apoiamos, directa ou indirectamente, intervenções no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria e o que lá ficou depois dos mísseis da democracia ocidental foram infernos na terra onde impera a lei do mais forte e a arbitrariedade de quem ficou com as armas no dia em que os soldados da paz foram embora.

O autoproclamado Estado Islâmico (EI) é o resultado mais visível desta política externa norte-americana apoiada pelo Velho Continente. Não é um exclusivo, ainda que as raízes do colonialismo ou o patrocínio de diferentes golpes de Estado tenham desempenhado o seu papel no passado, mas a verdade é que muitos combatentes do EI são dissidentes dos movimentos rebeldes que se fartaram de combater Assad pela libertação da Síria e passaram a combate-lo pela supremacia do fundamentalismo. Os tais que ajudamos a armar. E entre os que agora fogem é mais que certo existirem infiltrados jihadistas que se aproveitarão do desespero da maioria para trazer a violência e o radicalismo para o continente europeu e que terão nos indigentes, nos que sofrem às mãos de fundamentalistas como aqueles que governam a Hungria, terreno fértil para o recrutamento futuro que lhes permitirá expandir células terroristas que, como ervas daninhas, se multiplicarão pelas democracias ocidentais.

Com tantos burocratas pagos a peso de ouro em Bruxelas, será que ninguém antecipou esta possibilidade? É possível que não. Os burocratas de Bruxelas não são, em grande parte, melhores que os boys que dão a países como Portugal admiráveis experiências de gestão danosa. Por outro lado, nada fazia antever este cenário: os conflitos nos países de origem da maioria dos refugiados não sofreram agravamentos recentes que expliquem este boom migratório e, apesar de tudo, fazer a travessia tem um preço, preço esse que os recursos praticamente inexistentes de sírios, afegãos, somalis ou iraquianos não podem pagar. E se não podem, de onde veio o dinheiro para pagar aos mercenários que transportaram mais de 100 mil pessoas nas últimas semanas? Terá sido o preço que o EI se predispôs a pagar para infiltrar uns quantos dos seus ou estaremos perante algo ainda mais obscuro? Seja como for, se nós, europeus, não estivermos à altura da situação, então o projecto de paz e solidariedade a que nos propusemos estará oficialmente morto. Já chegaram os ventos que por lá ajudamos a semear. A tempestade que agora colhemos não é mais do que o fruto das opções políticas das pessoas que colocamos no poder. As nossas opções.

Comments

  1. Anónimo says:

    Tudo bem Sr. Mendes.
    Exerce algum cargo político responsável a nível nacional ou europeu ?.
    Esse plural majestático não deveria ser usado com mais parcimónia ?.
    Acha mesmo que todos os europeus(!?) são responsáveis pelas imbecilidades das tais “burocracias” nacionais e europeias?.

  2. R.J. says:

    A “boa nova da democracia ocidental”. Conhece mais alguma ?
    A não ser que defenda o fascista Bashar-al-Assad e o seu aliado envergonhado russo.
    https://en.wikipedia.org/wiki/Russia%27s_role_in_the_Syrian_Civil_War

    O João Mendes ainda não percebeu que se pode recuar eternamente na história e atribuir todos os males futuros a qualquer política anterior ?
    Será que as suas analises profundas conseguiram prever a dita “Primavera Árabe” ?
    De previsões do dia seguinte está o inferno cheio.

    Só lhe faltou dizer que o chamado Estado Islâmico é fruto da política expansionista do Vasco da Gama.


    • E você Romeu, acha que a boa-nova da democracia ocidental funcionou em algum dos países invadidos e/ou atacados no Médio Oriente? Diga-me lá um sff!

      Não diz, sabe porquê? Porque estão todos pior. Sem excepção.

      • R.J. says:

        É como julgar o 25 de Abril pelo que aconteceu com este governo do Passos Coelho.
        Dê tempo ao tempo. A magia é no circo. A evolução tem altos e baixos.
        O que é vulgar em si é culpar os EUA, a Europa e o Ocidente por todos os males desta Terra. Esquecendo-se convenientemente do papel que Russia e China têm e tiveram no passado recente.

    • José almeida says:

      Sr. R. J., criticar como faz é fácil. Já ter uma opinião como a de Jorge Mendes é mais complicado. A geração espontânea não existe. Tudo tem uma causa real, independentemente do posicionamento da opinião de cada um. Desde o 11 de Setembro que os EUA encetaram uma perseguição e uma guerra global contra os seus inimigos, que são nossos também por afinidade. Seja sério na observação e veja como estão os Bálcãs hoje e há 10 anos atrás. E a Tunísia, a Argélia, o Egipto, o Paquistão, o Afeganistão, o Irão, a Síria, a Ucrânia e as relações com a Rússia, Chade, a Somalia, o Boko Haram, a guerra sangrenta que há uns meses Israel impôs à Palestina, que culminou com uma surpreendente vitória de Netanyahu nas eleições imediatamente a seguir. O aparecimento de EI e a sua expansão. Deixe o Vasco da Gama em paz e dê a sua opinião tal como fez o Jorge Mendes.

      • José almeida says:

        João Mendes, desculpe a troca do nome por Jorge Mendes.

      • R.J. says:

        Quer a minha opinião ? A causa deverá estar em nós seres humanos, em todos os países, assim como deverá ser de todos a responsabilidade de atenuar a presente crise e aprender qualquer coisa com ela.

        Se fosse fácil saber a causa, certamente seria fácil prever e evitar que se repetissem os mesmos erros.

        Procurar os culpados é como tentar saber qual foi a puta da borboleta cujo bater das asas provocou o ultimo furacão.

  3. Paulo says:

    Só gostava de saber porque é que a Líbia fica SEMPRE de fora

  4. Rui Moringa says:

    O postal é muito bom. Devia-mos pensar mais sobre quem escolhemos e sobre os momentos em que fomos manipulados para não escolher, por ex.: não referendamos a entrada na CEE e não referendamos a entrada no €.
    Os refugiados são vítimas, sim vítimas de guerras e inabilidades dos dirigentes dos seus países em primeiro lugar.
    Atrevo-me a considerar que são um instrumento de uma nova fase da guerra na Líbia e nos países próximos Iraque e de alguns no Norte de África.
    É a guerra senhores, numa nova fase.
    Um dos alvos é a Europa, mas não por meio dos refugiados, mas de quem orquestrou isto (Rússia e seu correligionário na Líbia e com os “gostos” dos Iranianos..
    Como se lembraram agora de vir para a Europa. A guerra já dura há muito tempo!!!

  5. omaudafita says:

  6. Apoiado.As posições iniciais do Camarão e do holandinho são de pulhas (agora já suavizaram a jogada). E se nos lembramos quem da UE se mostrou mais interveniente na Siria, Libia, Iraque …podemos entender melhor como esses criminosos, nem as suas responsabilidade sabem assumir; e com diz o cartaz : quem apoia estes políticos, não se podem considera vitimas mas sim cúmplices.
    Pensem pela propria cabeça e deixem de fazer de adeptos de clubes, em assuntos não clubistas.

Trackbacks


  1. […] Fonte: A tempestade que semeamos […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.