Um homem não chora, João.

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Passavam 20 minutos da uma da manhã, estava eu deitado no sofá a fingir que via televisão e o meu telemóvel toca. A tentar recuperar do susto atendi, era o João José Cardoso ou, como indicava o visor, o JJC. Nessa altura eu estava no centro de um furacão por causa de uma entrevista e o João queria puxar-me as orelhas. Pelo que eu disse, como quase todos os amigos nessa altura? Não, pelo meu silêncio absoluto após a mesma. Era assim o João.

Um apaixonado por causas, fossem elas a sua Coimbra, as suas ideias, o seu FC Porto e a sua Académica, os seus amigos ou o seu blogue. E que apaixonado ele era. Ninguém, excepto os que o conhecem, imaginam o que era o João apaixonado. Nem imaginam as vezes que telefonava, fosse a que hora fosse, por causa das mais intensas batalhas da blogosfera. O Aventar isto, o Aventar aquilo, “publica pá, que se foda, temos de dar uma coça a esses gajos”. E quem eram “esses gajos”? Depende da época, da batalha, do momento. O importante era combater, não dar tréguas, ir à luta. Tudo menos falinhas mansas. Sempre de antes quebrar que torcer.

Aparentemente, estávamos ideologicamente distantes. Só aparentemente. Sim, o João era de esquerda e eu de direita e essa poderia até ser uma enorme diferença. Mas não era. O João era um homem de causas e essas não são património de nenhuma ideologia. O João era corajoso, frontal, por vezes até incómodo mas sempre genuíno. Era o que era e ou se amava ou odiava. Por vezes ultrapassava os limites? Quem nunca os ultrapassou??? Por vezes era violento na argumentação? Ora bolas, um exemplo de um homem apaixonado que nunca o tenha sido, um exemplo, um só? E como todos os seres apaixonados era igualmente apaixonante. Era assim o João. E porra, pá, um homem não chora!

Poucos dias depois, liga-me um amigo que faz o favor de ainda ser jornalista, para me fazer uma pergunta: “Quem é o João José Cardoso?”. Expliquei-lhe que era um amigo meu do Aventar. Ao que ele me responde que o João devia ser um grande amigo, daqueles do tamanho do mundo. A justificação era simples, o João, sem eu fazer a mínima ideia, andava entre páginas de facebook e blogues a desancar numa série de malta que, pelos vistos, me criticavam. Perdi o pio. Completamente. Era assim o João.

Por isso, quando hoje o João Mendes do Aventar me telefonou a contar que o João não tinha conseguido matar o filho da puta do bicho que se apoderou dele recentemente, fiquei sem palavras. Porque perdi um amigo, um grande amigo. E fiquei a pensar, “foda-se, devia ter-me metido no carro e levado a água das pedras que o João pedira ontem na sua página de facebook!”.

João: fica comigo, para mim, a nossa última conversa, tida recentemente na esplanada do “Santa Cruz” em Coimbra e tudo o que nela aprendi sobre a tua Coimbra. Nunca me passou pela cabeça que seria a nossa última conversa ao vivo e a cores, pá. Raios parta. Um homem não chora, João!

Até um dia destes.

Comments

  1. R.J.O.m says:

    Tenho a impressão que uma das últimas intervenções do João aqui no Aventar foi um comentário a defender-te.

    Até os mouros te choram. Até sempre, João.

  2. Anónimo says:

    Partiu o meu “adversário” favorito aqui no Aventar, mas não se livra de mim assim tão facilmente, porque um dia deste será minha vez e quando eu lá chegar… acabou-se o “descansa em paz” Por agora presto-lhe aqui a minha homenagem.

  3. César Rodrigues says:

    Os amigos são assim…
    E JP, um homem chora!!!
    Abraço

  4. Paula Sofia Luz says:

    O meu dia gelou hoje, quando a Myriam Zaluar me telefona de Lisboa (é assim este nosso tempo) a perguntar se era ele. Nem tão-pouco o sabia doente. Só hoje o Nabais me contou. Não estivemos pessoalmente mais do que três vezes: numa homenagem ao João Mesquita, numa manifestação Que se Lixe a Troika, e num almoço do Aventar. Mas foi esse, que descreves, o João que eu conheci. Essa diferença não existe entre os homens de corpo e alma. Bonita homenagem, esta.