Eles nunca sabem ao que vão

Passos

Numa entrevista conduzida pelo simpático e inofensivo Vítor Gonçalves, Pedro Passos Coelho passou ontem pelos estúdios da RTP para debitar as exactas mesmas coisas que tem dito todos os dias – com a excepção do nome de José Sócrates, por recomendação médica e imposição da malta que lhe diz o que deve dizer nestas coisas – pelo que não veio qualquer novidade ao mundo. A venda do Novo Banco não é nada com ele, Portugal está um espectáculo, visto das varandas da São Caetano e do Caldas, e a economia gera emprego cada vez menos precário, pelo menos no que às suas clientelas diz respeito. Tudo isto sem esquecer, claro, o momento kodak de António Costa no debate de hoje, que tanto gosta de falar de números apesar de se ter espalhado ao comprido nas contas sobre as prestações sociais. Passos, tal com Costa teria feito, não perdoou.

Não menos interessante foi esta intervenção do primeiro-ministro, que sobre os vários embustes que usou na campanha de 2011 se tentou esquivar assim:

Eu não vou regressar a toda a discussão do que foram os dois primeiros anos do nosso ajustamento. Recordo apenas que a situação de partida não era aquela que constava do memorando de entendimento e portanto a surpresa que eu tive, quando cheguei como primeiro-ministro, à altura que tínhamos que preparar a primeira reunião com a Troika, e percebemos que os valores que estavam previstos para o défice daquele ano não seriam nem de perto nem de longe atingidos, porque tínhamos um desvio que passou para a comunicação social até, pelo menos a comunicação amplificou como fosse colossal, não sei se se lembra disso, eu disse na altura que tínhamos um desvio que obrigara a um esforço colossal para corrigir. E não me enganei nisso. Quer dizer, o desvio que tínhamos era superior a 1% do PIB, e a única possibilidade que eu tinha era ou tentar cumprir para Portugal não ter um segundo resgate, e portanto livrar os portugueses de uma experiência que nós já estávamos a ver do lado da Grécia, o que podia custar para futuro, ou tentar proteger a minha credibilidade, e nesse caso deixar o país mesmo ir ao charco. A minha opção foi instintiva e inequívoca.

Um clássico. Em campanha tudo eram certezas e as acusações de que se preparava para aplicar cortes violentos, aumentos colossais da carga fiscal ou a venda ao desbarato de património estatal mais não eram do que mistificações da esquerda. Uma vez no poder, a desculpa para ter feito tudo o que disse que não ia fazer é a habitual, outro clássico do bloco central que tudo promete antes de chegar ao poder: isto afinal não era bem como nós estávamos à espera. O instinto de Passos Coelho foi certeiro: a sua credibilidade não tinha salvação possível. E o país mantém-se no charco. Ou será pântano? De tanga?

Foto: Lusa/Sábado

Comments

  1. Fernanda says:

    A grande manipulação e propaganda continua em força em quase toda a comunicação social, escrita e falada.

Trackbacks


  1. […] patetas o que lhes diz quando o confrontam com as falsas promessas com que se fez eleger em 2011: que não sabia ao que ia. Uma desculpa fácil que convence adeptos fanáticos e uns quantos patetas. João Almeida bem […]

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